sábado, 9 de março de 2013

Coração de Lutador, parte 3.

                                                     Subtítulo: Mudança nas regras
 37 anos tinham chegado e partido.
O coração do Médico estava acelerado quando os seus pés desceram do carro ao chão. A casa à sua frente era exuberante, fiel rebento da bela arquitetura. Não chegava a ser a mansão que ele imaginava, mas o bom gosto não se mede em metros quadrados. O motorista que lhe levara ali logo se adiantou para conduzi-lo à porta da frente.
Dentro da casa, uma senhora que trabalhava era a única pessoa à vista. Na sala onde o Médico foi deixado para esperar, retratos de família e pôsteres de outros tempos adornavam mesas e paredes. Metade dos pôsteres mostrava o dono da casa nos tempos em que ainda lutava, e o Médico sabia identificar todos os eventos.
Muitos anos no passado, apesar de não gostar de MMA, o Médico forneceu seus serviços em um evento de lutas, e foi o suficiente para modificar sua opinião sobre o esporte. Logo na sua primeira intervenção, o Médico tomara uma decisão em relação ao diagnóstico de um lutador que acabara evitando que o seu oponente, que era o favorito, ganhasse. O Dono desse evento dissera que tomaria as providências para que ele nunca mais fosse convocado para diagnosticar lutadores novamente, e assim o fez. O médico não mentiria se dissesse que aquilo pouco lhe importara; na verdade, aceitara a oportunidade apenas para prestar favor a um colega e não chegara a pretender tornar aquilo profissão. O que importou de fato foi o efeito que aquilo lhe causou: entrara no octógono pela primeira vez um crítico do esporte, saíra amante. Daquele dia em diante, acompanhou todas as lutas de artes marciais de que teve oportunidade. E era por isso que conseguia nomear cada uma das lutas ali representadas, seu ano, seus vencedores e outros detalhes técnicos.
- Vejo que minha coleção pessoal lhe agrada, doutor. – uma voz de repente deu vida ao ambiente em volta do Médico, que não conseguiu conter a empolgação .
Aquele por quem o Médico quebrara as regras médicas, e que posteriormente o  mundo consagrou como “O Lutador Paciente”, estava ali, bem na sua frente, como apenas uma única vez esteve antes, 37 anos atrás. E o Médico ficou chocado.
Há tempos não se via fotos do Lutador. Aposentado aos 42 anos, o lutador abraçou o ostracismo não muito tempo depois. Não saía mais de casa, e quando o fazia tomava as precauções para não ser capturado pelo olhar ou câmera de ninguém. Não se sabia explicar por quê. A fama em excesso havia lhe exaurido, diziam. O Médico, aliás, pessoalmente, sempre acreditara nesta teoria.
Responsável em grande parte pela popularização do MMA como esporte, o Lutador Paciente foi erguido ao status de ídolo mundial. Dono de uma personalidade magnética que encantava qualquer um, junto com uma qualidade sem precedentes nas artes marciais, o Lutador foi explorado em excesso pela mídia. Alvo das grandes revistas e das grandes manchetes por anos, ele parecia dificilmente obter sossego. O interessante é que, apesar de tudo, de onde quer que se olhasse, ele manteve uma conduta exemplar. Nunca fora sequer parado por dirigir alcoolizado. A dedicação ao esporte, por sua vez, era perceptível a qualquer um que assistisse lutas suas em sequência; as melhoras eram sempre evidentes. Após a vitória na noite em que o Médico evitara que ele fosse impedido de lutar, o Lutador Paciente precisou vencer mais três lutas para conseguir a disputa pelo título, empreitada em que foi igualmente bem sucedido. A luta aconteceu em 2 anos no evento, e o Paciente contava então 25 anos de idade.
Deteve o cinturão dos médios durante 11 anos, estabelecendo um recorde folgado. Durante seu sexto ano de reinado, ele subiu à categoria dos meio-pesados, em desafio ao campeão desta, e o venceu, tornando-se detentor de 2 cinturões, que manteve por mais 4 anos.
Até que sofreu sua primeira derrota na organização, na sua 4ª defesa de cinturão nos meio-pesados. Com 35 anos, seus reflexos começaram a minguar. Conseguiu defender o cinturão de sua categoria original, os médios, mais uma vez. Logo em seguida, perdeu-a também. Despido de ambos os títulos, e apesar das especulações da mídia acerca de sua aposentadoria, o Lutador procurou se recuperar e obteve mais algumas vitórias para disputar novamente contra o campeão, angariando no caminho prêmios diversos, inclusive pelas melhores lutas de 3 anos consecutivos. Não obstante, nunca mais conseguiu reaver título algum; a pontuação dos juízes sempre frustrava suas empreitadas.
Até que, na 2ª tentativa de reaver o título dos meio-pesados, o Lutador Paciente sucumbiu a um soco direto seguido por uma avalanche de marteladas na cabeça durante o terceiro round, sofrendo o primeiro nocaute de sua carreira. Foi, indiscutivelmente, a noite mais chocante em vários anos da tele transmissão de eventos de MMA. A equipe de médicos do evento abriu as portas do octógono e logo se aglomeraram ao seu redor. Durante 4 minutos, o mundo assistiu em silêncio enquanto o Lutador Paciente permanecia estirado no chão do octógono, braços e pernas abertos, imóvel enquanto sua respiração rouca puxava ar com dificuldade e barulho (o Médico nunca mais esqueceu aquele barulho: um ranho intermitente, quase inumano, causado pelo nariz quebrado). Após os 4 minutos, que mais pareceram uma eternidade, o Paciente lentamente readquiriu o movimento do corpo e se sentou no banquinho; quando finalmente o fez, foi sob uma salva de palmas. Durante semanas a fio aquela cena assombrou a mente do Médico, que sempre sentira alguma espécie de ligação com o Lutador Paciente, quase como se fossem amigos distantes.
E aquela não foi a sua última luta. Após um ano parado, o Lutador voltou novamente ao octógono, tão destemido como sempre, mas incapaz de reunir vitórias em sequência. Antes de se aposentar, chegara a vencer várias vezes ainda, assim como perder outras tantas; destas, pelo menos outras 4 por nocaute.
Agora, à sua frente, o Lutador Paciente era um senhor. Cabelos prateados, corpo emagrecido, coluna torta. O Lutador precisava de uma bengala agora. Sua face estava já bem enrugada; as cicatrizes dos cortes sob ambas as sobrancelhas eram pronunciadas. O nariz, quebrado algumas vezes no decorrer dos anos, era grosso e lhe dava uma aparência ainda mais rústica. O Paciente tinha 60 anos, mas parecia ter 80. Uma dor indefinida percorreu todo o corpo do Médico, pois a noção de que chamara jovem àquele homem quando o vira pela primeira vez, somada a tantos anos assistindo-lhe lutar, havia tornado impossível desassociar sua imagem do conceito de vitalidade. Agora, entretanto, ele parecia velho e frágil. Mortal. O sorriso que se abriu em seu rosto, no entanto, por algum milagre incompreensível, era exatamente o mesmo que, quando jovem, abria na lembrança do Médico, pouco antes de botar a mão no peito e falar: “Coração, doutor”, 37 anos no passado.
- Quanto tempo, doutor! – falou o Lutador Paciente, estendendo-lhe a mão.
Cumprimentaram-se cordialmente, trocaram palavras de apreço. O Médico, que estava ali a pedido do próprio lutador, aproveitou para agradecer-lhe: sua viagem tinha sido à custa dele. Afastando o agradecimento com a sacudida da mão e agradecendo ele próprio pela presença do médico ali, o lutador chamou-o para sentarem-se. Longa e descompromissada conversa foi entabulada, onde, em diversos momentos, o Médico esquecia-se de conter a própria animação por poder trocar palavras com aquela figura, mas sempre lutando contra a compaixão por sua aparência no peito.
Após não muito tempo, a conversa amena cessou. Um momento de silêncio se seguiu. O Médico sentiu que o Lutador se preparava para dizer algo. Imediatamente sentiu-se mal: a expressão do Lutador não era boa. O olhar deste subitamente foi ao encontro de uma fotografia na parede, e o que ele disse em seguida veio como que fruto de recente lembrança.
- Eu tenho Encefalopatia Crônica, doutor- confessou, subitamente, o Lutador Paciente.
Esta revelação explodiu como uma bomba na mente do Médico; os estudos sobre aquela doença não eram muito acurados, mas sabia-se que ocorria com certos pugilistas e lutadores com muita experiência. Encefalopatia Crônica do Boxeador é uma doença que reúne traços do Mal de Parkinson e o Mal de Alzheimer e que leva invariavelmente à demência. Mas antes que o médico pudesse reunir coragem para falar alguma coisa, o Lutador Paciente deu prosseguimento:
- Meu pai eu desconheço, doutor, e minha mãe foi professora - disse ele, com o olhar ainda em algum lugar, mas algum lugar do passado. Sua fala era devagar, incerta – Ela ministrou aulas no ensino fundamental municipal durante 18 anos, e o fez com alegria e comprometimento- falou, saudoso- Até que um acidente a condenou à paraplegia, isto é.- falou o Lutador. Seu olhar logo ficou cheio de dó.- Um motorista doido, desses de todo dia. Desnecessário dizer que ela perdeu o emprego, mas conseguiu alguma indenização do responsável. O suficiente para nos sustentar durante algum tempo.
O Médico pôde ouvir as mãos do lutador aumentarem a pressão que faziam sobre o cabo da bengala que ele portava. Ele logo percebeu que a mão direita do Lutador tremia fortemente. Sem tomar conta disso, o lutador continuou.
- Pouca gente sabe disso, mas aquela foi a única vez que realmente perdi na vida, doutor.
Subitamente autoconsciente, o Médico sentiu o nervosismo apossar-se dele. Nem sabia o que fazer com as mãos, ou como se sentar. Tudo o que ouvia era novo, até porque o Lutador nunca foi de falar de sua vida ou de sua história familiar nas reportagens que concedia.
- Foi uma época difícil, sabe? Mamãe voltou para casa numa cadeira de rodas, e acho que se conta nos dedos a quantidade de vezes que deixou a residência antes de morrer. Eu era um jovem com uns 15 anos, e comecei a sentir a ira.
“A ira é um sentimento forte, doutor, e ela causa um distanciamento entre nós e o resto de nossos sentimentos, e com isso fica mais forte. Eu abracei esse looping. Eu me tornei violento, doutor. A primeira vez que tive contato com uma luta foi numa briga de rua que eu mesmo provoquei; admito que por motivo nenhum. E por muitas outras vezes procurei brigas novamente.”
“A maioria eu ganhava. Não por causa do tamanho ou da experiência, mas só porque pouca gente batia para machucar como eu. Até que um dia eu arrumei briga com um sujeito de academia. Ele lutava Boxe, eu lembro, e ao aceitar meu desafio, convenceu-me a lutar no ginásio dele. Lá, entramos num ringue e nos enfrentamos, sem luvas nem nada. Eu levei a pior surra da vida, doutor. – o Lutador riu, e até sua risada era lenta- Lembro que apanhei tanto que nem consegui mal consegui chegar em casa, tanta era a dor. Dois dias depois, retornei à academia. Não atrás de vingança, mas atrás daquele tipo de conhecimento.”
“Foi quando as artes marciais finalmente entraram na minha vida, doutor, e eu senti aquele clique, sabe? Aquele clique as pessoas sentem quando se apaixonam... Pois sim, eu me apaixonei pelas artes marciais.”
O Lutador pausou por um momento, observando sem atenção algo através da janela. A tremedeira em sua mão amainou. O Médico não conseguia espantar a impressão de que a qualquer momento a voz do seu interlocutor ia acabar, tanta era sua instabilidade.
“Em pouco tempo, o dinheiro da indenização da mamãe acabou e eu tive de largar a escola para arrumar empregos. Claro que não larguei a luta; sempre arranjava tempo para treinar. Apaixonei-me por uma bela moça não muito depois. Foi como vivi por alguns anos: emprego, treino e minha namorada. Ela vivia lá pela minha casa, de modo a fazermos companhia para minha reclusa mãe.”
“Leviano que fui, como é característica flagrante dos jovens, logo minha namorada engravidou pela primeira vez. De início, não achei que seria um problema: não fugi de minha responsabilidade e casei-me com ela. Infelizmente, essa sensação de tola segurança não sobreviveu quando, pouco depois de nosso primeiro filho, descobrimos que outro logo viria também. Foi quando eu senti que de forma alguma minha vida estava tomando forma; só não das melhores.”
“Eu já estava então realizando minhas lutas no circuito amador, e com a descoberta de nossa segunda gestação, entrei para o circuito profissional. Meti-me em umas lutas sangrentas em lugares subterrâneos, doutor, em lugares sombrios e em lugares escondidos.- O lutador, instintivamente, botou as mãos na frente da boca, escondendo-a. Parecia doer-lhe lembrar daqueles tempos.- Os pagamentos garantiam as duas semanas seguintes e geralmente só. Os cortes e machucados, por outro lado, demoravam muito mais do que isso para sarar...- uma lágrima escorreu pela face do Lutador, e o Médico pôde ter uma ideia da crueldade desses tempos- As trocas de emprego por causa de minha aparência, as noites sem dormir por causa das feridas que reabriam, as costelas trincadas, as mãos que eu não conseguia fechar ou abrir, o choro dos meus filhos de madrugada... – a voz dele era trêmula e falhava de vez em quando- Eu sei que eu tenho um coração de lutador doutor, mas é porque eu vi a forja em que ele foi criado, e foi com o calor do inferno e o martelo da realidade que ele tomou forma.”
O médico percebeu que a perna direita do lutador tremia, embora ele tentasse esconder. Sua respiração, que estava acelerada, foi se controlando até que o Lutador readquirisse sua calma. Após alguns longos instantes, ele retomou:
“Seria contraditório dizer, doutor, que eram as minhas lutas responsáveis também pela maior parte da minha felicidade? Lutar, sentir toda aquela adrenalina queimar, ser respeitado dentro do ringue, fazer o que eu amava... Eu me via em novas lutas antes de sararem as costelas trincadas ou as mãos recuperarem os movimentos completamente. Ali, lá dentro, é que eu me sentia vivo. Não em casa. Não. Passamos a morar eu, minha esposa, meus filhos e mamãe na mesma casa, doutor, e o único momento em que eu tinha vontade de morrer era quando eu entrava pela porta da frente e... – o lutador estendeu um pouco uma de suas mãos, como pudesse tocar alguma coisa-... mamãe estava ali, acordada e triste, em sua cadeira de rodas. Seu cabelo amarrado num coque que prateava cada vez mais. Seus olhinhos fundos me esquadrinhando. Ela não dizia nada, doutor. Apenas me olhava... daquela forma. Como se eu não soubesse o que estava fazendo. Como se eu fosse uma criança perdida. Aquilo doía tanto, doutor... Ela me esperava acordada porque não conseguia dormir antes de saber que eu tinha chegado bem em casa. Eu quebraria minhas mãos mil vezes para que ela não precisasse sentir aquela dor pelo filho dela, sabe? E eu acho que eu de fato tentava quebra-las. Todos os dias, na academia, e em todas as lutas. Até que eu comecei a passar tanto tempo treinando que minha mulher ameaçou me largar, e a visão da porta batendo às suas costas sob promessas de não retornar mais me derrubaram mais que qualquer cruzado de direita. Ossos quebrados doem, mas é o coração partido que não tem remendo. Meu casamento, a única coisa que eu tinha de verdade, quase acabou”.
“E não me entenda errado, eu nunca fui nenhum tipo de super prodígio no aspecto profissional, doutor. Não permaneci invicto em minhas lutas amadoras, não... Perdi inclusive em minha luta de estreia no circuito profissional. Foi com muito suor que eu consegui juntar uma boa quantidade de vitórias para merecer substituir um lutador no maior evento da época-  o lutador lançou um sorriso e um olhar cheios de significado para o Médico- Aquela noite, doutor, em que o senhor supervisionou a luta, foi quando tudo mudou.” Um silêncio se apresentou entre o médico e o lutador, enquanto este parecia considerar alguns pensamentos em sua cabeça.
“Sabe, se eu não tivesse vencido aquela luta, se eu não tivesse conseguido passar na minha prova de fogo para ser contratado pelo evento, eu teria de desistir do esporte, doutor. Eu não conseguiria manter minha família; meus filhos estavam crescendo e minha situação econômica parecia encolher como os sapatos dos moleques. Eu tivesse perdido aquela luta, aposentaria minhas gastas luvas naquele mesmo dia e me entregaria aos empregos meio-boca, informais, mas que pudessem pagar minhas contas com segurança maior que aquela que eu extraía da minha cartilagem, dos meus ossos e do sangue de minhas artérias.”
“Mas eu venci, doutor- ele sorriu a boca torta- eu venci porque, quem sabe, talvez o senhor tenha visto tudo o que passei olhando fundo nos meus olhos e me dando aquela oportunidade única de prosseguir na luta. História de vida tem um cheiro, eu sempre digo. E a partir daí, minha história deu certo.”
“Eu viajei o mundo, doutor. Eu conheci os Estados Unidos, eu conheci a Europa. Eu fui até a China e voltei. A maioria de minhas passagens era paga pelo evento, para melhorar ainda mais. Eu fiz turismo pelo mundo quase todo sem gastar um tostão; de primeira classe ainda. Minha primeira parada foi, entretanto, a casa de minha esposa; não adianta desbravar o mundo sem um copiloto, se é que o senhor me entende. E minha família inteira conheceu o mundo, doutor, junta. Aos gritos, eu disse à minha esposa que a amava enquanto tirávamos fotos no topo da Torre Eiffel; com sussurros ela correspondeu esse amor enquanto jantávamos no Japão, ou tomávamos café na Suíça, ou dançávamos na Rússia, ou fazíamos amor na Argentina. Nossos filhos estudaram nas melhores escolas que o dinheiro pode pagar. Meu mais velho se interessou pelo Direito e demonstrou garra ainda maior que a minha estudando anos afora para obter sua aprovação em Harvard. Meu segundo preferiu fazer Medicina em Oxford. Meus outros dois filhos, que vieram bem depois de minha tranquilidade econômica, também vieram a escolher as melhores faculdades para suas respectivas áreas- o Lutador Paciente sorria intensamente, olhando suas fotos na parede. Às vezes, ele demorava demais para retomar a conversa, mas o Médico tentava afastar de sua mente aquela característica tão parecida com um sintoma.
“Todos eles tem faixa preta em Muay Thai e Jiu Jitsu, doutor. Mas mais que tudo, todos eles são faixa preta em perseguirem os próprios sonhos. Eles estão crescendo, sabe? Eles criaram asas e voaram. Se espalharam pelo Globo, cada um buscando o que lhe pertença. Cada um com suas próprias batalhas, com suas próprias vitórias e derrotas. E eles me ligam todas as noites; todas as noites- num sinal de profunda emoção, o Lutador Paciente colocou uma mão sobre o peito, trazendo imediatamente à mente do Médico a imagem daquele jovem determinado que lhe provara a existência de uma força maior em cada ser humano, 37 primaveras antes; e ver que agora a mão do Lutador quase chacoalhava enquanto ele repetia o gesto fez o Médico sentir as próprias lágrimas escorrerem pelo rosto. Um retrato imperfeito.”
“Mamãe viveu para me ver ganhar o cinturão, doutor- falou o Lutador, após grande e sentida pausa- Ela me viu tomar as rédeas de meu destino à força assim como eu vi minha bonança financeira comprar-nos uma casa maior e mais confortável, cheia de facilidades para sua... suas debilidades. Eu tanto tentei leva-la para conhecer o mundo conosco, mas ela não quis... – o Lutador abaixou a cabeça com a lembrança- Dei tudo o que pude à Mamãe, inclusive meu tempo e minha presença; afinal, lutar nos grandes eventos era fácil. Uma luta a cada 3, 4 meses, tempo de sobra para me preparar e para viver minha vida de filho, esposo e pai. E como treinar para mim sempre foi um prazer, eu sinto que a partir de então vivi minha vida como um homem em férias eternas. Mamãe faleceu quando eu tinha 29 anos, e eu espero que eu tenha podido ajudar a diminuir o desgosto que ela sentia pela vida.- o Lutador mais uma vez se perdeu em reflexões- Sabe, às vezes eu acho que a maior tristeza dela não foi perder a movimentação das pernas, mas perder a movimentação das ideias que ela gostava de semear nos alunos quando ensinava suas classes... – e mais uma vez com olhos vermelhos, o Lutador olhou para cima, numa espécie de prece. No seu rosto enrugado, um aspecto abatido- ... mas eu espero que ela saiba que eu não teria sobrevivido sem as lições que ela me ensinou com a vida que ela levou.”
O médico não sabia o que dizer. Uma coisa o incomodava lá no fundo de seu subconsciente, e ele não sabia como expô-la. Logo o Médico voltou a falar; e com a intenção de concluir.
“Fui diagnosticado aos 49 anos. Vários sintomas já tinham começado a aparecer, ainda que fracos. Hoje, minha memória vai e vem como uma lâmpada com mal contato, doutor. O rosto de minha mãe já começa a ficar enevoado se eu não procuro me policiar para checar a foto dela que carrego na carteira. Meus membros enrijeceram. Às vezes preciso de ajuda para beber água ou me alimentar, em virtude das tremedeiras. Tenho dificuldade para organizar minha fala e quase não consigo mais escrever. Nos último anos, tenho me mantido em casa; ocasionalmente saio, mas tomo precauções para não ser visto ou reconhecido porque não vejo necessidade de as revistas unirem-se aos espelhos me minha casa para me maltratar.”
“Continuei treinando, por prazer, até os 53 anos. Quando eu não conseguia mais avançar em diagonal ou sequer usar o quadril para jogar meus golpes, foi quando eu adotei a bengala e abandonei os sacos-de-pancada. E é isso que dói, sabe doutor? Não é a doença em si... É nunca mais poder calçar uma luva por causa das mãos que tremem- falou o Lutador.
De repente, a porta da frente se abriu e uma senhora entrou. Carregava sacolas e falava ao telefone. O motorista vinha atrás segurando mais uma porção de sacolas. Ambos estavam distantes e acabaram passando sem ver quem estava na sala. O médico, sobressaltado, de repente sentiu-se um intruso. O Lutador olhou para ele com um sorriso e disse:
- Minha esposa. A mulher da minha vida e a melhor corner que qualquer lutador já teve - brincou.
Logo a senhora reapareceu, sorrindo e dando um beijinho no Lutador.
- Aí está você! Não vai me apresentar a visita?
- Oras, esse senhor é um ilustre amigo que o tempo cuidou de afastar- respondeu o Lutador. – Este é o Médico de que sempre lhe conto!
A senhora imediatamente esbugalhou os olhos. Cumprimentou o Médico, pediu desculpas por não ter se dirigido a ele antes e o tratou com excesso de respeito e cuidado. Após as cortesias, ela avisou que tinha falado com o filho mais velho do Lutador, e que depois teria boas notícias para lhe falar. Pediu licença e deixou os dois amigos a sós.
Foi então que o médico manifestou algo que já há algum tempo comia-lhe por dentro.
Pediu desculpas.
                                                                                                                           
Capítulo 2.

O Médico explicou que não podia deixar de se sentir culpado. Disse que não conseguia ignorar como tudo aquilo parecia ser culpa dele. Chamou a atenção do lutador para o fato de que ele mesmo avisara, naquela noite do evento, que tinha obrigação de parar a luta em prol do próprio lutador.
Era para isso que os médicos estavam ali no corner,  afinal. Para evitar que os lutadores sofressem aquele tipo de dano. A responsabilidade por aquilo tudo era, e o Médico achava que o Lutador não deveria ignorar aquele fato, do próprio Médico. Até porque se ele tivesse parado a luta... Se alguém houvesse parado a luta em algum momento...
O Lutador Paciente observou-o em silêncio por mais um tempo. Sua dificuldade de organizar as ideias tornava-se cada vez mais evidente.
“Eu sofri 8 nocautes na minha carreira, doutor. Mais para o final dela, o público era extremamente pessimista comigo. Achavam que eu já estava muito velho, que eu não deveria me propor àquele castigo. E as pessoas me diziam, já chega, você já provou o que tinha de provar, você está perdendo. Está na hora de sair, de se aposentar.”
“Eu olhava para elas e não conseguia entender. Você, doutor, tudo o que fez em sua vida, foi para provar algo a alguém que não o senhor? Deveríamos então buscar satisfazer os outros? Era esse tipo de mentalidade que todos nós deveríamos ter? E se eu pensasse assim antes de começar a vencer? Quando perdemos algumas batalhas e as coisas não parecem estar indo bem, nós paramos? É assim que deve ser? Aí então, eu teria largado as luvas e aceitado uma profissão como vigia ou funcionário do McDonalds ou sei lá. Meus filhos teriam crescido nas ruas, com uma figura paterna fracassada e nada mais. Ou quem sabe, vamos mais além agora, talvez eu tivesse feito uma faculdade. Talvez, quem sabe, até conseguisse um emprego razoável. Talvez tivesse fornecido um lar decente para meus filhos. Parece uma opção razoável, não? De fato. Mas você acha belo abandonar o sonhos que são seus para perseguir os de outra pessoa? É isso que os seus pais te disseram para fazer quando você era pequeno? Sonhe com o mundano? Não me entenda errado, eu teria tomado essa direção se tivesse perdido minha oportunidade de entrar naquele evento; eu teria feito esse sacrifício, sem dúvidas; mas pelos meus filhos. Por outras pessoas que não eu. Mas essa situação sumiu para sempre após o meu sucesso no grande circuito. A partir daí, o futuro dos meus eu já conquistara, doutor. Já estava para eles, no banco; o suficiente para uma vida tranquila. A minha missão eu cumpri cedo, e com louvor. “
“Ainda assim, lá estavam meus amigos, preocupados, pedindo para eu parar. Diga-me, doutor, às estrelas o senhor diria que não queimassem, sabendo que o seu fogo é a razão da prematuridade de seu fim? E ao olhar sozinho a noite, negra e sem beleza, sem brilho que aos vivos pudesse encantar, o senhor acharia que a alguém teria satisfeito o seu conselho? Às estrelas, reduzidas à fração do potencial que Deus lhes reservara antes mesmo de nascerem e que agora evitariam brilhar por medo da eterna escuridão que é a morte? Ou até mesmo ao senhor, e aos seus iguais, e aos seus filhos, que nunca mais se poderiam encantar com a beleza que tem um astro que não tivesse medo de abraçar a eternidade que existe nos momentos passageiros, simplesmente por medo de esvair-se antes de lhe tornar a vida colcha dos retalhos das coisas belas que ele nunca conquistara por não ter arriscado mais?”
“ As pessoas dizem que eu desprezei meu corpo porque fi-lo receber mais punição do que seria recomendável se eu quisesse viver saudável, e elas falam como se eu tivesse desperdiçado alguma coisa, como se eu o tivesse feito por nada. Eu, incompreensivelmente, sinto que amei cada momento de minha vida de todo o coração, porque fiz apenas o que amei. Eu bem que gostaria de me arrepender, sabe? Mas é difícil, pois olho para trás e não vejo um único sonho não cumprido. 

Sabe a única coisa que me dói? Não poder fazer tudo novamente. E isso é mau, doutor?
“E o amor? O amor que recebo? Você não faz ideia, doutor. A quantidade de cartas e e-mails que recebo o tempo todo. Mesmo hoje, que não apareço em público a anos, recebo cartas. E elas vêm de todos os lugares; elas são escritas em tantas línguas, são tantas histórias... Através delas vim a conhecer pessoas de todo o mundo. Eu leio todas as cartas, doutor, apesar de responder apenas algumas poucas. As pessoas me contam de suas vidas, de suas experiências... É tão lindo, tem tanta gente que passa por provações tão mais difíceis que as minhas. E sabe o mais belo? “Você nos inspira”, dizem as cartas. Jesus, como que eu posso influenciar tanta gente dessas formas, doutor? Nem eu entendo; só sei que amo. Eu acho que a luta é o mais lindo dos esportes, pois é algo com quem todos podem se identificar. Todo mundo é lutador. Do momento em que botamos os olhos em alguma coisa e decidimos que a queremos, nós somos lutadores.”
 “Eu o convidei aqui, hoje, para agradecê-lo, doutor. Meus médicos preveem que meu quadro deva piorar nos próximos anos, e eu já sinto dificuldade para lembrar muitas coisas. Achei que agora, no crepúsculo de minha vida, eu deveria entrar em contato com o responsável por minha aurora; sem o senhor, eu teria morrido naquele dia, doutor. Por isso, sempre senti necessidade de me explicar, sabe? O senhor, mais do que ninguém, merece saber. Uma pessoa que toca a vida de alguém como o senhor tocou a minha deve ser celebrado, doutor. E por favor, jamais sinta-se mal por mim; reste tranquilo, pois naquele dia, naquele evento, se o senhor contrariou os princípios da Medicina, foi para salvar um paciente; e a família inteira desse lutador, e cada uma das pessoas que já me enviaram as correspondências que guardo comigo. ”
E o Lutador estendeu a mão trêmula para o Médico apertar. E então, toda a história do lutador voltou à mente do médico no espaço de tempo de um segundo, enquanto o médico observava aquela mão frágil chacoalhar à sua frente, aquela que foi a mão de mil vitórias, que agora não conseguiria calçar as próprias luvas. Foi só então que o Médico entendeu. Ele finalmente entendeu como que as coisas valem a pena, e ele ficou mais próximo, ainda que pouco, mas inevitavelmente mais próximo de entender aquilo que faz humano o homem; aquilo que Deus, se é que há um, reserva a cada um de nós antes mesmo do nascimento. 
O médico apertou a frágil mão do lutador, sentindo toda a sua imperfeição e toda a sua história. 
- Você é uma inspiração, Lutador Paciente – reconheceu o Médico-  E se você me permite uma segunda intervenção, eu quero que você entenda: o tratamento para a sua doença é difícil; dificílimo. Agora é que começa o campeonato da sua vida. Então apenas me prometa uma coisa: prometa que você vai subir ao octógono de novo, e embora dessa vez o seu oponente seja essa ECB, ele é só mais um Guardião do Portão. É só isso que ele é. E você não precisa se preocupar, sabe por quê? – e então o médico colocou a própria mão sobre o próprio peito. Sorriu.
Pego de surpresa, o Lutador mal conseguiu conter sua reação perante as palavras de carinho do médico. Uma lágrima desceu pelo seu rosto. Imitando o médico, o Lutador Paciente fez o mesmo gesto. 
 
Capítulo 3
 
Dormir é difícil. O corpo todo dói. Às vezes, o Lutador não consegue fazer os membros pararem de tremer. Às vezes, tem crises de paranoia que os abraços de sua esposa contém cada vez menos. Às vezes, uma depressão o abate de tal forma que as lágrimas não param de descer até o sol nascer. Às vezes, salta da cama no meio da noite, jurando que ainda tem 22 anos e dois empregos. Às vezes, vários desses sintomas. 
Mas, de vez em quando, o Lutador Paciente consegue dormir. Os sonhos são sempre parecidos.
É quando ele é jovem de novo. Coluna ereta, cabelo cortado rente. Ele é forte de novo. Ele entra pela lateral do estádio; 100 mil pessoas gritam o seu nome, acenam e pulam. Ele acena de volta, ele sorri. De repente, ele está dentro do octógono. Ele olha para baixo, toma conhecimento da agilidade de suas pernas, da eficácia de seus pés. Maravilha-se com a maneira como eles se posicionam, instintivamente, da forma correta. A forma que ele aprendeu através de mil aulas de artes marciais. Ele sacode os braços, sente os músculos balançarem ao redor de seus ossos. Abre-os então, como se fosse abraçar o mundo, sentindo a extensão do próprio ser. Não há absolutamente nada que ele não possa fazer; está na melhor forma de sua vida. 
Do outro lado, entra o oponente. Às vezes é uma figura de seu passado, algum dos oponentes que ele enfrentou de verdade, outras não. Às vezes, seu oponente é quem detém o cinturão. Então a luta começa e eles tocam as luvas no centro do octógono. 
Algumas vezes, o Lutador Paciente ganha. Outras, ele perde. Mas não importa, na verdade. Ele sempre dá o melhor de si. Ele sempre sai sob aplausos. A sua é sempre a melhor luta da noite. 
Então, o Lutador Paciente acorda. O sol ainda nem nasceu lá fora, o seu despertador ainda nem tocou. A realidade tem uma aura diferente, composta pela indisposição de seu corpo em contraposição à força de sua mente. Mas foi assim que ele acordou a vida inteira, e é assim que ele pretende acordar até não poder mais. O Lutador dá um beijo na testa de sua esposa. Então o Lutador, o velho Lutador, estica a mão e alcança a bengala. O seu neurologista e os outros médicos chegarão em algumas horas para iniciar o tratamento. 
Está na hora da batalha. Todos os dias. 
 
- FIM -

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Decepção na Academia

Desde criança, um dos lados mágicos da minha vida foi o cinema. Sempre gostei de ler, de escrever, de ouvir músicas, assistir TV... Mas nada se comparava à telona, sabe? Atores e roteiros e diretores e trailers e filmes, astronautas e dinossauros e robôs e personagens mundanos e tudo aquilo que dá vida ao Cinema, dão vida também a mim. E como consequência, desde cedo acompanho a cerimônia de premiações da Academia.
Não sei se existe isso de dizer que tal filme foi o melhor filme do ano, sabe? Mas em algum momento na história o Oscar se tornou um aspecto poderoso da indústria cinematográfica, e por isso ele deve ser respeitado. Ele alavanca carreiras, ele constrói credibilidade, ele cria mitos e ele consegue inserir na sociedade uma consciência bonita, dando concretude à ficção que nos é apresentada pela indústria. Então se a Academia vai lá e dá o Oscar para um filme que não necessariamente foi o melhor filme do ano, por mais que haja frisson negativo, mesmo assim ela faz um favor a todos os filmes; por mais que a decisão seja opinativa das pessoas que trabalham dentro dela. Ressalto, claro, que falo das decisões que, por mais que não sejam populares, ainda respeitam um mínimo de lógica; às vezes, não há como negar, a Academia sai do seu caminho e premia de forma totalmente incoerente (como ontem, quando premiaram como Melhor Atriz uma atriz coadjuvante em uma atuação não mais do que boa).
O problema é que muita gente não gosta da Ppolítica que a Academia exerce. Vale aqui fazer uma diferenciação: falo de Política, que, em termos amplos, se refere à forma de pensar, ao conjunto de princípios e valores que arbitram decisões livres; não quero dizer política, com letra minúscula e que é apenas uma interpretação restritiva, mera vereda do conceito maior já explicado e que se remede à política governamental, de partidos políticos e poderes executivos e governos administrativos. Pois bem, essa Política da Academia ano sim e outro também cai sob chumbo grosso da mídia especializada. Melhores Filmes favorecidos ou não, diretores desnecessariamente indicados ou diretores chutados de lado (olhando pra você, Quentin; tá passando da hora, né irmão?), etc. Via de regra, as críticas são sensatas mas não aptas a crucificar a Academia. Oras, a Academia é uma sociedade privada como qualquer outra, ela tem direito de formular suas próprias opiniões e premiar quem lhe agradar mais, e eu sempre entendi isso. Por isso, apesar de me indignar várias vezes, não costumo atirar-lhe pedras. Respeito a Academia inclusive por ela ser sensível ao seu lugar na Indústria: ela é uma sociedade privada intitulada à opiniões, claro, mas ela tem muito poder e geralmente age ciente disso. Essa característica é importante pois impõe que suas decisões sejam diferentes do que seriam se não tivesse os ônus que têm.
Vocês entendem o que quero dizer? Tenho um exemplo para ajudar: todos os anos, são premiados Diretores e Melhores Filmes. No caso, o Diretor sempre sobe para discursar nas duas categorias: na primeira, só, na segunda, com alguns atores. Mas nem sempre o mesmo diretor do melhor filme é o diretor premiado. Quem entender de cinema aqui sabe que isso, no fundo, causa espanto: ser diretor do melhor filme PRESSUPÕE ser o melhor diretor do ano. Não adianta argumentar: “Nada a ver, o filme às vezes é o melhor por causa dos atores ou até mesmo do roteiro, e não só por causa do diretor”, porque esse argumento é furado. O filme É o diretor, amigos, simplesmente porque o Diretor é o ÚNICO responsável pelas cenas que você assiste no cinema. O filme como está na tela foi a forma que ELE visou contar a história. As atuações são todas influenciadas pela maneira como o diretor quer seus personagens (como o Tarantino brilhantemente falou ontem em seu discurso), e o roteiro chega ao telespectador não menos do que NA FORMA QUE o diretor desejar. O diretor faz o filme, amigos, o resto do staff, por mais brilhante e importante que seja, é apenas ajuda (e com isso, eu NÃO QUERO MENOSPREZAR os excelentes trabalhos que fazem, entendam o que eu escrevo). Amigos, em um plano ideal, não existe premiar filme sem premiar diretor e vice-versa. Ciente dessa equivalência, a Academia aproveita para esticar sua Política e estendê-la, várias vezes, a pessoas diferentes e que mereçam prêmios. Por isso, prêmio de Diretor para o Ang Lee e de Melhor Filme para Argo. Simplesmente porque ambos foram os melhores rebentos do Cinema em 2012, mas por motivos diferentes.
Pois bem. Dito isto, posso falar o motivo do texto: a Cerimônia ontem foi o maior fracasso e a maior decepção dos últimos tempos, sem dúvida nenhuma.
Por quê? Tudo ia bem, o host estava ótimo, as apresentações também, os filmes eram bons e merecedores, tudo caminhava bem. MAS a Academia TINHA que ultrapassar a tênue linha entre Política e política e, assim, corromper a sua premiação. Ao pedir para Michelle Obama, esposa do Presidente Obama, fazer o anúncio mais importante da noite, preterindo Jack Nicholson (um dos mais grandiosos nomes do Cinema), ela conseguiu manchar a própria reputação. Fazendo isso, veio à tona a ligação política entre o Governo dos EUA e a premiação de uma Sociedade que se sabe, antes de tudo, mundial. Oras, uma das organizadoras do evento, eu fiquei sabendo depois, é filha de um membro da comissão apoiadora do Presidente, e por isso a Michelle estava lá, selando a presença da Casa Branca num evento que não tem absolutamente nada a ver com ela. Eu não deveria saber disso; isso não deveria importar.
Oras, na manhã dos Oscars mesmo eu entrei numa discussão com os meus pais para defender a credibilidade do evento. Minha mãe dizia que a Academia estava corrompida e que sofria influências externas que lhe impediriam de realizar a boa premiação. Eu falei que não, que por mais que às vezes as premiações fossem questionáveis, elas sempre eram fruto de uma Política válida e que tinham sua própria lógica, nunca motivadas por fatores externos ocultos. Minha mãe então falou “E por quê os três filmes favoritos tem o Governo dos EUA como heróis?”. Eu, sabe-tudo, respondi “Coincidência, oras”. (Detalhe: entramos nessa discussão porque eu sentia que A Vida de Pi ou Os Miseráveis devia ser o vencedor, mas que sabia que os favoritos eram A Hora Mais Escura, Argo e Lincoln).
Como, amigos, posso olhar para a mamãe agora sem lhe conceder a vitória na fundamentação, submetendo minha própria argumentação, sabendo que foi a Casa Branca quem anunciou o melhor filme? (Melhor filme este sobre atos seus.) Ang Lee recebeu Melhor Diretor, mostrando que, como eu, havia dissidentes dentro da própria Academia. Mas as influências externas podem ter falado mais alto, e por isso quem vai ser lembrado como o Melhor Filme será o escolhido pela Casa Branca.
Por mais que tudo isto que eu disse possa estar errado e, num plano onde as verdades reais das coisas sejam realmente auferíveis, Argo tenha sido o melhor filme, não creio que se possa negar: a impessoalidade, tanto da Academia como da Casa Branca, foram violadas. E aos olhos do mundo inteiro, o Oscar, em seus minutos finais, virou O Show do Governo Americano.
Nunca, em todos os anos vivi dentro do cinema, vi Jack Nicholson, um dos meus ídolos cinematográficos, sequer dividir a cena com uma figura política tão limitada nacionalmente quanto a mulher do Presidente. Por que, então, tenho que assistir isso acontecer no evento que diz como são as coisas de cinema na vida real?

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Coração de Lutador, parte 2.


Subtítulo:  O Lutador Paciente. 

Claro que existe sorte. Essa nunca foi a discussão. Sorte é jogar algo ao acaso e ver, por um capricho do destino, esse ato desinteressado frutificar o bom resultado. É, em palavras mais adequadas, despejar um soco ou um chute e conseguir um nocaute. É inegável a influência de golpes de sorte em qualquer esporte.
O problema é que aquele não foi um. Não existem golpes de jiu-jitsu bem sucedidos por sorte. Uma finalização de jiu jitsu, o Treinador havia lhes dito, é um micro cosmo. Uma espécie de ecossistema sensível, onde cada etapa de seu complexo é essencial para o bom funcionamento da alavanca final. Mais especificamente, a chave de tornozelo que o Lutador utilizara para ganhar a sua última luta  é uma submissão que necessita a imobilização de todos os músculos contidos na perna do oponente, os bons manuseio e colocação de rigorosamente todos os membros do aplicador, movimentação de quadril e, a cereja do doce, boa administração do peso de ambos os corpos. Com todos esses fatores, pode alguém dizer que foi golpe de sorte? Não, o Treinador lhes dissera, não foi golpe de sorte.
Enrolando a bandagem nos punhos do lutador, o Treinador levantou os olhos para mirar seu pupilo.  O rapaz estava cabisbaixo, seus olhos fora de alcance. Injustiçado. Humilhado.
Cortaram sua entrevista. Quando um lutador vence seu combate, é de regra que ele seja entrevistado ao vivo. Seja para oferecer agradecimentos, seja para desafiar novos oponentes, seja para fazer declarações, eles sempre são entrevistados. É quando o público pode dar uma boa olhada no homem que empunha as luvas, admirar o artista por trás da obra. Assim como ver os machucados que ele sofreu na consecução de sua missão, claro. Mas na hora, na frente de milhões de pessoas, a entrevista de seu pupilo foi cortada; comerciais foram exibidos por cima. Ninguém em casa viu seu rosto, ninguém ouviu o que ele tinha a dizer. Ele foi suprimido.
A mesma coisa na coletiva de imprensa que se seguiu ao evento. O Dono da promoção parecia disposto a evitar assuntos que envolvessem o jovem lutador, quase como se quisesse que ele passasse despercebido. O único momento em que o Dono referiu-se aos eventos que transcorreram na luta do lutador foi quando criticou a atuação médica que permitiu a sua permanência no combate. Alegou que iria responsabilizar o médico pela imperícia, garantiu que tomaria providências legais. Foi quando aproveitou para tomar a iniciativa de desrespeitar diretamente o jovem: disse que tudo não passou de um descuido do oponente derrotado, o então veterano e favorito pelo público. “Relaxou demais”, “erro mundano”, foram as razões para a derrota. E de repente, o foco de toda a construção jornalística a respeito da luta não era mais a vitória do jovem, mas a derrota do veterano. O “erro bobo”. O Dono garantiu que aquele pequeno embaraço não era motivo para atraso da  eventual disputa de cinturão do favorito, não. Mais uma ou duas vitórias e tudo aquilo estaria esquecido. Quanto ao lutador jovem? Simples erro médico. Vencedor casual. Rebento da sorte. “Vocês sabem do que eu estou falando”, foi concluindo o Dono, “qual é, aquele moleque passou mais tempo sendo atendido pelo médico do que fazendo algo realmente impressionante na luta. Sim, isso é um fato. Tanto, na verdade, que deveriam chama-lo de Paciente, sabe? É, o Paciente. Aí está um apelido para aquele cara”. E assim encerrou a coletiva, e assim foi como o jovem lutador ficou conhecido nas raras ocasiões em que era mencionado pela mídia: O Lutador Paciente.
Num esporte de apelidos e personalidades que assustam, o vencedor ficou tido por uma espécie de vítima.
Aquilo doeu. Aquilo afetou profundamente o protegido do Treinador, provocando mudanças por todos notadas na academia que frequentavam. O Lutador Paciente não sorria mais. Antes um viciado nos fóruns de internet sobre vale-tudo, ele não abria mais o computador. Não se aguentava ver suplantado sem nem saber por quê. O Treinador sabia o quanto ele se dedicava, sabia o quanto ele estava disposto a ralar pelo ofício. Problemas de saúde, dores, cansaço, dedicação exclusiva, a vida de quem quer galgar os degraus do sucesso não é fácil. O mínimo que se pode esperar é algum reconhecimento pelos bons resultados colhidos no caminho, mas nem assim foi recompensado o Paciente. O Treinador sabia que a vida dava seus socos, mas ele não era insensível a noção de que com seu pupilo ela parecia estar exagerando. Embora não hesitasse em proferir palavras de afeto e motivação, o Treinador sabia o quão difícil seria para qualquer um aceita-las, frente a provação tal qual a do jovem.
O que ele fez após a luta? Talvez a coisa mais insana de sua vida inteira.
Com o salário gordo que recebera com as premiações da noite, o Lutador Paciente se viu apossado da maior fortuna que já tivera na vida. Ainda que não passassem de 20 mil reais, aquilo foi o suficiente para que ele se convencesse a largar os dois empregos que equilibrava e se entregasse ao treino das artes marciais 11 horas por dia. A maior parte do dinheiro, o lutador paciente usou para matricular seus dois filhos na melhor escola que a cidade conhecia, assim como para comprar-lhes roupas que pudessem utilizar lá dentro ( boas roupas, luxo até antes desconhecido por sua família). Ele quitou todas as suas dívidas, desde seu aluguel até suas mensalidades com o Treinador. Reservou algum dinheiro para que os filhos pudessem sair para jantar ou ir ao cinema de vez em quando, assim como uma quantia para o transporte deles à escola. Para si, não reservou nem isso: ia a pé todos os dias. A única coisa que comprou para si com todo aquele dinheiro? A maioria das pessoas não acreditava quando lhes diziam, mas para si ele adquiriu apenas um novo par de luvas. Um novo par de luvas.

Era a noite de sua segunda luta, e as bandagens que o treinador lhe vestia eram velhas e gastas. 4 meses haviam se passado desde sua luta de estreia e o Lutador Paciente estava com sua conta bancária zerada. O treinador lhe acautelara quanto à rápida utilização do dinheiro; as mensalidades das crianças eram excepcionalmente caras. O Lutador Paciente apenas o olhava com um semblante de quem não compreende.
“Não se preocupe”, tentou conversar o treinador. “Você vai vencer hoje”. O lutador olhou e sorriu.
O Treinador sabia que a situação do Paciente era precária; por algum motivo, a sua segunda luta foi acertada com o Guardião do Portão. Guardiões de Portão ( os Gatekeepers) são os melhores lutadores da categoria que já tentaram e fracassaram em lutas contra campeões, mas que não possuem popularidade o suficiente para tentar outra vez. Acontece que eles adquirem a alcunha por serem anormalmente melhores que os demais lutadores da categoria, mas ainda assim incapazes de vencer o campeão. Por isso, adquirem o status de segundo-melhor e enfrentam os outros pretensos desafiantes em ascensão antes do campeão. Infelizmente, os gatekeepers costumam ser lutadores detestados pelo público, simplesmente porque lutam bem demais e costumam vencer desafiantes mais carismáticos em lutas técnicas e com estratégias repetitivas. Em resultado, suas lutas não são muito interessantes e acaba que os desafiantes derrotados terminam minguando após serem derrotados. No caso do Lutador Paciente, o Treinador imaginava, as coisas seriam ainda piores se ele perdesse.
Tendo em vista a antipatia que o Dono lhe dirigia, era quase certo que com aquela derrota o Lutador Paciente seria chutado para fora da promoção para sempre, e ainda com o ônus de ter participado de uma luta que pouca gente se interessou por assistir. O Treinador não se  surpreenderia se ficasse sabendo que o Dono fizera isso de propósito; que montara aquela luta pensando exclusivamente na obliteração do Lutador Paciente. Este, para evitar maiores desentendimentos, fora indiretamente coagido a aceitar a luta. O pior de tudo? Se perdesse aquela luta, a sua luta anterior finalmente seria concretizada como mera brincadeira do destino, e ele acabaria saindo da maior promoção de MMA do mundo embaraçado e sem nada para mostrar. Foi tudo um plano. Desde a maneira como o Dono se portara na coletiva de imprensa que se seguira à última luta até o arranjo da seguinte, pensava o Treinador.
- Eu preciso dessa vitória, treinador- falou, subitamente, o Lutador Paciente.
- Sim.
As bandagens, agora quase terminadas, apertavam os punhos do lutador. Apesar do isolamento acústico da sala, o som da plateia lá fora ainda conseguia encontrar seu caminho até os ouvidos dos dois. A sala tinha um ar tenso.
- Acho que é verdade o que dizem. Não importa qual seja, só há um desafio maior do que o maior desafio que um homem possa encontrar: o seguinte a esse.- disse o lutador.- Agora eu vejo. E eu estou cansado, treinador. Eu estou cansado.
“Tenho acordado cedo, muito cedo. Eu acordo bem antes de o sol nascer e me dedico até bem depois dele ter-se posto. Às vezes eu fico tão cansado que eu não consigo entender comandos simples, sabe? Às vezes eu fico tão cansado que a minha mente se perde no meio das conversas mais mundanas, eu não sei se o senhor sabe do que estou falando. As dores que sinto já estão tão arraigadas que eu nem as trato mais, aprendi a conviver. Chego a esquecer que elas estão lá, mas decerto não me lembro mais de tempo em que não as possuísse. Meu tronco e braços são ralados dos quimonos e das lutas de chão. Minhas mãos tornaram-se calosas demais para carinhos. Minhas pernas estão sempre com algum roxo, resultado do calejamento que as fazem ficar mais fortes. Dormir e comer não são mais prazeres, são artifícios de que devo me aproveitar para maximizar meu desempenho. O conforto de minha cama eu ignoro, para que levantar cedo não seja tão difícil, e a comida é sempre a mais saudável e sem-graça possível. Quando não estou me dedicando, me esforço para não gastar energia. Converso pouco, não saio muito de casa. Eu não aguento mais, treinador.”
“Mas, ainda assim... Eu sei o que estou fazendo. Pelo menos, é o que me digo quando estou mais desesperado. Dizem que a vida não exige mais do que podemos fornecer, e se esse ditado for verdade tenho certeza que se esqueceram de acrescentar que o que podemos fornecer nem sempre é algo de que efetivamente já dispomos. Por isso é importante que nos esforcemos todos os dias para ir além do que fomos no dia anterior. Para aqueles que perseguem sonhos, ou se vive esforçando-se ou morre-se fracassando.”
“Se eu não vencer essa luta hoje, treinador, eu terei que pegar minhas coisas e voltar para casa, para minha vida antiga. Todo o sangue que eu já derramei terá sido em vão, e eu sei disso desde o final da minha última luta. Sabe, quando eu percebi que o Dono estava contra mim, eu percebi também que não haveria segundas chances. Eu não sei por que ele não gostou de mim, sou só mais um sujeito tentando chegar no topo. Mas quem sabe isso não é um sinal? Esperei minha vida toda pelo sinal que indicaria que talvez eu pudesse fazer alguma diferença no mundo. Acho que todos nós somos assim, não? Só nunca imaginamos que esses sinais geralmente vêm na forma de um soco do destino. E é aí; é aí que nós temos que olhar bem dentro dos nossos corações e nos perguntar: será que posso sobreviver ao próximo round? Se nós aceitarmos a derrota, estamos aceitando que a vida nos coloque onde ela bem entender; perdemos as rédeas de nós mesmos. Mas se, e só se, nos conciliarmos com a ideia de que para sermos o vencedor devemos suportar a dor, então... Então eu acho que nós temos uma chance. Aquele poeta já dizia, não? ‘Tudo vale a pena se a alma não é pequena’. Agora eu entendo. Agora eu entendo treinador, e eu concordo. Há 4 meses eu tenho suportado a dor. Me engalfinhei com ela, apertei tanto quanto fui apertado, esperneei e gritei, já fiz pedidos e promessas de joelhos. Hoje eu acredito que derramar sangue não é o problema; o problema é não derramar o suficiente.”
“O resultado da luta de hoje é muito importante, treinador. E eu não peço pela vitória: eu peço a Deus pelo meu melhor. ”
Nesse momento as portas da sala se abriram.
- Tudo pronto? O Paciente entra em 5.- avisou o homem de uniforme.
O Lutador Paciente o mirou e, calmamente, aquiesceu com a cabeça. “Estou pronto.”

O Guardião do Portão era um lutador assustador. Não era um brutamontes, não. Tinha um físico maior, mais largo e menos musculoso que o outro oponente do Lutador. Aparentava aquele tipo de força difícil de se superar, justamente por ser naturalmente difícil de se igualar. Justamente por isso, a sua tática era tão simples quanto era eficaz e arrasadora: ele derrubava o oponente e o esmagava contra o chão. Com o passar do tempo, cobria-o de golpes e cansava-o inutilmente com a magnitude de seu tamanho. A luta se transformava então em teste de resistência para os lutadores adversários, que logo tinham o espírito quebrado para então sucumbirem sob socos ou cotoveladas violentíssimas. E agora, o Guardião mirava o Lutador Paciente com seu olhar inescrutável, atemorizante, do outro lado do octógono.
Fazendo jus ao seu apelido, o Lutador Paciente exibia uma face que misturava calma, ameaça e determinação. O Treinador se impressionava como de repente o apelido “Lutador Paciente” parecia ter se tornado... apropriado.
A luta teve início, e os lutadores se aproximaram. Tocaram as luvas em sinal de respeito e tomaram suas posições de combate. Após alguns momentos se estudando, o Lutador Paciente tentou quebrar a concentração do oponente com jabs rápidos. O oponente esquivou-se andando para trás. O Lutador Paciente cessou ofensiva, aguardando contra-ataque. O oponente voltou a aproximar-se, um desafio. O Paciente aproveitou para dar um chute na perna do oponente. Desapercebido,  oponente acabou levando o golpe. O Lutador, por reflexo, tentou repetir; caindo na armadilha do adversário. No instante em que sua perna encostou na do Guardião, este rapidamente a agarrou com um braço enquanto o outro cruzou o ar em direção ao rosto do Lutador Paciente. O soco atingiu precisamente o seu queixo e, sem ter como se apoiar, o Paciente caiu de costas no chão.
No solo, o Lutador Paciente necessitou alguns segundos para chacoalhar a tontura; tempo mais do que o suficiente para que o Guardião montasse em cima dele e começasse a desferir socos. O público, tão numeroso quanto na última luta, foi ao delírio. O juiz se aproximou para ver o estado do Lutador Paciente, e ao ver que ele ainda se defendia com diligência, não interrompeu a luta. O Lutador, enquanto isso, sofria com a enxurrada de golpes que o Guardião descia sem pena. O Treinador, lá fora, berrava comandos que não sabia se eram escutados. De repente, o oponente mudou a estratégia e puxou um dos braços do Lutador Paciente, tentando uma chave de braço.  Na mesma hora, este, percebendo a iniciativa, ergue-se na medida em que seu braço era puxado e conseguiu rolar para fora do golpe, separando-se do oponente. Ambos se levantaram, e o Lutador pôde notar o sangue que vazava de ambos seus supercílios. Frustrado, cuidou de abaixar a guarda para se prevenir contra outras investidas baixas. O Guardião, entretanto, deu um pequeno salto agarrou as pernas do Lutador com tanta força que este foi jogado contra a grade e arrastado para o chão. Cercando-o contra a grade, o Guardião conseguiu espaço o suficiente para dar algumas cotoveladas. Mais uma vez o árbitro se aproximou para ver se deveria parar a luta, e mais uma vez decidiu não intervir. Faltavam 30 segundos para o fim do round, que o Lutador passou apenas sobrevivendo às investidas do adversário.
No entre-rounds, enquanto o Stitcher limpava o sangue de seu rosto e passava vaselina em suas feridas, o Lutador recebeu ralha do treinador.
- O que diabos você pensa que está fazendo?!- gritava, preocupado. – Entregando chutes para ele te derrubar, oferecendo a grade, errando os sprawls! Não foi para isso que treinamos! Onde você está com a cabeça, rapaz? Não está vendo que com o seu desempenho nesse round, você vai ter que submeter ou finalizar a luta para ganhar?! Porque com certeza na pontuação dos juízes você está perdido!
O Lutador, embora transparecesse um pouco de nervosismo, tentava exprimir calma. Pediu ao Treinador que se acalmasse, pois estava tudo sob controle. Então, o árbitro veio e mandou todos que não os lutadores se retirarem do octógono. Enquanto saía, o treinador gritou: “Como assim sob controle?! O que você tem em mente?!”. O Lutador olhou-o, sorriu uma ilusão de sorriso e voltou sua atenção ao oponente.
 Com o início do segundo round, o Guardião se aproximou mais tranquilo, procurando luta. Encurtou a distância com uma sequência de jabs, mas o Lutador resguardou-se procurando mais espaço. O Guardião, sorrindo perante o medo que incutira na presa, buscou-o novamente com mais jabs, ao que o Lutador respondeu da mesma forma. Mais decidido, o Guardião tentou um dos mais fortes golpes de punho, o mata-cobra. O Lutador baixou-se e revidou com um curto jab no rosto do oponente. Percebendo a insegurança do oponente, o Guardião tentou uma rápida aproximação para buscar a cintura do outro e consequentemente derrubá-lo. O Lutador, para a surpresa do público, aplicou um chute reto que interrompeu e afastou o oponente. Surpreso por nunca ter sido interceptado daquela forma, o Guardião resolveu lutar seguro novamente. Afastou-se um pouco e sinalizou para que o Lutador viesse pegá-lo. Após curta meditação, o Paciente atendeu seu pedido e se aproximou, lançando um direto de direita quando teve a oportunidade. O Guardião passou por baixo e agarrou a cintura do oponente. Lá fora, o Treinador tapou o rosto com a mão em sinal de decepção. “Estava indo tão bem!”.
Forçando a derrubada, o Guardião pulou abraçado com a cintura do Lutador, e ambos caíram. Para surpreender o público novamente, o Lutador conseguiu inverter a posição antes que o Guardião ficasse tranquilo e conseguiu montar nele. Aproveitou a oportunidade para se levantar e se afastar.
O Guardião, apesar de assustado com a velocidade do oponente em se levantar, ficou contente por ver que ainda era respeitado por sua luta no solo. Levantou-se e decidiu atacar com fúria. Aproximou-se rapidamente e lançou outro mata-cobra. O Lutador, em resposta, saltou alguns centímetros para trás, apenas o suficiente para que o golpe lhe raspasse a ponta do nariz, e contra-atacou com uma joelhada voadora em máxima velocidade. O golpe acertou o queixo do Guardião do Portão, e este simplesmente amoleceu e caiu ao chão.
O silêncio tornou-se opressivo dentro do recinto. O Lutador conseguia ouvir sua própria respiração acelerada. A gigantesca multidão de espectadores ficou muda por alguns instantes, vendo o oponente apagado. O Lutador não se aproximou do adversário para cobri-lo de socos; apenas aguardou. O árbitro, percebendo sua deixa, se aproximou e notou que o Guardião estava positivamente nocauteado. Logo sinalizou pelo fim da luta e levantou o braço do Lutador Paciente. A multidão explodiu a arena em gritos, aplausos e assobios no mesmo instante.
O Treinador, não acreditando, correu para entrar no octógono, abraçando o pupilo. Nunca imaginaria um desfecho como aquele para a luta! Olhando na direção da diretoria do evento, pôde notar que até o Dono batia palmas, impressionado. Conquistado.
- Meu Deus, esse cara é tão assustador! – gritava um dos comentadores para o mundo todo- Ele vai ser o próximo campeão mundial!!
Mais uma vez recebendo os filhos com um abraço, o Lutador preparou-se para sua entrevista. Só que dessa vez, ele sabia que não seria cortada.
E a multidão prosseguiu para sempre, naquele momento, com sua torcida feliz.

Fim da Parte II

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Coração de lutador, parte 1


   Eu ainda posso lutar, doutor.
As luzes eram ofuscantes dentro do octógono. Nada de admirar-se, até porque ali era o ponto de convergência de todos os holofotes. O lutador não conseguia manter-se imóvel, e no fundo de sua mente o médico procurava alguma distinção conclusiva entre inquietude provocada por adrenalina e convulsões causadas por trauma; seu raciocínio acelerado não conseguia, entretanto, harmonizar diagnóstico.
Chamado por um colega seu para substituí-lo naquele evento de MMA, o médico era verdadeiramente de primeira viagem naquele mundo dos diagnósticos improvisados. A bem da verdade pensava não se tratar aquilo mais do que palpite abalizado. Como examinar um paciente quando ele está saltitando na sua frente, falhando em ficar parado ou sequer olhar para alguma direção que não a do seu oponente? O médico estava nervoso, mas tentava se manter objetivo; infinitas pessoas lhe assistiam naquele momento. Estava numa arena com uma plateia de mais de 30.000 pessoas, fora o meio milhão que acompanha em casa, e, apesar de ser um médico conceituado, estava acostumado a atender dentro da tranquilidade de seu consultório. Além disso, aquele era o primeiro evento de lutas que assistia na vida.
Apesar da popularidade que aquele tipo de evento viera ganhando nos últimos anos, o médico nunca se sentara para assistir nada a respeito. Todo mês, uma ou duas edições eram transmitidas, mas ele nunca assistia. No seu conceito, aquilo não era mais do que violência gratuita; uma espécie de pão-e-circo para os mais descompromissados. Ele não concebia achar conteúdo em um esporte que coloca dois seres humanos para se digladiar até que um deles falhe em apresentar reação;  seja por meio das concussões infligidas por golpes sobre-humanos, seja por meio dos estrangulamentos, das torções... Barbaridade. Não sem um pouco de desgosto aceitara preencher a vaga de seu amigo, mas lhe devia um grande favor e realmente não havia meio de driblar o pedido. Infelizmente, logo na segunda luta da noite um dos lutadores foi vitimado por uma quantidade satânica de cotoveladas e, apesar de eventualmente se desvencilhar da investida do adversário, uma pequena fonte de sangue agora fluía de seu supercílio esquerdo, enquanto um inchaço enorme vinha à luz na mesma lateral de seu rosto. Desnecessário dizer que logo o árbitro suspendeu a luta e chamou o médico para avaliar a condição do lutador para prosseguir.
Com passos rápidos o médico subiu os degraus para dentro do octógono e procedeu à avaliação do paciente. Agora, de perto, as coisas pareciam ainda mais feias do que ele  imaginava. O inchaço formara uma esfera de uns 5 cm de diâmetro, enquanto o sangue fluía farto do corte; com a somatória das duas coisas, resultava que o lutador não conseguia enxergar com o olho esquerdo. O médico olhou para o cronômetro do combate, tomando ciência de que estavam no final do segundo round e penúltimo round. Faltavam aproximadamente 6 minutos para o final da luta, e o médico achava que aquelas lacerações impossibilitavam o combate de continuar.
   Eu ainda posso lutar, doutor- sussurrou o lutador.
O médico estava terminando de examinar o corte no supercílio e, em decorrência da sua proximidade com o lutador, ele sabia que nem o câmera man atrás deles conseguira ouvir aquilo. Discretamente o médico olhou o telão da arena, onde eram visíveis suas costas e um pouco da face desfigurada do lutador. Voltou suas atenções ao paciente.
   Vou ter que parar essa luta, senhor. - retrucou o médico. Suspeitava de que aquele inchaço era fruto de uma fratura no osso orbital, o que era sério. Mas assim que a última sílaba escapou por entre seus lábios, o lutador, num ato reflexo, deu um passo à frente, exprimindo voluntariedade.
   Não! Doutor, eu posso lutar! - ele falou, desesperado de tal forma que o médico se viu pego de surpresa.
   Desculpe-me senhor, mas não posso deixar essa luta continuar. Um pedaço do seu supercílio está pendendo do seu rosto e eu creio que haja uma fratura no seu crânio; eu estaria maluco se deixasse essa luta prosseguir- respondeu o médico, tentando exprimir compaixão sincera, ainda que taxatividade. No momento em que ia dar um passo para trás, o lutador segurou seu ombro.
   Doutor, por favor! Não pare a luta, eu vou vencer!- ele falou. Não estivesse seu olho esquerdo oculto pelos ferimentos, o médico sabia que um olhar de súplica estaria formado.
O médico olhou rapidamente o adversário do seu paciente. Ambos eram homens grandes e musculosos, mas o oponente era um brutamonte consagrado nos grandes circuitos, com uma quantidade impressionante de vitórias em seu cartel e que rumava à disputa de cinturão. Seu paciente, por outro lado, era um jovem bem mais inexperiente que fora convidado para participar do evento em substituição a outro lutador que se contundira um mês antes da luta. Era a sua primeira vez dentro da grande promoção, e se perdesse seria muito bem sua última. Isto, ao menos, foi o que lhe disseram momentos antes de ser convocado para avaliá-lo.
   Acredite, filho, é para o seu próprio bem. Se eu não parar esta luta agora, posso prejudicar sua vida para sempre.- argumentou o doutor.
   Doutor, se o senhor parar essa luta eu nunca mais terei a chance de trabalhar nesta promoção, e tudo para o que me esforço todos os dias terá sido em vão! – respondeu o lutador, automaticamente- Se o senhor parar essa luta, minha vida será prejudicada para sempre com certeza! Por favor, doutor, eu tenho dois filhos pequenos para quem sou tudo no mundo, por favor, se eu fracassar hoje, não só eu não terei como pagar sequer a condução deles para a escola como também jamais me perdoarei por não ter feito tudo o que estava ao meu alcance!
De repente, o médico sentiu seu coração pesar. Olhando novamente o adversário de seu paciente. Ele parecia inteiro, parecia bem. Sorria e flertava com o público enquanto o médico se preocupava com a saúde de seu paciente. Leigo no esporte como fosse, não parecia ao médico haver jeito de o jovem vencer a luta.
   Doutor, o senhor não sabe por quanta coisa já passei para estar aqui hoje.- o lutador de repente tentou adotar um ar mais comedido, buscando parecer mais razoável, embora fosse incapaz de conter as suas emoções profundas - Eu amo lutar. Eu amo com paixão, paixão que até uma ex-esposa já me custou. Mas meus filhos não me deixaram, doutor. Eles me acham herói, doutor, mas o senhor sabe que não existem heróis que precisem equilibrar o papel de pai, 2 empregos de salário-mínimo e o treino de 3 artes maciais.  Mas eu tenho certeza, doutor, um homem bem sucedido como o senhor, eu tenho certeza que o senhor sabe o que é precisar vencer na vida. Eu tenho certeza que o senhor sabe o que é ralar e ter que colocar tudo na mesa. Eu sei, doutor, eu sei que o senhor me entende. Esses ferimentos, eles podem me matar, doutor, mas só se por causa deles eu não puder mais lutar. Só assim eles podem me matar!- concluiu o lutador, e o médico não sabia se eram lágrimas em seus olhos ou apenas o brilho geral de suor que lhe permeava o corpo.
   Mas como você pretende vencer, essa luta? Está terminando o segundo round e o outro cara parece que acabou de entrar no octógono. Você, bem, parece que você foi atropelado por um caminhão... - inquiriu o médico, descrente.
Botando a mão sobre o peito esquerdo, o lutador respondeu:
   Coração, doutor. Homens são definidos pelas adversidades que encontram, e eu tenho certeza de que as minhas me fazem maior do que o meu oponente. E eu posso lhe mostrar, o senhor só precisa permitir.
Subitamente, o árbitro apareceu ao lado dos dois.
   E então, doutor? - perguntou ele.
De repente, o médico lembrou que todos os olhos do mundo estavam em sua pessoa. O árbitro, o lutador, a câmera, os fãs, todos aguardavam pelo seu parecer.
Os seus olhos caíram na mão que o seu paciente ainda tinha sobre o peito, e de repente ele se viu limpando o sangue da face dele e declarando:
   Isso não é nada, árbitro. Esse daqui luta por mais 5 rounds.
As sobrancelhas do árbitro, em espanto, esticaram-se até quase a nuca, e ele perguntou se o médico estava certo do parecer. Contrariando seu próprio bom-senso, o médico forneceu sua palavra.


Sentado em seu lugar de volta, o médico assistiu o restante da luta na ponta da cadeira. Honestamente, arrependera-se da própria decisão no segundo em que saíra do octógono; mas procurava concatenar o peso em sua consciência numa torcida introvertida pelo paciente. Assistiu com tristeza enquanto, pelo restante do minuto final do segundo round, o jovem lutador retomou a surra nos exatos termos de antes da intervenção do árbitro.
Durante o minuto entre-rounds, sentou-se ao seu lado o homem que o médico reconheceu como o Dono do evento. Embora estivesse trabalhando para ele, nunca tivera a oportunidade de falar-lhe diretamente.
   Aquele sujeito não deveria ter voltado para luta- falou o Dono, sem que houvesse sequer algum cumprimento. Apesar da falta de educação, o médico manteve-se profissional.
   Não foi o que a minha análise mostrou- respondeu.
   Foda-se sua análise. Você impediu que o meu lutador conseguisse uma vitória por parada médica e agora eu estou achando que ele vai conseguir uma merda de uma vitória por decisão dos juízes. - falou o Dono.- Se isso acontecer, o meu lutador ainda vai precisar de mais uma ou duas lutas para convencer o público a querer vê-lo enfrentar o campeão. Sabe o quanto eu deixo de lucrar assim? Esse esporte precisa de estrelas, doutor.
O médico não conseguia acreditar na grosseria do homem. Permaneceu calado, no entanto, apenas observando.
   Só vim aqui para lhe avisar, doutor, que se o senhor não aproveitar esse minuto entre-rounds para parar a luta, o rapaz vai perder de qualquer forma E eu ainda vou processá-lo pelos danos que ELE sofrer, respaldado juridicamente pela sua negligência médica.- os olhos cruéis do homem queimavam o rosto do médico, ameaça que eram.
Tentando manter a calma, o médico procurou usar todo o seu sangue frio para mentir:
   Minha decisão médica satisfaz todos os parâmetros de análise exigidos pela comissão médica do esporte, e ela é inatacável. – disse ele, ao passo que imaginava em sua cabeça a nota que os membros da comissão conseguiriam numa competição de salto a distância com o pulo que devem ter dado de suas cadeiras ao ver as condições do lutador que ele deixara prosseguir lutando. - Não posso impedi-lo de me processar, mas posso com certeza vencê-lo no tribunal se o fizer.
Por um momento, os dois se olharam. O médico não estava certo se seu blefe fora bem sucedido, mas o dono do evento com certeza parecia menos agressivo.
   Agora, por favor, se o senhor me der licença, pretendo apreciar o restante da luta. E prepare-se para uma surpresa nesse round final- concluiu o médico, lançando uma previsão ousada, apesar de ser totalmente ignorante no assunto dos combates. O homem pareceu se enfurecer profundamente com aquele pequeno soco argumentativo.
   Vê-lo-ei nos tribunais, doutor.- ameaçou o homem, enquanto se levantava.- Tudo isso porque foi com a cara de um lutadorzinho-escada... - saiu então, resmungando.

O terceiro round começou e o lutador brutamonte foi, à passos largos, em direção ao lutador jovem, mais faminto do que nunca pela vitória. O médico sentiu seu coração acelerar no peito. O seu paciente tentou acertar um soco potente no lutador no favorito, mas com os reflexos de um gato, o alvo esgueirou-se por baixo do soco e, fazendo as entranhas do médico decolarem em seu abdome, levantou-se com um gancho de esquerda que acertou o queixo do jovem e uma martelada de direita que o jogou ao chão sem cerimônias, quase apagado. A plateia levantou-se de seus lugares e clamou insanamente. O árbitro correu para perto, não parando a luta por muito pouco. O médico percebeu que fora por causa do olho esquerdo fechado que o lutador fora incapaz  de ver o golpe chegando, e aquilo o sufocou por dentro.
Para finalizar a luta, o lutador mais experiente correu em direção à cabeça do oponente, pronto para acertar mais socos e conseguir um nocaute. Ao que se aproximou, o médico ergueu as próprias mãos numa atitude defensiva automática, esforçando-se para assistir o que viria em seguida.
De repente, o lutador estirado no chão esticou uma mão, segurando a canela do oponente, e girou sobre o próprio quadril para tentar o que o médico julgou ser uma rasteira. Surpreendentemente, o que era uma rasteira tornou-se um complexo golpe de jiu jitsu que , criando uma alavanca extremamente dolorosa, fez com que o lutador mais bruto caísse ao chão fazendo uma careta de dor impressionante; pouco depois submeteu a vitória. O árbitro separou os adversários e levantou a mão do jovem lutador, que apesar da horrível contusão no rosto, vibrava como se fosse o homem mais feliz do mundo.
Logo subiu ao octógono a equipe de reportagens do evento, que rapidamente buscou entrevista com o vencedor. Subiram também os dois filhos de que o jovem lutador lhe falara, que abraçaram o pai às lágrimas, não tardando este a verter suas próprias. Durante a entrevista, o vencedor chamou seu oponente derrotado e abraçou-o longamente, ambos parabenizando-se pelo combate espetacular. Resquícios de ódio não havia.
Posteriormente, ao descer pelos degraus do octógono, ainda abraçado aos filhos, o lutador deteve-se por um momento para dirigir-se ao médico e apertar-lhe as mãos.
   Coração, doutor! - falou, emocionando-se novamente.
   Coração de lutador – completou lhe o médico, sorridente.
    
   Antes, o médico via a grade que circula o octógono como as grades de um zoológico, onde se expunha ao público o lado mais animalesco do ser humano, numa tentativa de unicamente lhe saciar o desejo por sanguinolência. Não mais. Após aquela luta, e todas as outras que se seguiram no decorrer da noite, ele aprendeu que a grade estava ali não para afastar o público da violência, mas os lutadores de todo o resto.
Advogados possuem escritórios, médicos possuem consultórios, artistas tem o palco e lutares têm a grade. É dentro dela que eles se apresentam, é lá que eles mostram o fruto de sua paixão e a extensão de sua dedicação. Ao longe, a plateia pode assistir-lhes para simplesmente satisfazer sua própria animalidade, ou pode assistir-lhes para apreciar a arte. A disputa, o combate, a determinação, a superação, a disciplina, a estratégia... O médico crucificava o esporte por não crer que houvesse conteúdo. Mas ele então o achou, e ele o achou como um homem que bate uma picareta no chão do deserto e descobre uma fonte rica de petróleo. É belo.
Violento?
A violência só existe quando os homens não devem lutar, e ainda assim procedem ao embate. Quando dois homens vivem a vida para disputar esse esporte, e se dedicam e se preparam todos os dias, e entram na arena com chances similares de vitória, não se trata de violência. Trata-se de disputa, de grandiosa disputa. O esporte é agressivo, mas violento? Lembrando-se do dono do evento tentando assustá-lo, e da ideia que o dono do evento tinha de que o estaria jogando um lutador-escada para ser assassinado pelo mais experiente, o médico percebeu que era inegável que de fato havia certa violência no esporte: colocar uma força imparável contra outra que se sabe não pertencer à sua frente; é violência. Mas não foi o que aconteceu naquela noite. 

terça-feira, 27 de novembro de 2012

As criaturas que se escondiam embaixo de minha cama.



Uma casa grande nunca foi sinônimo de proteção. Isolamento e segurança não se pressupõem, sabe? A segurança existe em nós mesmos, enquanto o isolamento pouco tem a ver com o que fazemos ou deixamos de fazer. Um nós construímos moralmente, o outro nós podemos perseguir fisicamente. 
Eu tive um sonho interessante. Outro. Nesse, eu me mudava para uma grande e bela casa que ficava no centro de um enorme campo verde a dezenas de quilômetros de qualquer outra residência. Tratava-se, a bem da verdade, de uma mansão enorme de dois andares com mais espaço do que seria sensato engenhar. Havia inclusive um pequeno salão de festas no segundo andar, próximo de onde ficava o meu quarto. No meu quarto, que era gigantesco, uma grande vidraça em frente à cama se estendia do chão ao teto, cortando o telhado inclusive. Deitado, eu poderia ver o ambiente lá fora tranquilamente: desde o quilométrico campo que se expandia até bem longe no horizonte até o céu que daí surgia; e se eu quisesse, poderia continuar apreciando a vista levantando a cabeça para ver através do vidro que havia no telhado, enxergando assim todo o céu até a lua à pino lá em cima. O vidro cobria um raio de visão de 90º a partir da minha cama, digamos assim. A beleza da casa era tanta, confesso, que estou me convencendo a fazer um desenho para guardá-la comigo.
O motivo pelo qual eu me mudara para uma casa tão grande? Não sei dizer ao certo... Mas se tivesse que resumir numa resposta grosseira, diria “medo”.
Antes de minha mudança, eu vinha sendo perseguido. Perseguido por sombras que se esgueiravam quando eu não via, que me acompanhavam quando eu saía de casa. No início, sua presença era tão diminuta que eu me questionava se havia de fato motivo para as minhas paranoias. Quando eu saía com minha namorada, quando relaxava com meus amigos, quando cuidava de meus afazeres... eu percebia alguma presença, mas nada muito distinto do incômodo de uma dor de cabeça.
Foi, entretanto, piorando. De repente eu era capaz de ouvir seus passos. Eu ouvia os reflexos de seus movimentos: objetos que eram derrubados, gravetos se quebrando, pancadas em metal, tropeços em batentes... Era como uma perseguição onde eu não conseguia definir acuradamente a localização de meus perseguidores. Até que um belo dia, saindo de algum cinema, as sombras mostraram que aprenderam a correr. E como corriam... Nocauteado da minha sensação de realidade, assisti enquanto minhas pernas fugiam daquelas figuras pálidas de rosto embaçado e gritos estridentes. Saltando sobre mesas, me jogando por entre as pessoas, derrubando bolsas e crianças, era o tipo de perseguição que você vê nesses filmes novos do James Bond: grossa e perigosa. Espaços pequenos e franca velocidade dirigidos por uma mente subitamente monomaníaca e afetada por um medo que levava a um estado vertiginoso de desespero. Eu não consigo recordar como costumavam terminar essas perseguições. Só lembro de subitamente estar em casa... me sentindo à salvo. Abraçando minhas pernas, dormia uma noite sem cama escondido em algum lugar do recinto.
As perseguições desse tipo se tornaram mais frequentes. Tornaram-se mais perigosas, mais acirradas. As figuras, antes em pequenos números, ficavam mais e mais numerosas. Não tardou até que a segurança produzida por minha antiga casa fosse se esvaindo. Em determinado momento, os rostos esbranquiçados de meus algozes podiam ser vistos através de algumas janelas, refletidas nos espelhos de meu banheiro, nos meus corredores à noite. Como se não bastasse a falta de segurança que eu sofria quando saía para meus lazeres ou obrigações, agora minha própria casa tornara-se insuficiente, ineficaz.
Foi quando me mudei, finalmente. Entra o casarão que já lhes apresentei.
E por algum tempo, mesmo a minha liberdade pessoal ao sair, ao passear, retornou. Comecei a me sentir em paz, sem mais avistar as figuras inumanas.
Não preciso dizer que tratou-se de momento muito breve, claro. O melhor suspiro do moribundo.
As perseguições voltaram com força total um dia desses. Simplesmente. Até a proteção de meu novo casarão começou a ser insuficiente.
Até que numa noite de lua cheia despida de nuvens eu, num sobressalto, acordei de um sono amargo e olhei pela grande vidraça que ornamentava a frente de minha casa. Por uma fração de segundo que durou a eternidade, prendi a respiração. O que me acordara fora um baque alto na porta de entrada do primeiro andar, e enquanto eu absorvia o que meus olhos empurravam para o meu cérebro, eu compreendi.
Milhares de figuras esbranquiçadas amontoavam-se sobre o enorme campo que cercava minha moradia. Milhares e milhares, espremidas umas contra as outras, empurrando-se, apressadas, interessadas em sabe-se-lá-o-quê. Em mim. Ouvi os passos na minha escada, incontáveis passos. Passos assustadores. Não havia para onde correr. As paredes de minha morada me limitavam a fuga. Cortavam-me do mundo. Prendiam-me lá dentro, com eles. A porta de meu quarto foi arrancada de suas bases, pinos e parafusos tilintando no chão. Um rosto esbranquiçado, borrado, entrou e estendeu sua mão decrépita na minha direção, sem cerimônia, como se ele sempre soubesse onde eu estava. Como se nunca tivesse me perdido de vista.
Foi quando me ocorreu o seu nome. O nome daquele e de todos os outros seres que se estendiam por todas as direções ao redor da minha casa. Que me espreitavam de dentro dos armários, por debaixo de minha cama. Nos olhos daqueles que eu detestei. Nos sorrisos daqueles que amei. Nas coisas que fiz, nas coisas que deixei de fazer, nas coisas que nunca me ocorreu fazer. Nos dias que vivi, nos dias que os precederam e nos dias que ainda viriam. Problemas. Eram Meus Problemas.
Eu acordei logo em seguida. Atrasado de novo. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Escolhas Pessoais


Outro dia eu estava lendo sobre a legalização da maconha em algum lugar da internet quando me deparei com um diálogo que me despertou a atenção. Um dos comentaristas escreveu que detestava um dos outros usuários porque o achava um viciado irresponsável que não queria saber de nada, que passava seus dias, despenteado, fumando, fedendo e destruindo a sua juventude. Então alguém lhe respondeu que não cabia a ele falar nada, pois tratava-se de uma escolha pessoal do indivíduo. Ah é?
Hoje em dia a cultura mundial se expandiu com tal velocidade e com tanta potência que a diversidade usualmente é acachapante. Com mais frequência do que seria esperado nós nos deparamos com hábitos, com maneiras, com costumes de origem desconhecida. Essas diferenças podem ocorrer pelo simples transplante cultural, onde temos, por exemplo, aquele amigo que todo mundo tem que é viciado em cultura japonesa e parece um esquisitão total aos olhos dos nacionais mais tradicionais; podem ocorrer também pela fusão que as pessoas são propensas a fazer de costumes diversificados, o que explica desde aquelas pessoas que tem apenas um senso de moda “bizarro”, até aqueles que se diversificam de forma tão obstinada, uniforme, que viram subculturas que logo são rotuladas e amadas/discriminadas à arbitrariedade do senso comum.
Esses comportamentos, por si só, não são passíveis de repreensão. Oras, no amálgama moderno apátrida que é a internet, nos milhares de pessoas que convivem diuturnamente e que encontram seu jeitinho próprio de expandir sua personalidade e na subsequente facilidade com que se percebe os padrões e as similaridades que comprovam a limitação flagrante na originalidade humana, fica mais e mais necessário que as pessoas busquem atitudes cada vez mais extremas para provarem (tanto para si quanto para seus iguais) a sua identidade. Nesse âmbito, eu creio, surgem as escolhas pessoais. Algumas mais efêmeras, que refletem na maneira de se vestir, de se portar, outras mais fortes, que se traduzem na maneira de agir, de pensar, e até mesmo aquelas mais extremas que resultam em verdadeiras transformações de concepção de vida. Isso tudo, claro, é fruto da busca do homem pelo seu cerne individual, a sua necessidade de se estabelecer como um sujeito autoconsciente e aceito.
Mas eu acho que todo essa conceituação deve ser obrigatoriamente confrontado com a noção humana básica de, bem, autopreservação. Não creio que seja legítimo qualquer comportamento que implique a auto lesividade, sabe? Não importa de qual religião você seja, mesmo que você não tenha religião na verdade, as chances são de que a auto flagelação imotivada, ou erroneamente motivada, não faça parte do seu conceito de normalidade. A autopreservação, entenda, não é aquele simples instinto que te diz para não se machucar, mas sim aquele que diz para você não se machucar por nada. Na maturação humana a auto flagelação, na verdade, é constante. São as noites sem dormir e os dias desconfortáveis para estudar, para se divertir, sei lá, nós nos forçamos a muitas coisas quando temos objetivos. Mas sabe, a autopreservação deveria agir quando nos colocamos em uma perseguição fútil ou tentamos nos prejudicar por nada. A autopreservação é isso, é o ser humano se afastando da sua danação através da aplicação de sua própria sensatez, esperteza, etc.
Então, a auto-exploração versus a autopreservação. Onde está você? Você é desses que acha que o manto das “escolhas pessoais” te deixa imune ao criticismo fundamentado, só pelo bel fato ser uma escolha que você fez? Ou você é capaz de procurar o melhor para si? Há uma diferença entre a Lady Gaga ou o Eminem, que procuram chocar com o objetivo de impor sua originalidade enquanto fazem rios de dinheiro, mesmo à custa de sua liberdade pessoal, credibilidade ou respeitabilidade, e alguém que te machuque ou que te roube. Todos esses indivíduos fizeram, oras, escolhas pessoais. Apenas um deles não atendeu ao conceito de autopreservação (penal, social, jurídica, política, moral, etc) que eu mencionei, você consegue dizer qual?
E o sujeito que desperdiça a vida (a dele e a de seus próximos) fumando maconha, ou ingerindo qualquer tipo de substância imprestável, ilícita ou não, de fácil obtenção ou não? Você acha que ele não é passível de crítica só porque “ele fez uma escolha pessoal”?
E sabe, se você tem um conhecido que está viciado em algum tipo de droga e você quer sinceramente ajudá-lo, não creio que não criticá-lo seja o melhor caminho. Aposto, aliás, que você vai sim utilizar o desprezo e a crítica gerados pela autopreservação; só que vai canalizá-lo na direção das drogas e não da pessoa por quem você preza.
Sim, estou dizendo que o homem não pode se desvincular do sentimento de desprezo, ódio, raiva, etc, jamais. Por mais que os contos de fada e os livros de autoajuda te digam o contrário.  

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O ovo da Vanessa


   A história das eleições no Brasil vêm rastejando penosamente desde 1532, quando os primeiro colonizadores se organizaram em São Vicente para eleger os membros de sua câmara municipal, passando por conturbados períodos históricos e pelos mais diferentes sistemas políticos, cruzando 1821, quando o voto rompeu a barreira regional e começou a ser exercido para eleições de âmbito nacional, atravessando o batalhado período da comoção pelas Diretas Já de 1984, e todos os vetores de desenvolvimento terminam na mais recente ovada na cara da concorrente a prefeita, Vanessa Grazziotin, na noite de terça-feira, dia 11/09/2012. Isso no mínimo me faz matutar acerca da supervalorizada noção de que o ser humano é um animal em eterna evolução.
   A candidata pouco se permitiu refletir antes de acusar logo o partido tucano de Arthur Neto, coincidentemente o seu maior rival nas próximas eleições, de ser o responsável pelo seu batismo gosmento.
Não que ela não mereça, ou não que ela mereça, tanto faz. Mas a verdade intransmutável do fato é que um bom ovo foi desperdiçado naquela noite, o que me traz à mente todas as vezes em que simplesmente não havia nada para eu comer de madrugada lá em casa.
     Para a minha surpresa, entretanto, não tardou a se esgueirar por entre os ouvidos dos cidadãos desta bela capital a tese de que tudo havia se tratado de uma grande farsa armada pelo próprio partido da candidata, com o escopo de atrelar o estigma de anti-feminista ao partido de seu adversário. Logicamente, quem cunhou a referida tese foi o próprio Arthur Neto, com base em imagens e vídeos da internet. Pináculo da sua teoria é o fato de que, após profundo esquadrinhamento das fotos da melecada na face da candidata rival, não se pôde localizar o menor vestígio de casca de ovo. Não que eu esteja cético à técnica jurídica empregada, ou que eu considere o evento todo uma grande e desnecessária bobajada ( o que eu acho), mas daí levar a sua tese para apreciação no Superior Tribunal Eleitoral, como se lá já não houvesse bastante trabalho sério para ser deslindado, já é desvirtuamento democrático E jurídico.
     Se a candidata vier a ser eleita, Deus nos livre, eu lanço mão do seguinte palpite: aposto que ninguém vai nem se lembrar de proposta alguma que ela tenha feito. Ninguém, nada. Ela seria eleita como a candidata do ovo. No grande mosaico de eleições nacionais, nós, Manaus, teríamos eleito a prefeita que levou ovada na cara. Essa será sua única definição. Isso serve apenas para denunciar o quão efêmeras estão as propostas políticas nesta eleição. Digo isso também porque, se a Vanessa pode dizer que é a candidata do ovo, Arthur Neto não tem sequer banca eleitoral atualizada para ser lembrado. Para mim ele é apenas, ainda, o candidato a prefeito que já foi senador; pronto, essa é a sua característica marcante, esse é o jogo que ele está trazendo para a política regional. Ele já foi senador.
     Então, ex-senador versus ovo na cara. Vocês que são brancos que decidam quem leva essa. 
     Pronto, não vou comentar a história política de nenhum dos candidatos, não vou mencionar as serpentes que se escondem em cada coligação, a traição que aguarda em cada partido. Vim aqui apenas e somente apenas para falar da parada do ovo. Até porque, se a Vanessa está reclamando que lhe melaram a cara com um ovo ou uma cusparada ou coisa que o valha, eu gostaria de fazê-la sentir o que sinto quando penso na cara-de-pau que é a sua candidatura. Ovada é refresco perto de político imundo.