quinta-feira, 27 de maio de 2010

Vintesete

Eu poderia calçar minhas luvas negras mágicas e criar você. Com minhas mãos eu poderia espalhar todas as células do seu corpo, e com o menear de meus dedos eu poderia proporcionar suas curvas, para que com o meu indicador eu riscasse um sorriso no seu rosto. Poderia dar-lhe músculos e sentidos, e você andaria e correria. Juntos poderíamos compartilhar os arrebóis e quem sabe parar para um sorvete. Mas o calor da vida só é sentido no sangue que vaza dos talhos que o destino abre na nossa felicidade, e fazer-te sofrer seria pior do que nunca ter lhe enchido os pulmões pela primeira vez.

Eu poderia erguer meu lápis negro e desenhar você. Poderia construir a simetria perfeita em seus lábios, poderia calcular o tamanho perfeito de seus braços, quase sentindo o afeto de seus abraços. Eu poderia despejar as tintas e sentir vibrarem minhas emoções só de olhar para as suas cores.E na paisagem ao seu redor, eu faria de tudo para que ela só viesse a realçar você, e todas as qualidades que eu vejo em você. Num momento de exultação incontida, talvez eu pudesse sentir o palpitar de um coração, mesmo que só de mentirinha, na minha folha de papel. Mas desenhos, tanto quanto fotos, são as coisas mais tristes. Lembretes de coisas boas que não vão voltar nunca mais; ou, no seu caso, o desenho na minha parede seria apenas um convite à lembrar que eu jamais iria lhe encontrar de verdade. Aí, eu teria que destruir o papel antes que ele me destruísse. Chega um ponto em que o criador deve escolher entre si e suas criações.

Eu poderia deitar na minha cama negra e sonhar você. Eu poderia me surpreender com as maravilhas que o meu eu interior viesse fazer com a sua aparência e o seu jeito de ser. Ele seria sempre genial, e você sempre mais impecável, já que ele é a idéia das minhas idéias. Você estaria sempre bem, e eu estaria sempre com você. Poderíamos montar um boneco de neve juntos, vestindo roupas de cores contrastantes, e você me maravilharia com a sua precisão com os detalhes, ou quem sabe ainda pudéssemos tentar cozinhar juntos, o nosso gosto exatamente o oposto um do outro, e você me corrigiria nas minhas falhas, sempre sorrindo, e eu me espantaria com a sua paciência inabalável. Mas não, essa opção é apenas a mais devastadora de todas. Como eu acordaria de manhã sem você?O que eu ia fazer? E se me esquecesse esse sonho, e restasse apenas a sensação? Sentir a ausência sem ter do que sentir saudades, isto seria um castigo que esmagaria o resto de meus dias.

E então? Sentado numa de três cadeiras na minha sala de solitude, eu afundo nas mãos a cabeça. O que fazer? O que fazer de você? Você é perfeita porque eu sou imperfeito, e apenas as coisas imperfeitas tem a capacidade de criar coisas perfeitas,e vice-versa. Deus é testemunha. Mas será que eu suportaria viver com você? O meu reflexo no espelho me questiona.

Mas será que eu poderia viver sem você?

terça-feira, 11 de maio de 2010

Senhor Direção: 72 horas depois

Ok, a conclusão do motivo pelo qual a maioria das pessoas que acessa o meu blog esperavam: passei no teste de direção.

Fui perseguido, trapaceado, enganado, insultado, desrespeitado, marcado, injustiçado e muitos outros “ados” do qual não me orgulho. Cheguei em um ponto em que, sério, achei que eles iam fazer o meu processo vencer. Já contei que até por ter entrado de primeira marcha na Área de Exames eles me reprovaram, na hora do percurso? Pois é. Todo tipo de idiotice e calúnia que você possa imaginar, been there, done that. Mas não sinta pena, longe disso.

Desde segunda-feira tenho ido e voltado de carro da faculdade, e desde sábado tenho flanado pelas ruas de Manaus. E então, 3 meses de exames e reprovações, para quê? Se você habita por aqui, provavelmente conhece a máxima de que o trânsito é um purgatório. Bem, isso é verdade. Incontestável. Dirijo à 3 dias, e já tenho várias críticas:

1) Os carros possuem um singular sistema chamado luz de sinalização. É de fato um conceito inovador e simples de se usar. Serve para a comunicação no trânsito. USEM, PORRA. Digo, pôr a mão para fora não adianta nada. Eu não sei se você está esticando a mão porque quer mostrar a aliança para indicar que casou, porque você quer me dar tchauzinho ou porque você vai me mostrar o dedo do meio, já que você queria o tempo todo me cortar e eu não deixava. Sério, encoste o dedinho na haste que se eleva à esquerda do volante e SINALIZE. Assim, eu sei para onde você quer ir.

2) Aquelas linhas brancas pintadas no chão são realmente algo fora-à-parte, certo? Digo, muito bonitas. Se você tirar uma foto de cima, olha que jeitoso fica. Legal né? Chamam-se faixas. Servem para conduzir o trânsito. Guiem-se por elas. Botar o carro no meio exato delas NÃO vai me fazer pensar que você é um grande equilibrista ou algo do gênero, isso NÃO prova que você tem um bom golpe de vista. Isso prova que você é um cuzão, e só. Aliás. Se essa faixa for intermitente, isto é, vários risquinhos, e você se orgulha muito indo exatamente no meio, páre. Você NÃO é o Pac-Man comendo as frutinhas, mas eu posso muito bem ser o fantasminha que vai dar game-over na sua vida, animal.

3) Motociclistas. Eu ODEIO motociclistas. Ei, seu MALUCO, seu MENTECAPTO, não é porque o seu veículo é menor que você pode sair costurando o trânsito, ok? Até porque não é pelo fato de o meu veículo ser maior que eu posso passar por cima de você, certo? Mas é o que você IMPLORA que eu faça, toda vez que você simplesmente passa livre leve e solto zunindo pela lateral do meu carro. Seu filho-da-puta.

4) Pedestres. Seres acéfalos, inconsequentes. Digo, eles querem simular Frog, aquele jogo de Atari do sapo atravessando a rua. Suicidas, é o que são. 3 dias, e mais que 5 criaturas já tentaram pintar o meu parachoque. Há pedestres suicidas para todos os gostos: aqueles que atravessam a rua beeeem devagar só porque acham que estão longe (como se eu nunca fosse me aproximar, no meu carro) até aqueles que se jogam como goleiros desesperados atrás da bola, cuja localização eu não posso duvidar que não seja NO MEU PARABRISA.

5) Geral desrespeito pelos semáforos. Não vou comentar. Parar no sinal vermelho virou coisa de gente careta, só pode.

Enfim, talvez o meu blog não seja o melhor lugar para puxar esse assunto. Um livro talvez fosse melhor. O importante é: muito mais que uma nova forma de liberdade, direção é um arcabouço de novos compromissos e desapontamentos. Prepare-se.

terça-feira, 4 de maio de 2010

There's still a lot of growing up to do

Jovens não morrem. Essa é a minha filosofia favorita. Jovens não morrem. Das luzes que xispam pelo painel do carro tarde da noite, acima de um velocímetro inconformado, passando pelas mãos que manipulam num malabarismo indecente sexo, interesse e relações sociais, essas são as mesmas mãos que agarram as golas de blusas alheias, quiçá faltem sorrisos e beijos à esses lábios irados, lábios que não se poupam de sorver todo tipo veneno.

Eu me sinto velho. O meu corpo pesado repousa eternamente num trono de pedra, e eu sou uma estátua viva, eu sou o Homem de Ferro que veio do futuro profetizar a morte dos meus iguais, e eu estou na pista certa de matá-los todos. Eu os assisto todos, apoiando a cabeça com um punho fechado.

Jovens são o futuro, dizem os velhos, mas como pode um novo entender o que eles querem dizer com isso? Se um jovem não morre, ele mais do que ninguém é incapaz de dizer o antes do depois. O homem atravessa a ponte porque, mesmo que atrás não haja necessariamente a morbidez, ele é cego pela promessa de sua ausência à frente. É um problema dos eternos a desconformidade, e você pode sentir a mutação sempre que conversa com um jovem; não é sangue que extravasam suas veias, é um líquido roxo viscoso, que apodrece. São todos meio-humanos-meio-diferentes. Todos têm ideologias diferentes, todos acham que têm o futuro pautado. Acham que sabem como se portar, vejam seu jeito de andar, notem seu jeito de falar, eles riem entre si, parece até que são plenamente capazes de raciocinar. O que tem em comum é simples: sempre incorrem em erro.

Olhe nas minhas costas, enquanto eu me inclino. Eu estou sem blusa nesse trono gelado. Perceba o grande A que eu tenho talhado, entenda o que ele quer dizer. Atente que ele está circulado, adivinhe agora o que eu venho a ser. Enquanto isso, eu já comecei a minha translação.

É tão engraçado. Depois dos 18 anos a idade entra numa zona sombria, e só retomamos a conta depois da primeira grande tragédia. Nós achamos que somos um momento só, mas exige-se muita atenção perceber que à cada dia que o calendário destaca ficamos mais odiosos. Você não se cansa dos seus preconceitos? Tão jovem e já tão carregado, que bagagem é essa? É ela que está muito pesada, ou é você que não sabe como lidar com ela? Sem rugas no rosto e já tanta coisa com que se preocupar. Você não é tão imortal assim agora. Ter medo do certo e do errado é sinal de que ainda há um monte de crescimento por fazer.Discernimento é para os mortos. Achar que todo dia é o fim do mundo é clichê, mas é o que acaba acontecendo. Jovens não percebem que lhes falta uma coisa essencial: o contar dos dias. Cada dia é uma mão de cimento na sua muralha moral. A perspectiva da eternidade pode ser enlouquecedora, eu vos digo, e a imortalidade é a maior causa de morte e de desgraça de que se tem notícia. Ela avassala a muralha dos incautos.

Vejam, eu me levanto. Eu trago a tal tragédia que vai acabar com a sua imortalidade. Eu sou o início do seu fim. Eu vou terminar suas expectativas, eu vou mudar sua perspectiva, eu vou desacreditá-lo de suas assertivas. Observem,apenas observem.

Observem, enquanto eu extendo meu dedo à luz do relógio na parede.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

I Am Iron Man

Iron Man é uma série curiosa. Bem, não guardo aqui sentimentos pela famosíssima série em HQ’s ,já que não a conheço nem jamais a li. Quero tratar da série cinematográfica. Cuja mais sequência, Iron Man 2, chegou recentemente aos cinemas do mundo todo.

Através de pesquisa, soube que nas HQ’s Tony Stark (o Homem de Ferro) sempre é um playboy rico, dono da bélica Stark Industries, e que o seu criador, Stan Lee, o desenvolveu para esboçar no papel sua visão acerca do Comunismo. E, como no filme, o herói começ a sendo capturado por vilões de origem diversa, com o intuito de fazê-lo construir armamento pesado em seu favor. A situação não vai longe: logo Tony constrói uma armadura especial e escapa do coração do lado malvado da história, “tiranu onda”.

Bem, no decorrer dos anos, os oponentes do Homem de Ferro deixam de ser comunistas e seguem aquela sequência lógica da rotina americana: Comunistas, Crime Organizado, Terrorismo... Não obstante, foi isso que me chamou atenção.

O filme Homem de Ferro foi lançado em 2008 para um sucesso de crítica raríssimas vezes alcançado por um filme baseado em quadrinhos. Foi ovacionado como a mais sublime e universal adaptação já feita de uma História em Quadrinhos. Bem, sabendo da premissa da HQ, logo se vê o por quê: o Homem de Ferro é um dos mais interessantes super heróis, pois seu apelo não encontra limites temporais: o Homem de Ferro sempre surgirá, enquanto o homem estiver em guerra. O Homem de Ferro é o sentimento de que há uma batalha à ser vencida. Tony Stark, aquele bem sucedido bon vivant que é forçosamente alienado de seu lar pelas forças do mal, e que percebe então seu dever para com uma causa maior: a paz.

Eufemismos à parte, como todo super herói, o Homem de Ferro é mais uma supremacia enlatada. Enlatada como sardinha, e vendida para satisfazer a necessidade dos jovens de ver desenrolarem situações épicas com as quais eles possam se relacionar. Mas mais original ainda, Iron Man evoca a guerra. A armadura multi-uso de Tony Stark, e suas mil utilidades, cada uma mais belicosa que a outra. E oras, justo quando os EUA estão em uma de suas mais polêmicas guerras, eis que Iron Man surge novamente. Sua armadura brilhante, risca o céu, velocidade fora de sério, rumo ao leste, onde pousa e salva famílias estrangeiras da sua própria parafernalha Stark Industries.

Senhores, 2 anos atrás Iron Man surgiu com uma proposta mais do que austera. É um filme completo, com atitude. Mas dizer dele apenas isso é incorrer em erro; o que não dizer da atuação do sr. Robert Downey Jr.? Um ator com um histórico vertiginosamente decadente, que nos tempos mais recentes atuava em filmes fracassados por meio de favores, também ele se ergue de sua cova, agarrando com unhas e dentes o seu personagem. Com uma atuação excelente, ele transcende seu papel e merece a sua frase-sensação: “I am Iron Man!”. Ele sozinho dá pique ao filme e faz com que o canastrão Tony Stark se torne um personagem realmente carismático. Pois é, sr. Downey Jr., you are Iron Man.

Da recente sequência, pouco a se dizer. O filme abandonou os preceitos anti-armamentistas na tentativa de abraçar uma premissa que chega a ser irritante: o ego de Tony Stark explodiu e agora ele parece achar que o planeta não é mais importante que sua sombra. E nesse sentido, ele crê ter privatizado a paz mundial. O que é bem bobo, se vocês me perguntarem.

Comentários profundos à parte, pode-se esperar grandes atuações de Robert Downey Jr, do Samuel L. Jackson, e até mesmo algumas cenas de ação cheias de testosterona e adrenalina. Algumas risadas também.

E, novamente, uma cena escondida após os créditos =)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Sou só eu, ou você também está se sentindo próximo ao fim do mundo?
Digo, ultimamente, para onde eu olho, está se falando em Apocalipse. Ligo minha TV para assistir Supernatural, e os irmãos estão correndo de um lado para o outro porque o Apocalipse está chegando e o Diabo está em plena atividade, fazendo a social completa, com direito aos Quatro Cavaleiros e tudo. Pego um livro e estou lendo A Estrada, onde o Apocalipse já passou, todo mundo já queimou e fazer a barba é luxo. Banho então é ostentar. Ligo o video game, e o Kratos está matando Deus por Deus, levando o mundo ao seu incontestável fim. E nesse ritmo, vou parar de ir ao cinema,pois um dos maiores sucessos do ano passado foi 2012, e eu não preciso nem dizer que não sobra pedra sobre pedra nesse filme, certo? Fora os filmes em que há epidemia de zumbis. E explosões nucleares. Ou pior do que nós caminhando por cima dos crânios de nossa raça flagelada pela hecatombe derradeira e condenados à danação eterna, é saber que Sex and the City 2 daqui a pouco estreará no cinema mais próximo. Oh Deus, proceda logo aos ritos finais da Bíblia e poupe-nos dessa última provação!
Agora mesmo, acabei de assistir ao filme Legion onde, adivinhem, o mundo está estourando no Apocalipse. Diferentemente do resto da nossa produção cultural, no entanto, no filme nem se fala em demônios. No filme, são anjos que se apossam dos corpos humanos e iniciam a contagem regressiva da raça. O anjo Gabriel comunica ao anjo Michael (que aqui se rebela também) que o fruto da ordem que deu início à esse dia D saiu da primeira cadeira de comando, isto é, foi Deus mesmo. O Diabo estava tranquilo curtindo esse calor infernal, espairecendo aqui por Manaus de sunga verde-limão, sem ter nada a ver. Deus que se cansou dessa desgraceira humana mesmo.
Mas eu não o culpo. Fosse eu assistindo esse auê todo, já tinha era eu mesmo jogado a bomba; ia montado nela até. Digo, olhem atentamente ao nosso panorama. Deus vêm, monta com as próprias mãos o primeiro boneco de massa e o chama de Adão; logo lhe dá uma companheira para que ele não precisasse gastar mais tempo na cozinha. Deus dá tudo o que as pequenas mentes de Adão e Eva jamais poderiam assimilar de bandeija, com uma, UMA simples ordem, e qual é a primeira coisa que Eva faz quando Deus se vira para jogar Pinball no Windows? É, vocês já sabem. E agora, quando menos se espera, você olha para o lado e tem 7 machos, tudo 1,80, macetões, em plena faculdade de Direito, jogando dominó e cantando Justin Bieber. Baby, baby baby.Sem falar que existe gente que acha que Crepúsculo passa perto de ser literatura. Não sei se você já percebeu,mas Manaus não tem elite cultural. A única elite que nós temos são os excelentíssimos protótipos de aborto que se vê por aí no Café Cancun de camisa pólo listrada. Ahazzando _/,,/.
Sério, que fracasso. Mas fora isso,e mudando o rumo desse post, eu acho plausível esse sentimento de fatalidade geral, deveras interessante na verdade. Acho que lá no fundo, as pessoas se sentem desconfortáveis com essa prospecção digital acelerada. Digo, não existem mais fronteiras, e a informação agora viaja de carona com a luz. A sensação é de que tudo está sendo jogado em todos ao mesmo tempo, não há mais ninho sagrado, não há tempo para descansar, não há mais assunto que não se possa abordar. E no meio disso tudo, o ser humano, irrisório como ele só. Aliadas à isso, eu tenho a impressão de que sempre que olho afora da janela, vejo prédios trilhando seu caminho em direção ao céu, como a curiosidade humana que se ergue acima dos grandes segredos. E no fim disso tudo, eu simplesmente creio que o ser humano não foi feito para algumas respostas; acho que nós simplesmente não somos capazes de lidar com certas razões.
Sou do tipo que crê que a coletividade humana necessita de mistério. Tão intrínseco à nossa vontade de conhecer está a nossa necessidade por ignorância. Ponto e contraponto que faço à minha teoria é o sentido perpendicular que damos a Ciência e à Religião. Suponho que não fosse a importância que damos ao conhecimento pioneiro, não iríamos nos preocupar tanto com esses pontos-de-vista. Mas como hoje temos muito no que pensar e nada à que concluir, nada mais justo do que atearmos chamas ao mundo e vê-lo arder de novo e de novo, não?
Bom Fim de Existência para você, caro Leitor.

sábado, 24 de abril de 2010

Haroldo no País da Alice

Na última série de terças-feiras, fiz meu caminho às mãos de um livro. Perguntou-me ele se eu era mais um entusiasta das ciências, enquanto tomava seu chá. Respondi-lhe que sim,claro, ser algum pode renunciar da luz das ciências. Ele me perguntou como estava o tempo lá fora. Eu disse que meio nublado, com jeito de chuva. Meio nublado OU com jeito de chuva?, ele perguntou. Bacon, eu respondi. Definitivamente bacon.
O parágrafo anterior é o tipo de lógica que você encontraria nos livros de Alice (Alice in Wonderland e sua sequência, Through the Looking Glass). Eu nunca tive curiosidade real de ler os livros, mas com a aproximação do filme e a minha namorada sendo uma grande fã da série, finalmente me chegou a oportunidade de lê-los. E que surpresa eu tive.
Os livros foram escritos entre 1860/1870, pelo inglês Lewis Carroll (Charles Lutwidge Dodgson), um meio pedófilo e completo maluco. O livro é uma crítica à profunda busca pela razão da época e a influência que isso produzia nas crianças pequenas; era ainda mais uma leitura deliciosa sobre a visão das crianças sobre os modos e costumes adultos. Alice, uma garota de 7 anos, arruma viagens à outras dimensões, e os livros basicamente contam os encontros que ela trava com criaturas e seres estranhos e únicos. Sempre assim se desenrola a história, encontro por encontro, conversa por conversa. Nesses mundos, a lógica (posso assim me referir?) corre de maneira incongruente. Os personagens que Alice vêm a encontrar são todos adultos,humanos ou animais ou cartas ou xadrez ou nada disso, e parecem quase sempre querer irritá-la ou desdenhar de suas maneiras. Temos então temas que correm nas mais distintas direções. Nunca é possível se ler as entrelinhas.O máximo que se pode conseguir é atribuir sentidos.
O sentido da obra é fugidío. É um clássico da literatura non-sense e, claro, da literatura infantil. Não que as crianças à quem os pais lêem as histórias entendam alguma coisa. Inferno, não que os pais entendam alguma coisa. Carroll faz uma referência aqui outra ali, uma lição aqui outra ali. Mais parece uma coleção de ensaios, suas obras, que histórias de verdade. Mas o que nós temos na verdade é uma bíblia da própria introspecção.Digo, o ser humano tem necessidade por encontrar lógica nas coisas. Não podemos ver uma coisa diferente sem procurar nomeá-la, estudá-la e categorizá-la. Diabos, até o crime já categorizamos, o que mais pode faltar? É quando Lewis dá seu grande chute no saco do mundo. Sua obra tem sido estudada ao longo dos séculos por mais cientistas, matemáticos, sociólogos e sabe-tudos-em-geral do que você pode contar, e todos eles trazem alguma coisa à baila. Todos eles acham coisas novas. Mas é isso que o livro é, um estímulo ao próprio raciocínio à partir do choque. É uma grande página cheia de pontos, e você pode conectá-los da forma que bem entender. Oras,coisas novas estão destinadas serem achadas a cada vez que se lê.
Temos momentos clássicos em que a construção textual de Lewis, o simples modo como ele organiza suas palavras, nos deixa mesmerizados. Temos momentos em que a história é tão bem orquestrada que ela ribomba nos nossos pensamentos e somos deixados à simplesmente imaginar o que ele quis dizer com isso. Temos personagens geniais, como o gato de Cheshire e seu sorriso sombrio de orelha a orelha. Temos a rainha de Copas, que NÃO é a Rainha Vermelha, e que pede decapitações como eu bebo coca-cola. Temos o próprio Humpty-Dumpty em sua irrefutável sabedoria gramatical. Temos as intrínsecas análises sociais onde tribunais são satirizados e organizações políticas compostas por animais falantes; o presidente é um rato.
Eu tenho um personagem favorito em especial, e que pouco é comentado e nunca mais citado: o Grifo. Personagem oriundo de “O País das Maravilhas”, a Rainha de Copas leva Alice até ele para que ela possa ser acompanhada até o reduto da Tartaruga Falsa. Assim que a Rainha de Copas se afasta e manda alguém ser decapitado, o Grifo sorri e se explica à Alice: “É apenas engraçado. Tudo é capricho dela: nunca executam ninguém”, ele diz, irrepreendível. Mais adiante, eles se aproximam da Tartaruga Falsa, uma espécie de sábio recluso, e Alice percebe que a Tartaruga parece estar chorando, triste. “Qual é o problema dela?”, pergunta à qual o Grifo permanece taxativo: “É tudo capricho dela: Não há problema”. (Senhores, aviso: as traduções aqui foram feitas por mim, já que nos livros aqui vendidos trocam a palavra “capricho” por “fantasia” no lugar do inglês “fancy”, tradução que eu acho imprópria e até menos interessante). O Grifo me furtou da atenção logo de começo, com seu ar sério, imponente e suas palavras sordida, explicita e quase grosseiramente reais. Ele levantou em mim o mais violento questionamento acerca das futilidades humanas. Quase como se ele chegasse para você e falasse,acerca da sua ida constante ao Café Cancun ou pubs em geral, da maneira mais fúnebre possível, “É tudo capricho seu: não há diversão em boates”. Gente,eu grito à plenos pulmões, OQUEVOCEIAFAZERDASUAVIDA?
Isso quase me deu vontade de mudar o nome do meu blog para Grifo ou algo do gênero, o quê, na minha visão, seria deveras apropriado, não? Mas por imperativo estético, eu creio que nadaDireito é mais interessante.
Alice adquiriu a imortalidade, transcendeu o tempo. E eu acho que essa é mais uma obra que não é apreciada como deveria. Digo, eu acho que todo aficcionado por leitura deveria ter uma edição descansando na sua estante. Eu disse antes que Lewis era meio pedófilo e completamente maluco, mas isso foram preliminares. Lewis era autor, matemático,filósofo sobre a lógica e até fotógrafo. E você aí chupando o dedo indo pro Café Cancun, amassando né? Dizendo que só quer ler Machado de Assis e Shakespeare, nunca entendeu uma palavra.
Mas eu peço encarecidamente dos senhores o seguinte: desconsiderem o filme que chegou recentemente aos cinemas, obra infame e desqualificada do Tim Burton. Sério, o filme é um fracasso. Poderia muito bem se chamar Alice no País de Nárnia, ou algo assim. Alice no País dos Roteiros Repetitivos. Alice no País da Péssima Atuação do Johnny Depp. Alice no País do Vacilo, sei lá. Apenas mantenham isto em mente: O filme não tem bulhufas que ver com os livros consagrados.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Confusão Constitucional

Certas coisas, eu não entendo.
Não entendo, por exemplo, por que eu continuo tentando passar no Exame de Direção, visto que já está plenamente óbvio que o DETRAN só vai me fornecer uma carteira B quando eu tiver competência e habilidade notável na operação de naves espaciais. Não entendo por que diabos o nintendo Wii vende tanto se qualquer um com meia capacidade cognitiva sabe que ele é um fracasso. Mas o que eu não consigo entender mesmo é o nosso poder judiciário.
Amanhã terei prova de Direito Constitucional, matéria ministrada pelo prof. Yuri Dantas, homem que apesar da extrema sapiência em matéria jurídica, eu admiro ainda mais pela paciência de ter chegado tão longe em Eternal Sonata, para Play Station 3. Digo, a matéria do Poder Judiciário está pacificada na doutrina. As competências, a administração, os órgãos, tudo. Está tudo lá. O Poder Judiciário está em perfeita harmonia formal.
Mas ainda assim, a sua execução é um fracasso. A Constituição, por exemplo, prevê andamento célere nos encargos processuais, e ainda assim, nossos processos são obras quase hereditárias, se é que você me entende. O Amazonas Shopping te manda pagar o maldito ticket de estacionamento,e então, próxima coisa que você sabe são 5 anos no tribunal, o Supremo Tribunal Federal todinho às voltas com a matéria, o Gilmar Mendes coçando o queixo e o processo ainda na justiça.
Bem, hipérboles à parte, o Poder Judiciário não é o problema, nós sabemos disso. A Constituição não é o problema, de igual modo. Digo, abra-a e perceba como ela é linda e completa. Completa até à exaustão, eu diria. Perceba você, caro leitor, que o problema não está nesta obra brasileira, mas no brasileiro em si. Digo, o brasileiro existe para estragar suas melhores obras, já perceberam? O brasileiro tem toda uma bíblia jurídica de proporções magníficas, de uma abrangência panorâmica, e ainda assim vai para o tribunal porque intimou o vizinho a não erguer o muro à certa distância, e o filho da puta foi lá e ergueu a porcaria do muro mesmo assim. Digo, brigamos por batatinhas aqui, você me entende? O brasileiro é dotado de uma falta de educação, de uma necessidade por levar vantagem, que é sem precedentes. É quase imundo, por vezes. Se o mundo fosse um fast food, os países ricos seriam aqueles que entram na fila e pedem um refrigerante grande para toda a família, mesmo sabendo que eles podem pedir refil quando bem quiserem. O brasileiro é aquele que estaciona na vaga de deficientes do lado de fora, manda o filho sair mancando, entra na fila e pede um refrigerante grande para a esposa e os dois filhos, para depois ficar mandando o filho voltar e encher. É claro que se esse restaurante encher de brasileiros, vai virar um caos. É o que nós temos aqui na nossa terrinha, um caos jurídico. Você pega um livro de Direito Civil das Obrigações, e é ridículo, praticamente toda a matéria é lógica, chega quase a ser matemática. O Direito das Obrigações, para você que não sabe, é aquele que regula as interações sociais de ordem econômica, é você comprando chiclete na lojinha do Seu Antônho, e a partir daí um rol de situações que podem vir a ocorrer.
O que eu quero dizer, meus caros leitores, é que o problema jurídico brasileiro não está na doutrina. Está no brasileiro. Tanto os brasileiros civis que querem sempre levar vantagem um em cima do outro quanto nos juristas brasileiros, que querem levar vantagem em cima dos civis. É até questionável essa reprimenda que as pessoas tem em cima dos políticos, eu diria. Para você ver, a nossa Justiça é tão apurada, que cumpre à risca o preceito eleitoral: nós temos no poder gente igual...à gente! Digo, o sistema político é representativo. E quem mais cabível para representar o povo brasileiro do que... gente safada? Qual melhor representação podemos ter na presidência do que um presidente ignorante...no seu segundo mandato? Vocês vêem o que eu digo? O brasileiro tem essa necessidade de apontar as faltas alheias com o dedo, mas ele nunca pára para se perceber. É por isso que continuamos com esses representantes incompetentes, desde os políticos batedores de carteira e eleitoreiros até os ministros do STF, STJ, juízes, você escolhe, que fazem favores uns para os outros, adiam julgamentos, atrasam, manipulam, ou simplesmente são incapazes de produzir uma sentença justa.
O que esse país precisa não é de uma revolução jurídica, é de uma revolução individual, de uma conscientização geral.
Mas sei lá. Isso é só um blog, eu tenho só 18 anos, e estou na página 1034 do meu livro. É chato reclamar do que não se conhece. Vai ver, eu só quero fazer um pouco de barulho.