terça-feira, 27 de novembro de 2012

As criaturas que se escondiam embaixo de minha cama.



Uma casa grande nunca foi sinônimo de proteção. Isolamento e segurança não se pressupõem, sabe? A segurança existe em nós mesmos, enquanto o isolamento pouco tem a ver com o que fazemos ou deixamos de fazer. Um nós construímos moralmente, o outro nós podemos perseguir fisicamente. 
Eu tive um sonho interessante. Outro. Nesse, eu me mudava para uma grande e bela casa que ficava no centro de um enorme campo verde a dezenas de quilômetros de qualquer outra residência. Tratava-se, a bem da verdade, de uma mansão enorme de dois andares com mais espaço do que seria sensato engenhar. Havia inclusive um pequeno salão de festas no segundo andar, próximo de onde ficava o meu quarto. No meu quarto, que era gigantesco, uma grande vidraça em frente à cama se estendia do chão ao teto, cortando o telhado inclusive. Deitado, eu poderia ver o ambiente lá fora tranquilamente: desde o quilométrico campo que se expandia até bem longe no horizonte até o céu que daí surgia; e se eu quisesse, poderia continuar apreciando a vista levantando a cabeça para ver através do vidro que havia no telhado, enxergando assim todo o céu até a lua à pino lá em cima. O vidro cobria um raio de visão de 90º a partir da minha cama, digamos assim. A beleza da casa era tanta, confesso, que estou me convencendo a fazer um desenho para guardá-la comigo.
O motivo pelo qual eu me mudara para uma casa tão grande? Não sei dizer ao certo... Mas se tivesse que resumir numa resposta grosseira, diria “medo”.
Antes de minha mudança, eu vinha sendo perseguido. Perseguido por sombras que se esgueiravam quando eu não via, que me acompanhavam quando eu saía de casa. No início, sua presença era tão diminuta que eu me questionava se havia de fato motivo para as minhas paranoias. Quando eu saía com minha namorada, quando relaxava com meus amigos, quando cuidava de meus afazeres... eu percebia alguma presença, mas nada muito distinto do incômodo de uma dor de cabeça.
Foi, entretanto, piorando. De repente eu era capaz de ouvir seus passos. Eu ouvia os reflexos de seus movimentos: objetos que eram derrubados, gravetos se quebrando, pancadas em metal, tropeços em batentes... Era como uma perseguição onde eu não conseguia definir acuradamente a localização de meus perseguidores. Até que um belo dia, saindo de algum cinema, as sombras mostraram que aprenderam a correr. E como corriam... Nocauteado da minha sensação de realidade, assisti enquanto minhas pernas fugiam daquelas figuras pálidas de rosto embaçado e gritos estridentes. Saltando sobre mesas, me jogando por entre as pessoas, derrubando bolsas e crianças, era o tipo de perseguição que você vê nesses filmes novos do James Bond: grossa e perigosa. Espaços pequenos e franca velocidade dirigidos por uma mente subitamente monomaníaca e afetada por um medo que levava a um estado vertiginoso de desespero. Eu não consigo recordar como costumavam terminar essas perseguições. Só lembro de subitamente estar em casa... me sentindo à salvo. Abraçando minhas pernas, dormia uma noite sem cama escondido em algum lugar do recinto.
As perseguições desse tipo se tornaram mais frequentes. Tornaram-se mais perigosas, mais acirradas. As figuras, antes em pequenos números, ficavam mais e mais numerosas. Não tardou até que a segurança produzida por minha antiga casa fosse se esvaindo. Em determinado momento, os rostos esbranquiçados de meus algozes podiam ser vistos através de algumas janelas, refletidas nos espelhos de meu banheiro, nos meus corredores à noite. Como se não bastasse a falta de segurança que eu sofria quando saía para meus lazeres ou obrigações, agora minha própria casa tornara-se insuficiente, ineficaz.
Foi quando me mudei, finalmente. Entra o casarão que já lhes apresentei.
E por algum tempo, mesmo a minha liberdade pessoal ao sair, ao passear, retornou. Comecei a me sentir em paz, sem mais avistar as figuras inumanas.
Não preciso dizer que tratou-se de momento muito breve, claro. O melhor suspiro do moribundo.
As perseguições voltaram com força total um dia desses. Simplesmente. Até a proteção de meu novo casarão começou a ser insuficiente.
Até que numa noite de lua cheia despida de nuvens eu, num sobressalto, acordei de um sono amargo e olhei pela grande vidraça que ornamentava a frente de minha casa. Por uma fração de segundo que durou a eternidade, prendi a respiração. O que me acordara fora um baque alto na porta de entrada do primeiro andar, e enquanto eu absorvia o que meus olhos empurravam para o meu cérebro, eu compreendi.
Milhares de figuras esbranquiçadas amontoavam-se sobre o enorme campo que cercava minha moradia. Milhares e milhares, espremidas umas contra as outras, empurrando-se, apressadas, interessadas em sabe-se-lá-o-quê. Em mim. Ouvi os passos na minha escada, incontáveis passos. Passos assustadores. Não havia para onde correr. As paredes de minha morada me limitavam a fuga. Cortavam-me do mundo. Prendiam-me lá dentro, com eles. A porta de meu quarto foi arrancada de suas bases, pinos e parafusos tilintando no chão. Um rosto esbranquiçado, borrado, entrou e estendeu sua mão decrépita na minha direção, sem cerimônia, como se ele sempre soubesse onde eu estava. Como se nunca tivesse me perdido de vista.
Foi quando me ocorreu o seu nome. O nome daquele e de todos os outros seres que se estendiam por todas as direções ao redor da minha casa. Que me espreitavam de dentro dos armários, por debaixo de minha cama. Nos olhos daqueles que eu detestei. Nos sorrisos daqueles que amei. Nas coisas que fiz, nas coisas que deixei de fazer, nas coisas que nunca me ocorreu fazer. Nos dias que vivi, nos dias que os precederam e nos dias que ainda viriam. Problemas. Eram Meus Problemas.
Eu acordei logo em seguida. Atrasado de novo. 

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