sábado, 22 de janeiro de 2011
Catástrofes Naturais
Lembro que reparei antes de tudo no clima; não era esse asco abafado de Manaus. Era um friozinho agradável, um clima de montanha. Porque estávamos, aos olhos de eu pequeno, entre montanhas intransponíveis, lógico. Aos meus olhos de hoje, provavelmente montanhas não seriam, mas deixa ficar, deixa ficar, a prosa fica mais interessante. Lembro que a sensação era de isolamento total do mundo; afinal, sempre morei num lugar quente e plano, e ao chegar nesse novo local, montanhoso e frio, a impressão que tive foi de que estava agora num planeta diferente; no lugar onde as pessoas podem ir para fugir de seus problemas (que nunca subiriam até aquela altura, naturalmente) e simplesmente relaxar. Eu estava de férias, e aquele hotel me seduziu logo nos primeiros momentos.
Lá dentro não tinha carros, não tinha correria, mal pegava sinal de celular. Grandes jardins e cabanas simples, era como uma fazenda no paraíso. Fator que ajudou a me passar uma boa impressão do lugar foi que mamãe me deu liberdade para passear por lá sem necessidade de seus cuidados; me senti senhor de mim mesmo. Era só avisar onde iria que poderia ir onde quer que fosse. Me senti livre pela primeira vez na vida. Lembro também que o hotel tinha um cronograma para recreação infantil, de modo que sempre havia atividades para nos entreter; era só entrar na recepção e olhar para o quadro branco, e logo saberíamos o quê, onde e que horas. Sem necessidade de falar com adultos; tudo muito maduro e independente. Lembro disso porque um dia entrei lá e vi uma atividade de nome muito interessante, que me deixou de imediato curioso: Caça Fantasmas.
Na primeira vez que fui à piscina do hotel, ela parecia enorme e cheia de coleguinhas em potencial. E tinha até uma menininha da minha idade; sempre tem uma menininha da nossa idade nas boas histórias. Ela poderia ser minha namorada se quisesse. Nessa idade, todas as meninas podem ser nossas namoradas; é que tudo parece maior pra gente pequena, então qualquer conversa boba pode ter o mesmo peso que anos de matrimônio, sabe?
Não tardou a ficarmos amigos. Logo éramos velhos conhecidos. Ela falava muito, e eu gostava de escutar (pensando melhor, certas características humanas não mudam, né? ). Ela tinha cabelos negros curtinhos e sorriso fácil, eu acho. Atraído pela nossa fluência, logo um outro menino se juntou à nós. Era legal também, e logo todos já estávamos super à vontade. Depois vim reparar que ele usava só roupinhas tipo "mamãe escolheu", daquelas super arrumadinhas. Eu achava engraçado.
Mais tarde, já de noite, nos juntamos na recepção e fomos participar da tal atividade "Caça Fantasmas". Era assim: alguns funcionários juntavam as crianças num grupo único e levavam-nas numa trilha pré-definida através dos jardins escuros, contando falsas histórias de terror sobre o local. Diziam que se déssemos sorte, veríamos algum fantasma. E de fato eu vi: numa das muitas elevações do terreno, pude avistar, meio ao longe, uma figura branca que se agitava desengonçadamente; um lençól branco com uma pessoa por baixo.
Nem preciso dizer que eu e meus novos amigos ficamos desapontados. Quando terminou o passeio, voltamos para a recepção e ficamos conversando sobre o quão vazio era saber que não tínhamos visto fantasmas de verdade. Mas lembro também que uma pequena parte de minha queria muito acreditar; acreditar no sobrenatural, na existência dos fantasmas, que o mundo era um lugar interessante de verdade. Mesmo assim, estávamos todos muito contentes. Oras, estávamos juntos, de noite, longe das mãos controladores de nossos pais e num lugar tão bonito. Até compramos uma coca-cola, com nosso próprio dinheiro, só pra comemorar o momento. Quer espumante melhor que coca-cola quando se tem 8 anos? Não há, não há. Eu estava muito feliz pela novidade daquela situação, por ter conseguido tão bons amigos,por ter coca-cola, por estar tarde e eu não estar na cama; por estar vivendo!
Ah sim, eu gostei mtanto desse hotel-fazenda que ficamos em Nova Friburgo...
Hoje os jornais dizem que as montanhas caíram. A chuva veio e empurrou a terra, tudo caiu. Sabe as avalanches de neve que vemos nos desenhos animados? Quando um personagem grita muito alto,que logo a neve se parte e rola montanha abaixo, uma massa branca, uniforme, que chega até a ser bonita. Poisé, quase isso; só que ao invés dessa massa branca temos uma marrom, quase negra, úmida, formada por lama, pedras, troncos de árvores e morte.
Me disseram que 3 cidades foram afetadas, mas o meu coração saltou mesmo foi quando ouvi que dentre elas figurava Nova Friburgo. Imagens do Hotel passaram pela minha mente; os jardins, o cheiro de relva pela manhã,o quadro de atividades iluminado pelo sol da manhã, a piscina cheia de coleguinhas... Aquele cantinho de paraíso todo, 4 metros abaixo de lama fria e espessa.
Dizem que a montanha desceu de noite, pegando as pessoas enquanto dormiam. Durante um sonho gostoso, um último sonho que serviu de transição para a sonolência eterna nos leitos da morte. Ou talvez no meio de uma brincadeira de caça fantasmas. Talvez tenham pego de surpresa algum jovem que estava contente por não estar na cama. Talvez ele tenha ouvido tudo, visto tudo. Toneladas de desabamento podem ser um monstro, se é que você me entende. Numa noite de lua nova e aos olhos de uma criança, esse desabamento corre, ruge, procura e mata igualzinho à um gigante em estupor assassino. Ele não deixa nada para trás, suas garras ceifam vidas e desconstroem famílias como uma criança desmonta lego.
Através da janela, por entre a menina de sorriso fácil e o menino de trajes incongruentes, pela janela, ele vê o monstro. Uma sombra tão enorme e truculenta que arrebata de súbito a pulsação do menino. Rugidos e grunhidos, enquanto o monstro engole tudo. O estacionamento, onde ficou o nosso carro, carro que pegamos emprestado de nossos tios que moram no RJ. Ninguém ouviu o alarme tocar, porque o som não se propaga bem embaixo de tanto barro. O caminho de pedras pelo jardim, que está vendo cruzar seu último visitante. A primeira cabana, e logo a segunda, e então a cabana em que está hospedado o menino, pai e mãe ainda na cama, espero que eles não estejam acordados para assistir o horror que contemplo com meus olhinhos; esqueci de desejar boa noite de mamãe e pedir bença de papai, e se tivesse tempo choraria em arrependimento. Agora, foi-se a piscina e o bar, onde ainda deveria ter gente nadando, conversando ou dançando. Um casal ou dois que nunca vão ter um filho, ou nunca vão vê-lo crescer; espero que suas mãos estejam juntas agora, para que a eternidade não os separe. Finalmente, a lama chega atravessando a janela, quebrando a estrutura, estuprando a construção, pondo abaixo toda a madeira, todo o concreto, levando móveis, paredes e...e o menininho. Uma morte que cheira a restos materiais e tem um gosto muito forte de terra.
Agora, me pego imaginando quantos meninos assim não encontraram um desfecho prematuro na boca desse monstro. Quantos não deixaram toda uma vida pela frente, no meio de toda aquela lama. Os jornais alardeiam o número de mortos mas citam apenas um ou outro famoso dentre os números; o resto, que não era famoso, continua sendo apenas um número. Eu não creio isso justo. Agora, se Deus existe, os fantasmas também são reais; tenham sido eles ricos ou pobres, famosos ou anônimos, decentes ou condenáveis.
Meus sinceros sentimentos pelos vitimados nesse desastre natural no RJ.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Cenas de uma viagem- Translação.
Então, Manaus - Fortaleza. Um pouco a contra-gosto, um pouco curioso, eu saio em meio à uma partida de Halo que estava apenas no início, e prometia esquentar; mais ou menos 15 hrs da tarde de quinta-feira, dia 30. Para quem já viu o Sol raiar no meio dos assassinates e dos killing sprees, isso é no mínimo ultrajante.
Mas tudo bem, tudo bem.
Agora são 20:27 exatamente, horário Manaus, e eu estou no avião. Sem caça-palavras e revistinhas do gênero, que parecem ser os maiores atrativos de qualquer viagem de avião. Vôo pela Gol, e devo dizer que certos pontos do cronograma de bordo são, ao meu ver, comicamente questionáveis.
Por exemplo, antes do avião decolar, o comissário de bordo descreve o tipo de coisa que nós devemos fazer caso enfrentemos qualquer tipo de percalço durante a viagem: qualquer coisa, senhores passageiros, luzes de emergência se acenderão e indicarão o caminho mias certo até a saída de emergência mais próxima. Onde, acho que ele esqueceu de falar, os senhores poderão esticar suas asas e abandonar calmamente a aeronave. Porque, claro, em caso de qualquer coisa no meio do vôo, a minha vontade de correr até a saída mais próxima e abraçar uma queda radical porém fora do avião será irrefreável. Beleza. Eu acho, senhor comissário, que esses procedimentos são meio furados, de boa. Olha, acho que se acontecesse algo grave durante o vôo, o certo seria que a equipe de bordo se apressasse para servir o máximo possível da tripulação com champanhe ou, sei lá, me faz um inferninho aí. Porque cara, se você parar pra pensar, aconteceu algo com uma nave à sei lá quantos mil pés do chão, abraços. Eu ligo o foda-se, e se der tempo ainda escrevo um post pro blog reclamando do atendimento. Que caixa-preta que nada, a culpa é do fdp do piloto lá que esqueceu de passar a marcha, me pronuncio logo.
Depois, eles apagam as luzes, tranquilo, foi passada a sugestão da soneca. Eu aperto logo o botão de reclinação da cadeira, super ansioso,e ela se reclina tipo 1 grau. O quê? Como assim? Já reclinou, ou eu tive um princípio de vertigem? Esse foi o mecanismo de reclinação ou foi o gordo da cadeira de trás que acomodou o joelho? Po, brother. Não me calunie. Sabe o que eles conseguiram, com essa cadeira? Eles acharam a inclinação perfeita, entre o confortável para sentar e o confortável para deitar, isto é, o desconfortável para ambos. Parabéns galera, mais um dia, mais um milagre da engenharia. Porra, próxima coisa que eu sei a Skynet tá ativando os Arnold Schwazinnegers pra me matar. Cadeiras plenamente desconfortáveis são só o primeiro passo no plano das máquinas de subjugarem os seres humanos. Fica pior porque nem travesseirinho eles trazem, de forma que eu tenho que usar as minhas próprias vértebras para acomodar a cabeça, sei lá.
Outra coisa que me chamou atenção foi no horário do lanche. Eu acordo com uma dor grotesca no pescoço, meio que agradecendo por não ter ficado é tetraplégico durante o sono ( o que seria uma vitória para as máquinas), e lá vêm o serviço de bordo, com o abençoado carrinho de gostosuras. Lembro de quando era pequeno, que serviam uns pratos legais de frango com arroz e salada e umas sobremesas bacanas, coisa do tipo. O cara me pergunta então, Algo para beber, senhor? , ao que respondo, peito inflado, sorriso dando a volta na nuca, Coca Cola!, ao que recebo em troca um seco e contundente Só temos pepsi. Nessa hora eu me levanto de supetão e tento imitar o linguajar islâmico enquanto agito a minha bolsa, mostrando que se trata de uma bomba e que tá todo mundo ferrado. Não, é brincadeira; eu guardo essa constatação acerca dos suprimentos bebericatícios do avião bem no fundo do coração enquanto luto para me adaptar a esse novo conceito de realidade imposta. Aceito a pepsi, e espero para ver qual é a próxima tragédia. Não, senhores, eles não me entregam amendoins. Até porque eu gosto de amendoins, e eles tem dever contratual de não agradar os passageiros. Então eles me entregam um pacote do que eu só posso supor que sejam pequenos pedaços de isopor com pitadas de sal. Beleza.
Não se proporcionam mais viagens de avião como antigamente.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Meninas de hoje
Ei, este texto não é sobre o que você está pensando que é, seu sacana.
Outro dia, eu estava fazendo meu jogging usual nas esteiras do Cagin, assistindo ao filme do Austin Powers no Boomerang, quando entram os comerciais. E devo dizer, eles davam muito destaque à dois certos programas: um trata sobre uma jovem que está a ser paquerada por um zumbi que faz parte de uma banda (?), outro sobre uma menina que tem uma banda e leva uma vida menina normal/roqueira famosa (ao estilo Hanna Montana).
Beleza, beleza. Então, alguém pode me explicar qual é a dessa geração? Digo, Crepúsculo e Hanna Montana, Vampire Diaries e sei lá mais o quê. Na minha época, os desenhos eram A Vaca e o Frango, Laboratório de Dexter e Meninas Superpoderosas; todos desenhos ganhadores de Emmys, ok?. Agora, é novela mexicana, soap opera americana e romance de revistaria. Todos porqueiras inveteradas, ok?
As meninas andam descontentes consigo mesmas? Elas não aceitam mais a sua normalidade? Isso não é novidade. Digo, agora a fuga da realidade é o novo infantil. Querem uma fórmula de sucesso? Menina palerma recebe de presente e embrulhado o extraordinário. Opa, descrevi todas as séries de sucesso da atualidade, ou é impressão a minha? O extraordinário vêm na forma de um homem ideal (um vampiro belo e perfeito, que nem sequer tem mais que se esconder do sol ou beber sangue humano, pois não queremos ter de nos preocupar com qualquer empecilho de fato para o romance dos protagonistas.) ou na forma de uma carreira surreal (simples estudante de dia, rockstar de noite; tarefa de casa pra quê?). Note-se que em nenhum dos casos o resto das amizades da menina sabe do que de fato se passa na vida da moça; não sabem que o homem que vêm chupando seus lábios se amarra mesmo é em chupar seu sangue, ou que o motivo de ela voltar tarde da noite de peruca e cheia de purpurina não é prostituição, mas sim uma inocente carreira de super astro, o que nos remete àquela velha máxima: mulheres adoram seus segredinhos.
Sério, qual é? O entra dia sai dia é marasmo demais? Falta emoção? Vocês tem sido cortejadas pelos homens errados? Tenho que admitir, Príncipe Encantado hoje em dia tá difícil (mas oh, aproveitem enquanto eu ainda estou solteiro). Eu sou até melhor, porque não me alimento de sangue fresco, mas me satisfaço com belos sorrisos e tenros olhares. E essa do super stardoom, é por causa do desejo subconsciente que vocês têm de simplesmente serem populares ao ponto de ter que dizer “chega”? De precisarem se esconder? Acho que vou usar a cantada do "Oi, sou um caça talentos, e você é tem as mais belas costelas salientes de todo o aposento".
Essas séries atacam as inseguranças femininas de maneira grotesca, quase violenta. Chega a ser intrusivo. Mas elas gostam. Elas gostam de ter as coisas entregues a elas. Acostumam-se a serem carregadas pelos fortes braços de um vampiro que nunca vai aparecer,ou à poderem gastar de um dinheiro sem ter de se preocupar com o seu final.
Romances vazios e vidas fúteis, essas são as cartas da vez. Já perceberam que ninguém estuda de verdade nessas séries? Tá, ninguém estudava nos desenhos de quando eu era criança. Mas pô, ninguém mais lê também. Eu já assisti à um episódio de Jonas Brothers com minha irmãzinha, e o tópico frasal do episódio era: a roupa que os irmãos usariam em tal ocasião sujou-se com refrigerante, e não estaria disposta no tal evento. SÉRIO? É ISSO? É SOBRE ISSO O EPISÓDIO? MAN, ARRANJA UM PAR DE BOLAS,TÁ? Digo, é isso que a TV diz para os moleques? Que os grandes desafios da vida lá fora se encontram na dificuldade de arranjar roupas em cima da hora? Amigo,cê tá vendo aquele penhasco ali? Pula. Te joga. Cai. Morre. Purpurinize-se. Esvoace com o vento.
Outro dia teve um evento na Fire, club badaladíssimo, onde um certo “Colírio” deu as caras para agradar a meninada. Foi um evento tipo Xuxa só para baixinhos mesmo. E eu fui checar as fotos do evento, e PORRA. Digo, PORRA. Cara, aquela criatura era feia. Tipo, FEIA. Dava medo, sério. Ele era cabeçudo, e usava uma simples blusa de gola em V apertadíssima, delineando o corpo esquelético (ok, sem braços fortes ali, isso é certo). E a face do ser! Meu deus, ele tinha exatamente o mesmo sorriso em TODAS as fotos. TODAS. Dava para fazer um slideshow, e se você mudasse bem rápido não ia notar a diferença no rosto do meliante. Aliás, se alguém grudasse a foto dele no meu quarto, só daquela cara, eu não conseguiria dormir à noite, admito. O mais interessante, no entanto, era ver o tipo de menina que compareceu ao evento. Por trás de cada sorriso, de cada olhar, uma Isabella Swam.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Um navio de lego
Eu montei um barco pirata de lego.
Peça por peça. Encaixe por encaixe. Desde as primeiras chapas do casco, até a ponta dos mastros.
Eu sorri para o barco, ao click do último encaixe. Ele estava perfeito, terminado. Pronto para mil aventuras. Cinco bonequinhos são sua tripulação, e há um capitão e uma donzela.
A donzela pode ser enamorada do capitão, e eles podem ser um casal fugido da Inglaterra. A tripulação pode ser uma corja de ladrões, mas daquele tipo de ladrões dos filmes românticos, que são sempre nobres e carismáticos. Eles podem todos ter sido compelidos a escapar do opressor exército inglês por desentendimentos políticos, lutando contra uma Coroa infiel e ambiciosa, e se juntado na missão de espalhar a instabilidade e a insurgência entre as diferentes classes sociais. A caveira na bandeira pode ser o símbolo de uma rebelião histórica. E o capitão e a donzela são charmosos e apaixonados, e no fundo é a sua figura parental que une o grupo instável que é a tripulação do navio, como uma família incomum.
Ou a tripulação pode ser de uma desgarrada estirpe, perseguidos pela boa Justiça e temidos pelos trabalhadores honestos. Isso porque certos homens idolatram a própria imagem e simplesmente não se ajustam à sociedade alguma. Profissão e honra são meios de domar as pessoas, e esses mesmos homens deles fogem como diabos fogem da cruz. A marginalidade é a salvação, e a lâmina fria na garganta do próximo é todo o escapismo que esses insanos necessitam para acalmar o próprio peito. Vontade de sangue, vontade de violência. E a donzela é uma prostituta e o capitão é um refém psicológico, um boneco das vontades da sua incontrolável tripulação. Ou quem sabe, ele é o mais insano de todos, o mais violento e o mais temível. O meu navio pode ser o navio da morte, e a caveira em sua flâmula nada mais é que prenúncio de perdição. Três tiros de canhão na noite, e vários homens bons jamais encontrarão o caminho de casa.
Ou quem sabe, política e sociedade nada tem a ver com a história desse navio; quem sabe a tripulação é de sonhadores e aventureiros. Quem sabe do diário de bordo deles nada conste se não relatos de encontros míticos encantados. Fugas apertadas de ciclopes e encontros avassaladores com sereias. O capitão é um homem sábio e a donzela, sua esposa, mulher cheia de segredos; pode ser então que o protagonista da história seja um dos simples tripulantes, um jovem esperto e sedento por explorar os cantos de um mundo que está só começando. Nada de baleia branca assassina ou de icebergs escondidos; não, só o dia após dia de um grupo de pessoas que tem toda uma vida pela frente.
Eu paro de sorrir. É só um barco de brinquedo que nunca vai deixar a minha sala de estar.
Porque nenhuma conquista mais tem sabor.
Porque tudo se tornou muito complexo.
Porque na mente do homem de hoje, não há mais espaço para Navios Piratas.
Um navio de lego
Eu montei um barco pirata de lego.
Peça por peça. Encaixe por encaixe. Desde as primeiras chapas do casco, até a ponta dos mastros.
Eu sorri para o barco, ao click do último encaixe. Ele estava perfeito, terminado. Pronto para mil aventuras. Cinco bonequinhos são sua tripulação, e há um capitão e uma donzela.
A donzela pode ser enamorada do capitão, e eles podem ser um casal fugido da Inglaterra. A tripulação pode ser uma corja de ladrões, mas daquele tipo de ladrões dos filmes românticos, que são sempre nobres e carismáticos. Eles podem todos ter sido compelidos a escapar do opressor exército inglês por desentendimentos políticos, lutando contra uma Coroa infiel e ambiciosa, e se juntado na missão de espalhar a instabilidade e a insurgência entre as diferentes classes sociais. A caveira na bandeira pode ser o símbolo de uma rebelião histórica. E o capitão e a donzela são charmosos e apaixonados, e no fundo é a sua figura parental que une o grupo instável que é a tripulação do navio, como uma família incomum.
Ou a tripulação pode ser de uma desgarrada estirpe, perseguidos pela boa Justiça e temidos pelos trabalhadores honestos. Isso porque certos homens idolatram a própria imagem e simplesmente não se ajustam à sociedade alguma. Profissão e honra são meios de domar as pessoas, e esses mesmos homens deles fogem como diabos fogem da cruz. A marginalidade é a salvação, e a lâmina fria na garganta do próximo é todo o escapismo que esses insanos necessitam para acalmar o próprio peito. Vontade de sangue, vontade de violência. E a donzela é uma prostituta e o capitão é um refém psicológico, um boneco das vontades da sua incontrolável tripulação. Ou quem sabe, ele é o mais insano de todos, o mais violento e o mais temível. O meu navio pode ser o navio da morte, e a caveira em sua flâmula nada mais é que prenúncio de perdição. Três tiros de canhão na noite, e vários homens bons jamais encontrarão o caminho de casa.
Ou quem sabe, política e sociedade nada tem a ver com a história desse navio; quem sabe a tripulação é de sonhadores e aventureiros. Quem sabe do diário de bordo deles nada conste se não relatos de encontros míticos encantados. Fugas apertadas de ciclopes e encontros avassaladores com sereias. O capitão é um homem sábio e a donzela, sua esposa, mulher cheia de segredos; pode ser então que o protagonista da história seja um dos simples tripulantes, um jovem esperto e sedento por explorar os cantos de um mundo que está só começando. Nada de baleia branca assassina ou de icebergs escondidos; não, só o dia após dia de um grupo de pessoas que tem toda uma vida pela frente.
Eu paro de sorrir. É só um barco de brinquedo que nunca vai deixar a minha sala de estar.
Porque nenhuma conquista mais tem sabor.
Porque tudo se tornou muito complexo.
Porque na mente do homem de hoje, não há mais espaço para Navios Piratas.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Uma Execução
Hoje foi um dia curioso.
Não curioso quanto ao conteúdo, não. Dessas querelas subjetivas que passeiam pelos calçamentos do diuturno eu me abstenho comentar; quero chamar atenção simplesmente para o dia em si, sua forma.
Quando acordei, fazia tempo agourento: céus fechados e chuva. Quase como uma pessoa, o dia acordou mal-encarado, estressado. As nuvens resguardavam o horizonte como uma alcateia cerca uma presa ferida, enquanto a chuva ameaçava a cidade e dificultava a vida dos que transitavam. Olhar pela janela era um convite à reflexão, uma sedução ínsita à introspecção.
A batalha celestial procedeu sem comprometimentos humanamente perceptíveis, enquanto eu cedia ocasionais lapsos de atenção à pintura que se apresentava.
Mais tarde, porém, um dos lados submeteu-se ao sobrestamento do outro, e as nuvens foram sumindo e sumindo, enquanto a chuva jazia agora unicamente na forma de poças frias e segregadas pelas ruas da cidade.
O sol, magnânimo, surgiu e trouxe com ele uma luz especial. Uma luz que não é a mesma que se vê todo dia. Uma luz que, como os lanceiros em um pós-batalha que atravessam o campo do entrave e perfuram os moribundos, segurou todo vento e afanou toda penumbra. Atirar meu olhar pelas janelas da sala de aula era como encarar retratos: nada que verde fosse movia-se ou agitava-se de qualquer forma. Sempre, é claro, numa cor muito pungente, muito irradiada. Como prisioneiro nu que é torturado por reter informações secretas, o mundo era feito refém. Caminhadas pela floresta revelariam mais e mais desta incômoda imagem; uma imagem de quase violência. Muito próxima, de fato, da obscenidade. Assistir a paisagem conhecida minha de todo dia ser espoliada dessa forma era desconfortável.
E eu assisti enquanto os ponteiros vespertinos percorriam o círculo e tornavam-se crepusculares; foi quando mais deprimido fiquei. O dia agora era posto ao cabo de sua vida, ao fim de sua existência, e de maneira incrivelmente dolorosa. Seu algoz, fosse quem fosse, agora o agredia com algumas nuvens espessas e fazia-o contorcer e espernear de tal maneira que sua dor apresentava-se escarlate à plateia humana que lhe desse vista. Uma agonia púrpuro-inchada, amarelo-náuseada e vermelho-sangrenta. Sofregava o onipotente céu de amor em direção a um inevitável e portentoso fim de gerência.
Lembro que foi do carro que eu assisti aos seus momentos finais de constrição. Enquanto o vermelho-púpuro-amarelo se alastrava pelo seu corpo, o dia finalmente cedeu sem grito ou protesto final, e vazou em líquido viscoso negro. Viscoso e negro como a noite.
O motivo desse espetáculo de violência que foi amostrado, ninguém sabe. Pena, você pode ou não sentir. Mas a questão à que todo este texto se compadece é, em verdade, a da desnecessidade de tudo isso.
sábado, 6 de novembro de 2010
Jogos Pouco Mortais
As pessoas tem essa habilidade especial, cara. Essa coisa pungente e gritante que é a capacidade de estragar as coisas que a gente gosta.
Sabe, eu sempre fui um daqueles adolescentes, de gosto questionável, fã de Jogos Mortais. Eu assisti todos os filmes, acompanhei a história e admirei a máquina de fazer dinheiro que virou a série. E eu até hoje me admiro com a quantidade de coisas que dá para suscitar num filme daqueles. Digo, uma série sobre serial killers que criam armadilhas mortais para, num deturbado senso ético, tentar ensinar o apreço à vida àquelas pessoas que se tornaram cegas ao que há de maravilhoso ao redor é o tipo de sinopse que pode fazer funcionar engrenagens até nós cérebros mais, digamos, limitados. Digo, contrapor a vida à morte é o ponto de partida de praticamente toda a ficção na história humana.
Desde a parábola de Cain e Abel (o primeiro homicídio) até o Crime e Castigo de Dostoiévisky, os seres humanos tem fascinação pela morte e seus efeitos sobre a vida. Surge então a série Jogos Mortais, num brilhantismo cultural que apenas os filmes de terror conseguem atingir. Me explico: você já percebeu como as séries de terror realmente marcam a cultura pop? Sexta-feira 13, Hora do Pesadelo, Halloween, são só alguns exemplos do que esse nicho tem à oferecer. E surgem então os críticos sem visão (que não faltam), e apontam seus pequenos e enrugados dedinhos e criticam todos os detalhes do filme. Mil críticas foram lançadas aos supracitados Slasher Movies. Na época, foram filmes que foram massacrados pelas resenhas profissionais. E são clássicos inquestionáveis do cinema, como pode isso?
Simples. Esse tipo de filme, os de “terror”, surgem para expor o que há de mais paupável na psiquê humana da época. Como você sabe se ele atingiu seu objetivo? Com o sucesso de bilheteria- não de crítica. Duvidam de mim? Hoje, várias obras são redigidas explorando essas películas que marcaram as décadas passadas, e expõem o que o cinema dizia nas entrelinhas aos jovens que o frequentavam, e com ele se identificavam. Percebam como em todo filme do Jason ou do Freddy, por exemplo, tem aquele casal que morre antes ou logo após transar. Parece trash não? Olhe para trás, agora, e me diga se não foi a questão sexual, de libertação jovem e quebra de tabus uma das que dominou os anos 70. O próprio medo inconsciente que tinham os jovens do ato sexual,tanto pela falta de conhecimento, como pelatransmissão de doenças, como por tantas outras coisas. O cinema de terror tem o primor; tem o primor cultural acima de todos os outros gêneros. Afinal, o terror deve ser pop. Peço que vocês atentem para o fato de que todos os grandes diretores modernos começaram escrevendo estórias de terror trash: Steven Spielberg, Peter Jackson, Roman Polanski, James Cameron, etc.
E hoje em dia nós assistimos o levantamento dessa série opulenta que é Jogos Mortais ( não há um só filme na série que não tenha sido um sucesso irredutível de bilheteria; até agora). Nunca vi uma série tão capaz de erguer-se e atingir o genial. Tão capaz de atravessar as barreiras da psicologia humana e mexer com o cerne da moral e da razão. Tão capaz de estipular situações-limite, de puro desespero existencial, onde nós poderíamos ver desabrochar a pura humanidade em meio ao torpe e ao abominável.
Mas temos então Jogos Mortais 7- O Final. Um momento de brilhantismo: o filme é sobre um “sobrevivente” de uma das armadilhas mortais que tenta capitalizar em cima de sua peripécia. O que eu achei simplesmente sagaz, afinal, é o que o ser humano faz nos dias de hoje, certo? Capitaliza em cima de informação. Escreve um livro, como o protagonista do filme. Simplesmente interessantíssimo. Mas, voltando ao meu ponto inicial neste post, os homens tem a capacidade de destruir as boas criações, e o que se vê em seguida é um filme que nem tenta mais. Não tenta ser intrincado, não tenta despistar o telespectador, não tenta confundir e nem chega a ser cruel de verdade. Até hoje lembro de Jogos Mortais 4, e de como aquele filme é realmente cruel com seus personagens. Mas este, ele às vezes parece uma sátira de si mesmo. Um sarcasmo voltado aos outros filmes da série, um Deu a Louca nos Jogos Mortais. Uma armadilha MORTAL em que a vítima tem que arrancar dois dentes com um alicate para sobreviver? SÉRIO? ARRANCAR DENTES? Em Jogos Mortais 2 teve um maluco que tinha que ARRANCAR O OLHO COM UM BISTURI, E NESSE O CARA TEM QUE ARRANCAR 2 DENTES? E se o rapaz tivesse cáries? O serial killer estaria lhe fazendo um puta favor, porra! Dentistas arrancam dentes, serial killers arrancam a mandíbula inteira, no mínimo!
Senhores produtores gananciosos, eu lanço um apelo: parem. Parem de fazer Jogos Mortais. Vamos deixar essa obra intocada por um tempo, sim? Que ela já entrou para a história, sem dúvidas. Agora, vamos deixar que ela descanse. Para que eu possa, daqui a 20 anos, quando eu já estiver velho e chato, assistir o remake. E que seja um bom remake.