sábado, 12 de fevereiro de 2011

Stieg Larsson, Liberalismo e blábláblá

Stieg Larsson é o autor da presentemente bombante Trilogia Millenium, que envolve os livros “Os homens que não amavam as mulheres”, “A menina que brincava com fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar”. Desses, eu já li o primeiro e estou na metade do segundo. E não estou aqui para criticar o enredo dessas obras, que eu acho simplesmente espetaculares. O Sr. Larsson, já falecido, sem dúvida dominava a arte de criar Thrillers intensos e exemplarmente articulados. A leitura é quase narcoticamente viciante. Mas existe um ponto que eu achei interessante para trazer à baila.
Stieg Larsson se acha moderno. Suas histórias são recheadas de computadores super modernos da Apple e operações financeiras super intrincadas e outras coisas. Mostram uma Suécia (porque lá se passa o cerne da história) de ponta. E não é só nisso que o autor persegue a alcunha de Moderno-Liberalista: ele recheia as suas história de todo tipo de ideologias recentes: a protagonista mulher é coberta de tatuagens e bissexual; tem um caso com um homem que poderia ser seu pai durante quase todo o primeiro livro; possui casais gays tanto masculinos quanto femininos; várias personagens gostam de se vestir de maneira tão provocativa que em certo ponto do segundo livro são confundidas como putas por policiais; e, o que tem mais destaque ao meu ver, uma outra personagem mulher é casada mas, vejam bem, tem relação amorosa com o protagonista. Tem pontos onde ela chega a ir passar semanas dormindo com amante. Tudo isso, com a devida sanção do marido. Beleza. Muito interessante essa iniciativa “moderna” do autor de dar à mulher a liberdade sexual. Legal, legal.

Essas palavras vazias e tão em voga, “modernidade”, “liberalidade”,são uma boa iniciativa para incitar o desrespeito leviano. Ao meu particular modo de ver, lógico. Na trama, eu diria que os personagens não fazem amor, raramente fazem sexo, mas fornicam como lebres loucas. Sim, estou estabelecendo uma nova categoria, me processe. Vejam bem, a partir de hoje, fazer amor é aquela transa com aparência positiva e dignificante, sexo é a transa com aquele viés negativo, mais comum e puramente selvagem, enquanto fornicar é, de agora em diante, aquela transa que não significa mais nada. Nada. Nem positivo, nem negativo, nada. Só “Oh olá, tudo bem? Vamos transar. Sim, tudo bem. Isso, eu gostei, você gostou? Tá bom, beijo me liga!”. Quero dizer, é isso o que eu vejo na escrita do sr. Larsson, personagens que literalmente se apresentam e...transam!
Mas estou me desviando do tópico. Vejam bem, não vou criticar a iniciativa de espalhar homossexualidade pela obra como se fosse um papel de parede bonitinho, até porque a moda hoje é essa (vide novelas da globo). Mas essa da esposa que trai com o aval do marido... Vamos lá, acompanhem meu humilde raciocínio. Casamento, promessa de amor e devoção. Instituição quase tão antiga quando o ser humano, blábláblá. Posso parecer meio conservador demais para um rebelde psicológico, mas eu acredito no Matrimônio. O ser humano sempre vai precisar dessa união. E eu acredito também na devoção entre as partes. Sabe, se a minha esposa viesse com essa de “Oh, eu te amo, mas eu quero continuar transando com o Manolo” (porque é isso que a personagem fala: que ela “ama” o marido, mas que precisa dos cuidados sexuais do protagonista), eu iria calmamente pegar o meu rifle e polidamente perguntar se ela também não está a fim de mais uns buracos pelo corpo para que o Ricardão possa “enchê-la de piroca” com mais eficácia. Aí, eu a chamaria de “Vadia!” e mandaria ela sair da casa, com o cuidado de deixar a aliança na mesa do jantar. Oras, vejam só. Não é apenas a minha insegurança falando (Ih, o Haroldo não confia no taco dele!). Não. A questão é: as regras do casamento são claras. Se você pede para entrar, mas não as cumpre, você não deveria ter pedido para entrar em primeiro lugar! Digo, como pode haver respeito profundo se a mulher fica abrindo as pernas para outro fulano? Se ela passa semanas dormindo com o outro? O que nós temos é uma pessoa que na verdade não quer nada com nada da vida, que quer submeter os outros às suas vontades, manipulá-los até, só para se ver agradada. A parte em que amor é sacrifício e provação não tem lugar mais nessa coisa de modernidade, não é verdade? Agora a onda é “Hey, vamos fornicar! Uhuuul!”

Mas tudo bem. A ausência de comprometimento e de respeito passa batido, beleza. Mas não é nem esse o problema mais sério.

Certa vez, meu pai acordou no meio da noite com uma falta de ar terrível. Dores no peito, na cabeça, não conseguia falar por causa da falta de ar e até para se mexer tinha dificuldades. Mas mamãe estava lá, e o ajudou. Dirigiu-o até um hospital e tudo ficou bem. Isso é um casamento.
E se a dona personagem-da-obra estivesse numa dessas suas noitadas com o seu Número-2, tudo permitido por um marido que realmente a ama ao ponto de sonegar seus próprios sentimentos para que as vontades tolas de sua esposa possam extravasar, e o tal marido, sozinho em casa (porque eles não tem filhos e moram sozinhos) tivesse, digamos assim, a falta de ar que o meu pai teve? Sem uma esposa de verdade lá para ajudá-lo, recuperá-lo e segurar sua mão até o hospital mais próximo? Simples assim, senhores. Ela voltaria para casa e veria solucionado seu problema de bigamia, devido ao paciente cadáver que a esperaria, ainda na cama, em suas roupas de dormir, como a esperou seu marido tantas vezes, tantas noites antes daquela fatídica. Casamento serve para coisas assim. O meu conservadorismo me conduz à pensar em situações assim, oras. O casamento não foi feito para felicidade eterna, porque felicidade é um conceito tão evasivo quanto água corrente, mas para o suporte. Tupac Shakur já abordava o tema em uma de suas belíssimas canções: “Esteja lá quando for necessário me suportar e me ajudar, porque é para isso que você está aqui comigo”. Isso me faz questionar o próprio conceito de divórcio, mas não entremos em águas tão arredias.

É isso aí, certos pontos do modernismo você pode enfiar no cu e girar, ok? A tentativa do sr. Larsson de parecer moderno e livre de preconceitos cansa às vezes, pois ele tem essa mania de levar ao extremo a flexibilidade das coisas. Suas personagens são bem construídas, mas suas ideologias causam choque. Talvez isso seja só mais uma tática para impressionar, para causar frisson, mas é algo que eu acho digno de ser comentado. Afinal, não são poucas as pessoas que vestem a camisa da Modernidade e utilizam o pretexto da “ausência de preconceitos” para extravasar o que há de pior e mais mesquinho no seu ser.

É isso o que eu acho. Não concorda? Me processa.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Promessas que não ficaram

Posso até dizer que a primeira pergunta que me fizeram hoje aconteceu ainda agora; afinal, já era pós meia-noite. Meu amigo vinha me deixar em casa e, enquanto dirigia, coçou a cabeça e, com um fluxo titubeante de palavras, ele me fez a dita cuja. A primeira pergunta do meu dia foi:
Haroldo, o que você acha de promessas?
Essa pergunta segue muitos caminhos. Caminhos que seguem todas as direções; ela é como o ponto central de uma encruzilhada.
Quero dizer, muitas pessoas já me fizeram promessas, e tudo... Promessas que não foram levadas à cabo...
Bem, promessas são assim. Na minha opinião, promessas não existem. Afinal, não existe dever palpável numa promessa, então elas são exatamente iguais à todas as outras palavras que cruzam as nossas bocas continuamente. Mais afundo ainda, digo que promessas só fazem sentido se forem quebradas. Quando uma promessa é cumprida, ela cai no esquecimento, a não ser que vire moeda de troca, o que descaracteriza a própria. Mas se ela é corrompida, ela vira uma lástima. Promessas são feridas esperando para serem abertas, sabe?
Na minha vida, eu fiz muitas promessas que não cumpri. Já prometi estar lá quando precisassem. Já prometi amar. Já prometi não decepcionar. Já prometi mundos. Mas Deus, o homem que serra e martela as tábuas do meu caixão, assiste enquanto essas promessas viram buracos no asfalto. Com o tempo, naturalmente, essas feridas são suturadas. E eu gosto de imaginar que essas promessas são retratos de coisas que nunca ocorreram; retratos cujo filme não foi revelado. Por isso vale dizer que essas promessas quebradas são mãos que moldam o ser que nos tornamos dia após dia.
Uma promessa tem muito mais valor para a pessoa que a elaborou que para a pessoa que a aceitou, a não ser que esta seja uma ingênua. Quando uma promessa é quebrada, quem mais se contunde é o caráter do promitente. Na vida do promissário, a promessa é algo que passou em branco, na vida do promitente, é uma reorganização. Se eu fiz uma promessa, ela é minha.
Mas certas promessas foram feitas para mudar a vida de uma pessoa, e de repente essa pessoa se vê enganada! Isso não é uma promessa, é uma mentira.
A mentira é irmã da promessa. A diferenciação há de ser feita pós-morte. Fiquem atentos.
Promessas, mesmo que no futuro sejam quebradas, exprimem verdades. Naquele momento, a verdade foi dita. Se o futuro vai voltar seu punho contra as vontades em questão, o Coveiro é quem sabe. E se o fizer, a culpa será de ninguém. Mas naquele momento, a promessa é uma verdade séria.
Uau, foi assim que eu comecei o meu dia. Claro que eu não respondi ao meu amigo todo esse raciocínio, até porque já estava em frente de casa. Mas fica aqui o meu pensamento.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Catástrofes Naturais

Tinha uma piscina e uma menina bonita, eu lembro. Tinha eu com 8, 9 anos.
Lembro que reparei antes de tudo no clima; não era esse asco abafado de Manaus. Era um friozinho agradável, um clima de montanha. Porque estávamos, aos olhos de eu pequeno, entre montanhas intransponíveis, lógico. Aos meus olhos de hoje, provavelmente montanhas não seriam, mas deixa ficar, deixa ficar, a prosa fica mais interessante. Lembro que a sensação era de isolamento total do mundo; afinal, sempre morei num lugar quente e plano, e ao chegar nesse novo local, montanhoso e frio, a impressão que tive foi de que estava agora num planeta diferente; no lugar onde as pessoas podem ir para fugir de seus problemas (que nunca subiriam até aquela altura, naturalmente) e simplesmente relaxar. Eu estava de férias, e aquele hotel me seduziu logo nos primeiros momentos.
Lá dentro não tinha carros, não tinha correria, mal pegava sinal de celular. Grandes jardins e cabanas simples, era como uma fazenda no paraíso. Fator que ajudou a me passar uma boa impressão do lugar foi que mamãe me deu liberdade para passear por lá sem necessidade de seus cuidados; me senti senhor de mim mesmo. Era só avisar onde iria que poderia ir onde quer que fosse. Me senti livre pela primeira vez na vida. Lembro também que o hotel tinha um cronograma para recreação infantil, de modo que sempre havia atividades para nos entreter; era só entrar na recepção e olhar para o quadro branco, e logo saberíamos o quê, onde e que horas. Sem necessidade de falar com adultos; tudo muito maduro e independente. Lembro disso porque um dia entrei lá e vi uma atividade de nome muito interessante, que me deixou de imediato curioso: Caça Fantasmas.
Na primeira vez que fui à piscina do hotel, ela parecia enorme e cheia de coleguinhas em potencial. E tinha até uma menininha da minha idade; sempre tem uma menininha da nossa idade nas boas histórias. Ela poderia ser minha namorada se quisesse. Nessa idade, todas as meninas podem ser nossas namoradas; é que tudo parece maior pra gente pequena, então qualquer conversa boba pode ter o mesmo peso que anos de matrimônio, sabe?
Não tardou a ficarmos amigos. Logo éramos velhos conhecidos. Ela falava muito, e eu gostava de escutar (pensando melhor, certas características humanas não mudam, né? ). Ela tinha cabelos negros curtinhos e sorriso fácil, eu acho. Atraído pela nossa fluência, logo um outro menino se juntou à nós. Era legal também, e logo todos já estávamos super à vontade. Depois vim reparar que ele usava só roupinhas tipo "mamãe escolheu", daquelas super arrumadinhas. Eu achava engraçado.
Mais tarde, já de noite, nos juntamos na recepção e fomos participar da tal atividade "Caça Fantasmas". Era assim: alguns funcionários juntavam as crianças num grupo único e levavam-nas numa trilha pré-definida através dos jardins escuros, contando falsas histórias de terror sobre o local. Diziam que se déssemos sorte, veríamos algum fantasma. E de fato eu vi: numa das muitas elevações do terreno, pude avistar, meio ao longe, uma figura branca que se agitava desengonçadamente; um lençól branco com uma pessoa por baixo.
Nem preciso dizer que eu e meus novos amigos ficamos desapontados. Quando terminou o passeio, voltamos para a recepção e ficamos conversando sobre o quão vazio era saber que não tínhamos visto fantasmas de verdade. Mas lembro também que uma pequena parte de minha queria muito acreditar; acreditar no sobrenatural, na existência dos fantasmas, que o mundo era um lugar interessante de verdade. Mesmo assim, estávamos todos muito contentes. Oras, estávamos juntos, de noite, longe das mãos controladores de nossos pais e num lugar tão bonito. Até compramos uma coca-cola, com nosso próprio dinheiro, só pra comemorar o momento. Quer espumante melhor que coca-cola quando se tem 8 anos? Não há, não há. Eu estava muito feliz pela novidade daquela situação, por ter conseguido tão bons amigos,por ter coca-cola, por estar tarde e eu não estar na cama; por estar vivendo!
Ah sim, eu gostei mtanto desse hotel-fazenda que ficamos em Nova Friburgo...
Hoje os jornais dizem que as montanhas caíram. A chuva veio e empurrou a terra, tudo caiu. Sabe as avalanches de neve que vemos nos desenhos animados? Quando um personagem grita muito alto,que logo a neve se parte e rola montanha abaixo, uma massa branca, uniforme, que chega até a ser bonita. Poisé, quase isso; só que ao invés dessa massa branca temos uma marrom, quase negra, úmida, formada por lama, pedras, troncos de árvores e morte.
Me disseram que 3 cidades foram afetadas, mas o meu coração saltou mesmo foi quando ouvi que dentre elas figurava Nova Friburgo. Imagens do Hotel passaram pela minha mente; os jardins, o cheiro de relva pela manhã,o quadro de atividades iluminado pelo sol da manhã, a piscina cheia de coleguinhas... Aquele cantinho de paraíso todo, 4 metros abaixo de lama fria e espessa.
Dizem que a montanha desceu de noite, pegando as pessoas enquanto dormiam. Durante um sonho gostoso, um último sonho que serviu de transição para a sonolência eterna nos leitos da morte. Ou talvez no meio de uma brincadeira de caça fantasmas. Talvez tenham pego de surpresa algum jovem que estava contente por não estar na cama. Talvez ele tenha ouvido tudo, visto tudo. Toneladas de desabamento podem ser um monstro, se é que você me entende. Numa noite de lua nova e aos olhos de uma criança, esse desabamento corre, ruge, procura e mata igualzinho à um gigante em estupor assassino. Ele não deixa nada para trás, suas garras ceifam vidas e desconstroem famílias como uma criança desmonta lego.
Através da janela, por entre a menina de sorriso fácil e o menino de trajes incongruentes, pela janela, ele vê o monstro. Uma sombra tão enorme e truculenta que arrebata de súbito a pulsação do menino. Rugidos e grunhidos, enquanto o monstro engole tudo. O estacionamento, onde ficou o nosso carro, carro que pegamos emprestado de nossos tios que moram no RJ. Ninguém ouviu o alarme tocar, porque o som não se propaga bem embaixo de tanto barro. O caminho de pedras pelo jardim, que está vendo cruzar seu último visitante. A primeira cabana, e logo a segunda, e então a cabana em que está hospedado o menino, pai e mãe ainda na cama, espero que eles não estejam acordados para assistir o horror que contemplo com meus olhinhos; esqueci de desejar boa noite de mamãe e pedir bença de papai, e se tivesse tempo choraria em arrependimento. Agora, foi-se a piscina e o bar, onde ainda deveria ter gente nadando, conversando ou dançando. Um casal ou dois que nunca vão ter um filho, ou nunca vão vê-lo crescer; espero que suas mãos estejam juntas agora, para que a eternidade não os separe. Finalmente, a lama chega atravessando a janela, quebrando a estrutura, estuprando a construção, pondo abaixo toda a madeira, todo o concreto, levando móveis, paredes e...e o menininho. Uma morte que cheira a restos materiais e tem um gosto muito forte de terra.
Agora, me pego imaginando quantos meninos assim não encontraram um desfecho prematuro na boca desse monstro. Quantos não deixaram toda uma vida pela frente, no meio de toda aquela lama. Os jornais alardeiam o número de mortos mas citam apenas um ou outro famoso dentre os números; o resto, que não era famoso, continua sendo apenas um número. Eu não creio isso justo. Agora, se Deus existe, os fantasmas também são reais; tenham sido eles ricos ou pobres, famosos ou anônimos, decentes ou condenáveis.
Meus sinceros sentimentos pelos vitimados nesse desastre natural no RJ.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Cenas de uma viagem- Translação.

Então, Manaus - Fortaleza. Um pouco a contra-gosto, um pouco curioso, eu saio em meio à uma partida de Halo que estava apenas no início, e prometia esquentar; mais ou menos 15 hrs da tarde de quinta-feira, dia 30. Para quem já viu o Sol raiar no meio dos assassinates e dos killing sprees, isso é no mínimo ultrajante. 
Mas tudo bem, tudo bem.
Agora são 20:27 exatamente, horário Manaus, e eu estou no avião. Sem caça-palavras e revistinhas do gênero, que parecem ser os maiores atrativos de qualquer viagem de avião. Vôo pela Gol, e devo dizer que certos pontos do cronograma de bordo são, ao meu ver, comicamente questionáveis.
Por exemplo, antes do avião decolar, o comissário de bordo descreve o tipo de coisa que nós devemos fazer caso enfrentemos qualquer tipo de percalço durante a viagem: qualquer coisa, senhores passageiros, luzes de emergência se acenderão e indicarão o caminho mias certo até a saída de emergência mais próxima. Onde, acho que ele esqueceu de falar, os senhores poderão esticar suas asas e abandonar calmamente a aeronave. Porque, claro, em caso de qualquer coisa no meio do vôo, a minha vontade de correr até a saída mais próxima e abraçar uma queda radical porém fora do avião será irrefreável. Beleza. Eu acho, senhor comissário, que esses procedimentos são meio furados, de boa. Olha, acho que se acontecesse algo grave durante o vôo, o certo seria que a equipe de bordo se apressasse para servir o máximo possível da tripulação com champanhe ou, sei lá, me faz um inferninho aí. Porque cara, se você parar pra pensar, aconteceu algo com uma nave à sei lá quantos mil pés do chão, abraços. Eu ligo o foda-se, e se der tempo ainda escrevo um post pro blog reclamando do atendimento. Que caixa-preta que nada, a culpa é do fdp do piloto lá que esqueceu de passar a marcha, me pronuncio logo.
Depois, eles apagam as luzes, tranquilo, foi passada a sugestão da soneca. Eu aperto logo o botão de reclinação da cadeira, super ansioso,e ela se reclina tipo 1 grau. O quê? Como assim? Já reclinou, ou eu tive um princípio de vertigem? Esse foi o mecanismo de reclinação ou foi o gordo da cadeira de trás que acomodou o joelho? Po, brother. Não me calunie. Sabe o que eles conseguiram, com essa cadeira? Eles acharam a inclinação perfeita, entre o confortável para sentar e o confortável para deitar, isto é, o desconfortável para ambos. Parabéns galera, mais um dia, mais um milagre da engenharia. Porra, próxima coisa que eu sei a Skynet tá ativando os Arnold Schwazinnegers pra me matar. Cadeiras plenamente desconfortáveis são só o primeiro passo no plano das máquinas de subjugarem os seres humanos. Fica pior porque nem travesseirinho eles trazem, de forma que eu tenho que usar as minhas próprias vértebras para acomodar a cabeça, sei lá.
Outra coisa que me chamou atenção foi no horário do lanche. Eu acordo com uma dor grotesca no pescoço, meio que agradecendo por não ter ficado é tetraplégico durante o sono ( o que seria uma vitória para as máquinas), e lá vêm o serviço de bordo, com o abençoado carrinho de gostosuras. Lembro de quando era pequeno, que serviam uns pratos legais de frango com arroz e salada e umas sobremesas bacanas, coisa do tipo. O cara me pergunta então, Algo para beber, senhor? , ao que respondo, peito inflado, sorriso dando a volta na nuca, Coca Cola!, ao que recebo em troca um seco e contundente Só temos pepsi. Nessa hora eu me levanto de supetão e tento imitar o linguajar islâmico enquanto agito a minha bolsa, mostrando que se trata de uma bomba e que tá todo mundo ferrado. Não, é brincadeira; eu guardo essa constatação acerca dos suprimentos bebericatícios do avião bem no fundo do coração enquanto luto para me adaptar a esse novo conceito de realidade imposta. Aceito a pepsi, e espero para ver qual é a próxima tragédia. Não, senhores, eles não me entregam amendoins. Até porque eu gosto de amendoins, e eles tem dever contratual de não agradar os passageiros. Então eles me entregam um pacote do que eu só posso supor que sejam pequenos pedaços de isopor com pitadas de sal. Beleza.
Não se proporcionam mais viagens de avião como antigamente.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Meninas de hoje

Ei, este texto não é sobre o que você está pensando que é, seu sacana.

Outro dia, eu estava fazendo meu jogging usual nas esteiras do Cagin, assistindo ao filme do Austin Powers no Boomerang, quando entram os comerciais. E devo dizer, eles davam muito destaque à dois certos programas: um trata sobre uma jovem que está a ser paquerada por um zumbi que faz parte de uma banda (?), outro sobre uma menina que tem uma banda e leva uma vida menina normal/roqueira famosa (ao estilo Hanna Montana).

Beleza, beleza. Então, alguém pode me explicar qual é a dessa geração? Digo, Crepúsculo e Hanna Montana, Vampire Diaries e sei lá mais o quê. Na minha época, os desenhos eram A Vaca e o Frango, Laboratório de Dexter e Meninas Superpoderosas; todos desenhos ganhadores de Emmys, ok?. Agora, é novela mexicana, soap opera americana e romance de revistaria. Todos porqueiras inveteradas, ok?

As meninas andam descontentes consigo mesmas? Elas não aceitam mais a sua normalidade? Isso não é novidade. Digo, agora a fuga da realidade é o novo infantil. Querem uma fórmula de sucesso? Menina palerma recebe de presente e embrulhado o extraordinário. Opa, descrevi todas as séries de sucesso da atualidade, ou é impressão a minha? O extraordinário vêm na forma de um homem ideal (um vampiro belo e perfeito, que nem sequer tem mais que se esconder do sol ou beber sangue humano, pois não queremos ter de nos preocupar com qualquer empecilho de fato para o romance dos protagonistas.) ou na forma de uma carreira surreal (simples estudante de dia, rockstar de noite; tarefa de casa pra quê?). Note-se que em nenhum dos casos o resto das amizades da menina sabe do que de fato se passa na vida da moça; não sabem que o homem que vêm chupando seus lábios se amarra mesmo é em chupar seu sangue, ou que o motivo de ela voltar tarde da noite de peruca e cheia de purpurina não é prostituição, mas sim uma inocente carreira de super astro, o que nos remete àquela velha máxima: mulheres adoram seus segredinhos.

Sério, qual é? O entra dia sai dia é marasmo demais? Falta emoção? Vocês tem sido cortejadas pelos homens errados? Tenho que admitir, Príncipe Encantado hoje em dia tá difícil (mas oh, aproveitem enquanto eu ainda estou solteiro). Eu sou até melhor, porque não me alimento de sangue fresco, mas me satisfaço com belos sorrisos e tenros olhares. E essa do super stardoom, é por causa do desejo subconsciente que vocês têm de simplesmente serem populares ao ponto de ter que dizer “chega”? De precisarem se esconder? Acho que vou usar a cantada do "Oi, sou um caça talentos, e você é tem as mais belas costelas salientes de todo o aposento".

Essas séries atacam as inseguranças femininas de maneira grotesca, quase violenta. Chega a ser intrusivo. Mas elas gostam. Elas gostam de ter as coisas entregues a elas. Acostumam-se a serem carregadas pelos fortes braços de um vampiro que nunca vai aparecer,ou à poderem gastar de um dinheiro sem ter de se preocupar com o seu final.

Romances vazios e vidas fúteis, essas são as cartas da vez. Já perceberam que ninguém estuda de verdade nessas séries? Tá, ninguém estudava nos desenhos de quando eu era criança. Mas pô, ninguém mais lê também. Eu já assisti à um episódio de Jonas Brothers com minha irmãzinha, e o tópico frasal do episódio era: a roupa que os irmãos usariam em tal ocasião sujou-se com refrigerante, e não estaria disposta no tal evento. SÉRIO? É ISSO? É SOBRE ISSO O EPISÓDIO? MAN, ARRANJA UM PAR DE BOLAS,TÁ? Digo, é isso que a TV diz para os moleques? Que os grandes desafios da vida lá fora se encontram na dificuldade de arranjar roupas em cima da hora? Amigo,cê tá vendo aquele penhasco ali? Pula. Te joga. Cai. Morre. Purpurinize-se. Esvoace com o vento.

Outro dia teve um evento na Fire, club badaladíssimo, onde um certo “Colírio” deu as caras para agradar a meninada. Foi um evento tipo Xuxa só para baixinhos mesmo. E eu fui checar as fotos do evento, e PORRA. Digo, PORRA. Cara, aquela criatura era feia. Tipo, FEIA. Dava medo, sério. Ele era cabeçudo, e usava uma simples blusa de gola em V apertadíssima, delineando o corpo esquelético (ok, sem braços fortes ali, isso é certo). E a face do ser! Meu deus, ele tinha exatamente o mesmo sorriso em TODAS as fotos. TODAS. Dava para fazer um slideshow, e se você mudasse bem rápido não ia notar a diferença no rosto do meliante. Aliás, se alguém grudasse a foto dele no meu quarto, só daquela cara, eu não conseguiria dormir à noite, admito. O mais interessante, no entanto, era ver o tipo de menina que compareceu ao evento. Por trás de cada sorriso, de cada olhar, uma Isabella Swam.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Um navio de lego

Eu montei um barco pirata de lego.

Peça por peça. Encaixe por encaixe. Desde as primeiras chapas do casco, até a ponta dos mastros.

Eu sorri para o barco, ao click do último encaixe. Ele estava perfeito, terminado. Pronto para mil aventuras. Cinco bonequinhos são sua tripulação, e há um capitão e uma donzela.

A donzela pode ser enamorada do capitão, e eles podem ser um casal fugido da Inglaterra. A tripulação pode ser uma corja de ladrões, mas daquele tipo de ladrões dos filmes românticos, que são sempre nobres e carismáticos. Eles podem todos ter sido compelidos a escapar do opressor exército inglês por desentendimentos políticos, lutando contra uma Coroa infiel e ambiciosa, e se juntado na missão de espalhar a instabilidade e a insurgência entre as diferentes classes sociais. A caveira na bandeira pode ser o símbolo de uma rebelião histórica. E o capitão e a donzela são charmosos e apaixonados, e no fundo é a sua figura parental que une o grupo instável que é a tripulação do navio, como uma família incomum.

Ou a tripulação pode ser de uma desgarrada estirpe, perseguidos pela boa Justiça e temidos pelos trabalhadores honestos. Isso porque certos homens idolatram a própria imagem e simplesmente não se ajustam à sociedade alguma. Profissão e honra são meios de domar as pessoas, e esses mesmos homens deles fogem como diabos fogem da cruz. A marginalidade é a salvação, e a lâmina fria na garganta do próximo é todo o escapismo que esses insanos necessitam para acalmar o próprio peito. Vontade de sangue, vontade de violência. E a donzela é uma prostituta e o capitão é um refém psicológico, um boneco das vontades da sua incontrolável tripulação. Ou quem sabe, ele é o mais insano de todos, o mais violento e o mais temível. O meu navio pode ser o navio da morte, e a caveira em sua flâmula nada mais é que prenúncio de perdição. Três tiros de canhão na noite, e vários homens bons jamais encontrarão o caminho de casa.

Ou quem sabe, política e sociedade nada tem a ver com a história desse navio; quem sabe a tripulação é de sonhadores e aventureiros. Quem sabe do diário de bordo deles nada conste se não relatos de encontros míticos encantados. Fugas apertadas de ciclopes e encontros avassaladores com sereias. O capitão é um homem sábio e a donzela, sua esposa, mulher cheia de segredos; pode ser então que o protagonista da história seja um dos simples tripulantes, um jovem esperto e sedento por explorar os cantos de um mundo que está só começando. Nada de baleia branca assassina ou de icebergs escondidos; não, só o dia após dia de um grupo de pessoas que tem toda uma vida pela frente.

Eu paro de sorrir. É só um barco de brinquedo que nunca vai deixar a minha sala de estar.

Porque nenhuma conquista mais tem sabor.

Porque tudo se tornou muito complexo.

Porque na mente do homem de hoje, não há mais espaço para Navios Piratas.

Um navio de lego

Eu montei um barco pirata de lego.

Peça por peça. Encaixe por encaixe. Desde as primeiras chapas do casco, até a ponta dos mastros.

Eu sorri para o barco, ao click do último encaixe. Ele estava perfeito, terminado. Pronto para mil aventuras. Cinco bonequinhos são sua tripulação, e há um capitão e uma donzela.

A donzela pode ser enamorada do capitão, e eles podem ser um casal fugido da Inglaterra. A tripulação pode ser uma corja de ladrões, mas daquele tipo de ladrões dos filmes românticos, que são sempre nobres e carismáticos. Eles podem todos ter sido compelidos a escapar do opressor exército inglês por desentendimentos políticos, lutando contra uma Coroa infiel e ambiciosa, e se juntado na missão de espalhar a instabilidade e a insurgência entre as diferentes classes sociais. A caveira na bandeira pode ser o símbolo de uma rebelião histórica. E o capitão e a donzela são charmosos e apaixonados, e no fundo é a sua figura parental que une o grupo instável que é a tripulação do navio, como uma família incomum.

Ou a tripulação pode ser de uma desgarrada estirpe, perseguidos pela boa Justiça e temidos pelos trabalhadores honestos. Isso porque certos homens idolatram a própria imagem e simplesmente não se ajustam à sociedade alguma. Profissão e honra são meios de domar as pessoas, e esses mesmos homens deles fogem como diabos fogem da cruz. A marginalidade é a salvação, e a lâmina fria na garganta do próximo é todo o escapismo que esses insanos necessitam para acalmar o próprio peito. Vontade de sangue, vontade de violência. E a donzela é uma prostituta e o capitão é um refém psicológico, um boneco das vontades da sua incontrolável tripulação. Ou quem sabe, ele é o mais insano de todos, o mais violento e o mais temível. O meu navio pode ser o navio da morte, e a caveira em sua flâmula nada mais é que prenúncio de perdição. Três tiros de canhão na noite, e vários homens bons jamais encontrarão o caminho de casa.

Ou quem sabe, política e sociedade nada tem a ver com a história desse navio; quem sabe a tripulação é de sonhadores e aventureiros. Quem sabe do diário de bordo deles nada conste se não relatos de encontros míticos encantados. Fugas apertadas de ciclopes e encontros avassaladores com sereias. O capitão é um homem sábio e a donzela, sua esposa, mulher cheia de segredos; pode ser então que o protagonista da história seja um dos simples tripulantes, um jovem esperto e sedento por explorar os cantos de um mundo que está só começando. Nada de baleia branca assassina ou de icebergs escondidos; não, só o dia após dia de um grupo de pessoas que tem toda uma vida pela frente.

Eu paro de sorrir. É só um barco de brinquedo que nunca vai deixar a minha sala de estar.

Porque nenhuma conquista mais tem sabor.

Porque tudo se tornou muito complexo.

Porque na mente do homem de hoje, não há mais espaço para Navios Piratas.