quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Terra do Nunca, Nunca na Terra

O cigarro em suas mãos diz muitas coisas. Mais até do que ela, que está silenciosa. O seu vestido é azul, cheio de brilhos (enegrecidos pela sujeira), sua renda toda bem cosida (rasgada e desgastada), seus sapatinhos de cristal (está faltando um, o outro está trincado), a parte frontal de seu vestido é uma agradável pintura da face de uma criança (só que o seu busto está rasgado, abrindo num grande decote, e seu vestido todo esticado e maltratado pelo tempo fez o sorriso da criança se entortar, pender e cair num expressão de tristeza). Ela está sentada num tronco morto, igual a todos os outros troncos mortos que temos ao redor, com suas perninhas jogadas displicentemente em todas as direções.

Estico-lhe um braço, e ela nota o isqueiro negro na extremidade que lhe é próxima. Seus belos olhos azuis fitam-me com profundidade, enquanto ela exita baixinho.

Com um movimento dos dedos, eu faço o fogo, e a luz me mostra detalhes não de todo agradáveis em sua face: a maquiagem borrada exalta as veredas de lágrimas por suas bochechas, e o brilho que enfeitava os lábios já minguou. Ela, depois de uma curta briga interna, resolve-se.

- Típico! - diz com um pouco de amargura. E num movimento rápido, encosta seu cigarro na minha chama, e assiste enquanto ele adquire brilho próprio. Então, com a velocidade de uma viciada contumaz, ela o leva à boca, numa boa tragada.

- O que aconteceu com suas asas, Fada Azul? - pergunto, não tão inocente enquanto guardo o isqueiro negro. Por algum motivo, essa pergunta faz todo o sentido.

Uma tragada precede sua resposta, enquanto ela empalidece e eu assisto uma longa subida e uma longa decida de seu peito - Caíram. - Seus olhos me evitam como o Diabo evita a cruz, parecendo relâmpagos azulados em suas órbitas, procurando um ponto fixo.

- Hm... Mas como?

Sua carinha suja se torce numa carranca, que nem por isso deixa de ser bela, enquanto ela me cospe sua resposta:- Caíram de caideza caída!

- Como poderiam suas asas cair?

Subitamente, sua expressão vaza numa de dor e angústia, com suas sobrancelhas quase se interceptando no topo da testa, mas só por um momento, pois logo ela se recupera - Caíram porque não eram mais necessárias, obviamente. - ela respondeu, escondendo-se atrás de uma expressão indiferente. Seus olhos ainda em outro lugar, como se nossa conversa fosse a coisa menos interessante daquele cenário estático. Mas então, algo subitamente veio à minha mente; uma idéia. Mas tentei afastá-la, incomodado.

- Mas ... - interrompi minha própria frase, quando me dei conta: - Uau! Neve!

De repente, desciam do céu aqueles flocos gelados que eu sempre tivera vontade de conhecer. Neve! Olhei ao redor, impressionado, observando enquanto os flocos cercavam-nos por completo. Um sorriso veio aos meus lábios; mas não por muito tempo.

- Eles caem que nem neve, mas eu não acho que sua origem seja tão nobre. - disse a Fada Azul, parecendo incomodada. Eu olhei então mais atentamente. Abri uma de minhas mãos para interromper o ciclo cadente de uma das partículas.

- Só não cometa o mesmo erro que eu.- interrompeu-me- De experimentá-los; com a boca. - disse a Fada. Franziu então o cenho, e sugou novamente o cigarro.

- Cinzas...?- espantei-me, analisando a partícula que havia aparado.

- Elas caem como neve. Só que a neve purifica, a fuligem simplesmente suja.

Olhando ao redor, com posse desses novos dados, pude finalmente compreender por quê tudo parecia sujo e mal-cuidado; que nem a Fada.

- De onde vêm? Estamos em perigo?- perguntei, olhando preocupado em todas as direções.

- Em perigo de que? - rebateu a Fada, entre baforadas, desinteressada como sempre.

- Oras! - o descaso existencial e sua alienaçã material começavam a me incomodar flagrantemente.- Perigo de morrermos queimados! Sabe? Fogo? Incêndio?

- Não se preocupe. A pior coisa que pode acontecer por aqui é continuar respirando.- disparou a triste Fada, erguendo uma sobrancelha em desgosto. Deu então uma longa tragada. Foi quando eu reparei que ela não liberava a fumaça de volta. - Quando se está em lugar nenhum, ser alguma coisa perde seu valor. Para não dizer seu sentido.

Logo as peças do quebra-cabeça se identificavam em minha mente, e eu começava a ver a grande imagem. À entender. Fui acometido por uma grande pena da pobre Fada. Meu próximo movimento foi para sentar-me ao seu lado. Não pude deixar de notar então seus cabelos loiros (sujos e bagunçados). Empelido pela emoção, tentei suprimir a austeridade do momento com um trocadilho.

- Mas diga, Fada Azul, o que aconteceu com o Pinóquio? - eu disse, sorrindo.

Uma baforada.- Virou um menino de verdade, oras. - ela disse, indiferente. Mas justo quando eu tentei prosseguir com o trocadilho, ela se completou:- E morreu. De câncer. Parece que nem tudo na vida são flores, né? Pena que o rapaz nunca compreendeu que isso aqui (fez um gesto indicando a própria carne) é um material mais vagabundo que a madeira que o compunha.

Dizer que a narração da Fada me deixou estarrecido e sem reação seria eufemismo. E por um momento ficamos em silêncio. Um silêncio tamanho que chegava a pesar no coração. De pronto, uma brisa gélida começou a nos açoitar. Vi a pobre Fada encolher-se dentro de seus trapos, em busca de calor, mas por inibição não me ofereci para ajudá-la. Indaguei se ela vivia daquele modo à muito tempo; quantas vezes o frio de rachar lhe fustigara o corpo sem que nada ela pudesse fazer. Se a sua personalidade era apenas a ponta do iceberg que era a sua sofrida existência.

- As suas asas. Você as arrancou....não?

A Fada meramente piscou, e seu peito pulou uma expiração. Ela pareceu parar por completo ; e então as palavras que lhe saíram da boca foram como programadas, uma gravação antiga, sem emoção e sem vida.

- Eu tentei arrancá-las. Tentei. Com minhas próprias mãos, mas não deu certo. Elas escapoliam de meu aperto, acho que por puro reflexo. Acho que simplesmente não é natural, sabe, arrancar um membro seu. Mas um par de pedras afiadas, são dificeis de achar por aqui, fizeram o trabalho. Primeiro tive que quebrar os ossos, sabe? Porque se não os ligamentos e os musculos teriam dado muito trabalho, e eu poderia sangrar até a morte. Não que eu tenha muitas razões para viver, não; o que falta é a coragem.- ela mostrou o cigarro- Não, o meu fim vai vir de outro jeito. Enfim, com a pedra mais afiada de que dispunha, deitei-me no chão, e com um braço dilacerei a asa do lado oposto durante o que pareceram horas. O sangue primeiro vinha aos poucos, e a ardência era enlouquecedora. Mas isso foi progressivamente mutando em um outro tipo de dor; uma pior. E então, a sensação de vazio. Troquei de mãos a pedra, e fiz o mesmo do outro lado. Doeu mais. Foi como uma soma de dores, na verdade. - eu reparei que o rosto da Fada estava úmido, e a maquiagem ficava mais e mais disforme. Ela começou a soluçar baixinho, de maneira comedida.- Logo, eu estava sem ambas as asas. Com o restinho de forças que me sobravam, então, eu tentei estancar o sangramento com pedaços do vestido. Depois eu desmaiei. Não sei por quanto tempo fiquei desacordada. Nunca dá pra saber, nessa porcaria de lugar.- disse ela, zangada, suas lágrimas tanto de angústia quanto de tristeza. Ela então deu uma longa tragada, e silenciou.

Eu fiquei digerindo, espantado, ultrajado, perturbado, as coisas que ela me disse. Sem saber muito bem o que falar ou fazer. Uma pergunta, no entanto, saltou de minha boca, estilhaçando o silêncio:

- Por que?

- Por causa de tudo. Do que elas representavam, do que elas me lembravam, do que elas me faziam sentir. De...tudo.

- E o que elas lhe faziam sentir?

O choro da Fada se pronunciou antes que ela pudesse responder, mas ela se manteve firme: - Saudades.

Essa resposta não podia senão transportar meus pensamentos à situações tão distantes e tão remotas, à considerações e suposições tão complexas, que eu comecei a me sentir tonto só em supô-las. Me senti também pesaroso e...e...infeliz.

Juntei minhas forças para mais uma pergunta:

- E o que você fez com suas asinhas, Fada Azul?

Uma grande tragada foi dada, e agora o cigarro estava perigosamente próximo do fim. Ela então esticou um dedo, apontando o céu.

- Queimei.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O problema é meu, seu e de todo mundo

Estou só sentado aqui, e já estou incomodado. A cada dia que passa eu tento aperfeiçoar a minha capacidade de enxergar bem através das besteiras; através das mentiras; através do que parece simples e concreto. E eu estou só sentado aqui, incomodado com esse debate (exibido dia 26/09/10, na Record). Os políticos são belas damas que me tiram para dançar, mas eu vejo traços de venefício na beirada de cada boca.
Que belo show de demagogia. Que bela arrumação parece ter sido feita aqui quando nós não estávamos olhando. Foi só minha essa impressão, ou mais parece que houve um acordo sutil entre os debatedores para que absolutamente nada de relevante seja dito durante essa, chamemos da maneira que merece ser chamada, apresentação? Eu estou só sentado aqui, e já estou incomodado.
Olhem só, eu não quero ouvir suas propostas. O tempo para essas propostas já passou, sinto muito. Falta menos de uma semana para as eleições, e essas abstrações ficaram na última saída, à 100 km atrás. Abstrações são porque, veja bem, propostas são ficções, e das mais terríveis, e até eu posso inventar propostas. Quem não pode? Nós, telespectadores, pouco sabemos dos detalhes técnicos das coisas que vocês falam, e são esses detalhes que revelam quem está certo e quem está errado. Propostas são meio caminho andado para mentiras. E ficam vocês aí, fazendo perguntas idiotas, que ofendem a minha inteligência, de maneira ensaiada: A pergunta algo idiota para B, B responde com uma proposta (sofisma) sua, A replica com uma outra proposta (sofisma) e B termina com algum adendo bobo (\o/\o/). E fica assim para sempre até a eternidade; ninguém se compromete, ninguém se arrisca. É jogo seguro. E claro, esses 4 minutos que eles gastaram falando em propostas podem muito bem se igualar à 0, em termos de relevância ou conteúdo. É como contar o seu sonho para alguém: é irrelevante e todo mundo esquece mais cedo ou mais tarde.
Olhem, agora quem fala é a moça de cabelos negros, e a maneira como a sua vida parece ter jogado duro com ela está exposta em cada ruga de sua face. Logo se vê que ela é uma mulher inteligente, mesmo porque ela aprendeu tudo do jeito mais difícil, sem deixar que os sonhos morressem em seus olhos. Ela sabe aonde ir. A minha preocupação é que, talvez, essa moça franzina não tenha a massa para controlar as coisas lá no topo do mundo; ouvi dizer que os ventos por lá são perigosíssimos. Mas ainda assim, ela merece meu respeito, e em outras circunstâncias até mesmo meu voto.
Mas eu não tenho respeito algum pela outra mulher. Respeito NENHUM. Eu nem estou no mesmo recinto que ela, e já posso sentir o cheiro do plástico; aquele plástico extremamente industrializado, com bastante corante vermelho, que modela seu corpo. Se a outra mulher sabe de onde veio, está na cara que esta não veio de lugar algum; é uma marionete qualquer que um homem gordo e barbudo retirou da bolsa no meio da confusão. Vejam as cordas saindo de seus membros, vejam como ela se move de acordo com os dedos que as controlam. Ela é um macaquinho dançando à música do realejo do seu partido, pedindo votos com seu chapeuzinho vermelho. Eu não posso conceber dar meu voto a alguém que nunca, nunca fez nada, nem sequer está onde está por merecimento, e que visivelmente será boneca inflável do próprio partido. E isso, senhores, é uma informação que veio de dentro, e todos sabemos. Não, senhores; votar nessa mulher é um absurdo.
Olhem aquele outro tipo, sentado ali. Careca, tem uma longa história com a política, principalmente de São Paulo, e promete levar ao resto do país suas experiências. Ele é um bom sujeito, mas infelizmente tenho alguns problemas com sua filosofia. Só não voto nele porque sinto que não vivo no mesmo lugar onde mora o coração dele. Mas de resto, ele é plenamente capaz, como o são todos os que concorrem; à exceção, lógico, da patética marionete vermelha.
Felipe Neto já disse: “Esse último é um cara que está morto, mas esqueceram de lhe avisar”. Como sempre, Felipe Neto tem a propriedade e a razão de um peido solto pela metade. Este “homem-morto” está mais vivo que todos os outros juntos. Ele é quem traz alguma importância a este debate, é ele que surge com as boas perguntas e as boas respostas. Todo momento em que ele não está falando é um momento recheado com balelas. É ele quem traz o gingado e o compasso ao debate, tira os outros debatedores do conforto de suas falácias e desequilibra o jogo. Infelizmente, esse senhor de idade ainda levanta a bandeira do socialismo, e isso é o único ponto negativo: gente, sério, o socialismo já era, nós somos capitalistas, vivam com isso. Pelo bem geral da nação.
Aqui sempre se diz o que se quer fazer, mas não se diz o que é necessário fazer” Plínio A.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

É o fim da picada amazonense

Quem é Márcio Souza? É um dos mais proeminentes escritores do Amazonas. É, como se isso fosse grande coisa.

Bem, para quem não viu,o respeitabilíssimo sr. Souza teve um texto seu publicado ontem no jornal A Crítica, chamado 'Descrença'. Nesse texto, ele começa expondo sua decepção com os rumos que a nossa cidade trilha. Ele conclui a primeira parte dizendo que, mesmo apesar de quaisquer esforços políticos que possam vir a influenciar nossa Ordem Pública, a única maneira de Manaus se redimir e se tornar uma bela capital tranquila e calma é sendo aniquilada por uma calamidade pública de destruição em massa como a que abateu Nova Orleans. Então ele cita os grandes inimigos da paz pública: a bagunça, a ignorância, o desrespeito, a prepotência e a ignorância.

Ele conta, na segunda parte, como essa semana ele teve de sair à rua, experiência que por suas palavras só pode significar algo como o traverso do percurso de Dante em A Divina Comédia: Inferno. Ele se dedica a citar todos aqueles embaraços e desconfortos que uma visita ao centro da nossa cidade pode proporcionar, com a constância de verdadeiras aberrações desastrosas satânicas infernais como, por exemplo, vendedores de pamonha. E, pasmem, a praga hecatomba que faz metrópoles perdidas em conflitos de violência do naipe de RJ e SP parecerem um parque diversão: flanelinhas. Eu sou apenas capaz de imaginar a dor que aflige o humilde escritor toda vez que ele ouve o preço de uma pamonha ser gritada na rua, ou a vergonha que ele deve sentir quando um flanelinha o ajuda a fazer aqueeela baliza. Enfim, depois de um enorme, gigantesco e maceta parágrafo descrevendo, horrificado, essas situações típicas dos mais 'pobres', ele se redime (ou tenta): “Mas não são eles (os pobres) que me irritam. É a classe média, que estaciona nas calçadas, que realmente me enerva”. MAS É CLARO QUE É A CLASSE MÉDIA, afinal está na moda criticá-la, não? Logo se vê que o autor andou assistindo Tropa de Elite, difusora principal dessa filosofia. Eu também não sei que recurso literário sofisticado é esse que ele utiliza, de passar horas fazendo críticas vexatórias à alguma coisa para então mudar o objeto do discurso, subitamente, e culpar algo mais supérfluo e que o faça parecer mais socialmente comprometido, mas seja lá o que for, Márcio Souza o domina como ninguém. A partir daí, o autor prossegue para fazer aquelas críticas costumeiras e impessoais à erros cometidos pela ordem pública, coisas em geral menos comprometedoras, e que no ponto de vista dele corroboram o sentimento de descrença que ele tem.

Esse texto me deixou realmente incomodado num domingo de manhã. Oras, Márcio Souza é um escritor que ficou famoso em cima do estudo da história da região Amazônica, matéria que era utilizada nas suas obras à torto e a direito. Ele, mais do que ninguém, se fosse metade do estudioso que se supõe ser, teria um olhar mais inteligente e mais parcimonioso em cima dessas questões regionais. Ele DEVERIA entender os resultados que uma modernização acelerada causam numa cidade tão sem planejamento quanto Manaus: bagunça, senhores. Estamos ainda apenas aprendendo à lidar com as novidades. Ainda estamos caminhando. Vamos melhorar um dia, tenho certeza. Ninguém vive na bagunça porque quer, ninguém empurra um carrinho de pamonha porque quer. Temo que o nosso ilustríssimo escritor deva estar acostumado agora com a boa vida, seus usos agora dizem mais respeito ao refinado e à primeira classe, seu traseiro afofado pelos apoios das melhores poltronas que o dinheiro pode comprar. E a sua mente, velha. Velha como o é o seu objeto de estudo. Porque essa situação de agitação social, de burburinho enlouquecedor, não passa de algo natural. Presente estava nas obras de, oras, Machado de Assis, naqueles contos em que ele detalha o vai-e-vêm dos centros urbanos antigos do RJ, assim como estava presente em tantas outras obras que lidam com a modernidade. Lá estava o protagonista de Crime e Castigo passando mal no meio da agitação enlouquecedora de uma Moscou antiga, nas obras de Dostoiévski, ou aquele inferno industrial que podemos assistir em obras como As Grandes Esperanças, de Charles Dickens. Obras clássicas que um membro cultuado da nossa literatura moderna, oras vejam, falhou em conhecer.

Faça-nos um favor, sr. Márcio Souza, e junte as suas coisinhas e retire-se da nossa região, já que ela tanto desagrada o senhor; aproveite, e PÁRE de escrever também, já que o senhor parece demonstrar tão pouco conhecimento factual sobre ela, à final de contas.

Obrigado, tenha um bom dia, não encha o saco.

PS2: Desculpem se eu estou mais explosivo e delituoso que o normal, meus leitores, mas é que eu tenho especial carinho e afeto pela literatura, e pela pessoa dos autores também, e para mim é difícil separar um do outro.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Nem me disse adeus

O que é um Xbox 360?

Para início de conversa, é o único videogame americano de grande expressão no mercado. O resto, são japoneses. Falei tudo: É o melhor. E o que significa um Xbox 360?
Felicidade. Jogos de montão. Noites adentro, dias afora. Amigos reunidos comendo tekitos e falando shits-à-mil. Passatempo edificante. Desenvolvimento perceptivo e criativo. Sorrisos.

Meu Xbox 360 morreu hoje. Ele apresentou um defeito chamado Three Rings of Death, que aparece quando o hardware interno dele foi para o inferno, e que é um problema bem comum nesse tipo de aparelho. Então, por isso vocês estão vendo essa redecoração no meu blog. Está uma merda, eu sei. Foda-se. Sério, foda-se. Eu estou cagando para o que vocês acham ou deixo de achar da porra do meu blog.

Cheguei em casa feliz e saltitante, como um jovem playboy viadinho que entra no Café Cancun dia de domingo, vim direto para o meu quarto e apertei o botão de ligar o videogame. Mas ele não ligou. Hoje, ele não ligou.

Três luzes vermelhas piscaram, ao invés. Então eu desliguei e tentei de novo.

Idem. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Ibidem. Ibidem.

Mãos trêmulas, suando frio (e quente, porque hoje tá quente PRA PORRA),eu me despejei na minha grande cadeira amarela, minha face branca, acho que minhas mandíbulas estavam chacoalhando, mas não tinha ninguém em casa para me oferecer uma porra de uma água com açúcar. O que se faz numa situação dessas? Eu ligo 190? Eu rezo? Eu danço a porra do tango em paris?

Vá se foder, leitor.

Melhor coisa que meus pais fizeram: colocar grade de segurança em todas as janelas da casa. Por quê? Porque eu não sei o que teria sido defenestrado primeiro: o cadáver do meu videogame, a minha cadeira ou eu. Ou a minha cachorrinha.

Brincadeira. Eu nunca jogaria o meu videogame, mesmo ele quebrado, nem a minha cadeira, ela tem valor sentimental, e muito menos a minha cadelinha. Muito embora eu ache que com a densidade do pelo de algodão dela, ela fosse flutuar (eu moro no sétimo andar).

Eu tenho cerca de 40 jogos para Xbox; são cerca de 40 órfãos então. Eu joguei alguns dos melhores jogos de todos os tempos nele. Ele tinha o que? 4 anos. Tá, já era meio velho. Na verdade, ele viveu DEMAIS, visto que a probabilidade de um Xbox dar o problema que o meu deu hoje na época em que esse foi feito era de 33%. É como dizerem para você que um amigo seu tem mais 3 meses de vida.

E ele viver mais 30. Sem falar que eu já tinha deixado-o cair algumas vezes...

Ele já vinha apresentando problemas, como um senhor idoso apresenta sintomas antes de fenecer. A pintura dele já estava enegrecendo. Ele já não lia mais alguns jogos. Ele riscava despropositadamente outros. Ele já não reconhecia controles novos. Ele às vezes não reconhecia o cabo HDMI.

“Haroldo, você se apega demais às suas coisas!”

Claro que eu me apego, CAROLHO! Essa merda desse videogame foi a grande primeira conquista que eu consegui com meu próprio esforço. Sabe quando o jovem economiza sozinho para comprar uma TV? Ou um som? Ou um computador? Pois é, foi o meu caso com esse Xbox. Ele é aquele 1(um) objeto no meu quarto que eu posso dizer que é MEU. Economizei durante um ano, na minha mesada e até no dinheiro do lanche da escola, sabendo que no final do ano iríamos viajar para os EUA, onde essas coisas são mais baratas. Esse Xbox, eu lembro até hoje, foi o único que eu encontrei em TODA A ORLANDO, porque na época ele era tipo SUPER NOVIDADE, e todo mundo já tinha comprado o seu por lá. Esse era o último, só me esperando. Meus olhos brilharam quando eu o vi, e eu o arranquei dos braços do vendedor e fiquei abraçado com ele o resto do dia (a caixa tinha o diâmetro do meu abraço). E, naqueles momentos de abstração juvenil tola, eu imaginava um ladrão aparecendo com um revólver e mandando eu passar o videogame; eu então respondia à plenos pulmões: “VAI TER QUE ATIRAR”.

Cara, ele já fez tanto por mim. Digo, sem ele, eu poderia ter sido um desses jovens super violentos que usam drogas, roubam, matam ou até mesmo colam nas provas. Tá, mentira.

Mas ainda assim.

Eu brincava dizendo que ele era o meu filho, ele e o meu PS 3. O meu primeiro PS 3 cresceu e virou um PS 3 Slim (foi vendido e eu utilizei o dinheiro pra comprar outro, para ser mais exato), mas o meu Xbox.... Morreu, cara.

Ele morreu.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Crítica- Do grego, Criticux

Então, criticar.
O que é a arte de criticar? A arte de criticar é a tentativa (porque nem sempre ela funciona) de expor o ponto falho de determinada coisa. Bem, é. Se você é um otário que acha que o Felipe Neto vale o dinheiro do ônibus, é, é isso aí. Agora sai do meu blog. Sério.
Não, não sai não, eu não quero ficar sozinho!
Criticar é uma coisa meio complicada. É como valorar. Criticar é, simplesmente, dar um parecer. Nós vemos essa carga negativa no conceito de “criticar” porque é apenas assim que o ser humano comum consegue sobreviver no seu “dia-pós-dia” miserável, apontando o ponto falho de tudo o que ele vê, sem conseguir notar que ele também é uma poça de urina e merda. Mas não é bem assim: quando eu digo que a sua caricatura daquele professor ridículo de DIP ficou bacana, e que conseguiu até ressaltar a maneira como ele se baba todo quando tenta falar uma palavra com mais de 4 sílabas, eu estou criticando a sua criação, mas de uma maneira positiva. Muito embora também esteja você me criticando ao dizer que eu sou algum tipo de megalomaníaco babaca, fútil, esquizofrênico e vazio. Na verdade, eu até concordo com você.
Um outro motivo que eu vejo para o nosso costume pré-cambriano de achar que toda crítica é ruim é que nenhum crítico desses de projeção nacional ganha seu salário para falar BEM das coisas, como um crítico de cinema, que insiste em criticar até o fato de o filme ter sido rodado às 16hrs da tarde, e não às 18, que é quando a luz está melhor e blábláblá. Obviamente, ele não recebe todo mês para dizer coisas tipo “Pô, ficou bom o teu filme aí, manolo, gostei ó”. Não, ele tem que falar mal. Então nós, seres mortais e sem projeção nenhuma (ou inexistentes, se você for do Acre), lemos que aquele texto é uma crítica. Bem, parece natural deduzir que críticas tem de ser negativas.
Outra coisa interessante: quando a pessoa fala mal de certo objeto, ela tem a chance de expor um ponto de vista DELA, contrário à obra em questão, e que vai de certa forma ENALTECÊ-LA às custas do objeto criticado. Vocês me entendem? O momento da crítica é quando as pessoas inteligentes tem chance de brilhar, porque é necessário que a pessoa seja realmente sagaz para achar os defeitos em alguma coisa. Mas aí entra outro problema: e aqueles otários que adoram criticar por criticar, apenas para assim enaltecer a si próprios? Digo, como nós podemos diferenciá-los dos sábios? Bem, acho que só mesmo você sendo mais inteligente que o otário, para perceber o quão otárias são as coisas otárias que ele fala. Ah, mas nunca se esqueçam dessa dica, ela é muito importante: Os espertos adoram falar, mas os sábios de verdade gostam de ouvir: ouvir e analisar.
- Mas Haroldo, você tem um BLOG! - Ok, esqueçam o que eu disse.
O motivo pelo qual eu escrevi esse texto é que recentemente eu tenho assistido muitos video logs, quase todos do agradabilíssimo sr. PC Siqueira, e vejo que as pessoas que deixam aqueles comentários na página do You Tube realmente não sabem o que é criticar. Ou melhor, aquele tipo de gente realmente não sabe de quase nada. Parece que nasceram apenas para assistir videos do You Tube e criar todo tipo de modinhas ridículas, desde Justin Bieber até, sei lá, qualquer coisa.
Deixo minha mensagem: Diga não ao fracasso: não seja comentarista de YouTube.
PS: EXEMPLO DO TIPO DE PESSOA QUE CRESCE VENDO VLOG:
http://www.youtube.com/watch?v=w91tDzmlzUU

domingo, 22 de agosto de 2010

Trançado Metafórico

Eu sou o tipo de cara entra no quarto, fecha as portas e as cortinas, e liga o ar condicionado com o controle da televisão. Faço carranca ao não apitar do ar condicionado, e, aperto com mais força o botão de ligar no controle da TV, para então perceber que estou apertando o controle errado. A TV liga, logo após. Eu lanço-lhe um olhar de censura, como se a culpa fosse dela. Desligo a TV e me desfaço do controle,e já que o controle do ar não está em canto nenhum à se achar, sento-me logo na minha grande poltrona amarela, para que minhas ideias possam decolar.
Por que eu peguei o controle da TV? Simples: porque ele estava no lugar do controle do ar condicionado. Oras, como pode o lugar de uma coisa abrigar outra totalmente diferente? Por quê é que eu não abro acidentalmente o armário sempre que vou à cozinha vasculhar a geladeira? Obviamente porque o armário não está no lugar da geladeira. É assim que eu encontro as coisas. Tudo tem seu lugar.
Mas as coisas podem se complicar: eu posso vir a conhecer alguém. Podemos vir a ser amigos, e com o passar do tempo esse amigo adquire seu devido lugar na sua vida. Eu entro pela porta do colégio, da faculdade, do inferno ou do céu, e ele está lá. E aí, tudo bem? Beleza. Anos e anos se passam e eu posso confiar nesse amigo, ele pode confiar em mim, nossos problemas são terras arrendadas da noite para o dia. Mas então, a vida nos entorpece em certas coisas na medida em que nos dá outras, como peças de malabarismo; quando eu menos espero, eu chego, atravesso os portões e me sento. Meu amigo tinha um jeito diferente de ser engraçado, um jeito que, subliminarmente, eu dou por falta. De repente, são outras pessoas, ou são outras coisas, ou é um outro lugar, ou não é nada, sou eu, é tudo.
Você entende onde eu quero chegar? Sem mais jogos de palavras (são as palavras que fazem esse jogo, não eu; sou que não um refém). Onde está aquele amigo? Onde está aquele livro? Onde era aquele lugar? Eu gostava. Tanto. Nem sabia.
Merda, olhem para mim. Não é o meu amigo que não está aqui. Sou eu quem não estou lá, tenho certeza de que ele gostava do jeito como eu tinha uma resposta para tudo. Ou será que é realmente ele que não está aqui? Isso importa? Antes desse amigo, não havia outro? Depois desse, não haverá mais um? Um pé vai para frente, Haroldo, à medida que o outro vai para trás, é assim que se anda. Ah, é? Então é essa a melhor maneira de chegar nos lugares? Bem, não é a melhor; mas serve.
Mas não podem esses três amigos estarem aqui comigo, agora? Claro que não, a vida não é uma confluência. Esqueça o que lhe disseram todos os outros, a vida não tem início, meio e fim. A vida é uma bagunça. Ela simplesmente serve, na medida em que dela são exigidas as circunstâncias. A vida é eterna desavença, de forma que os filósofos vão deixando de estar certos e nós, jovens, vamos ficando mais incontornáveis. Porque tudo é dinâmico. Ocorre então, sob os nossos próprios olhos, uma mudança tão sutil quanto o rolar dos grãos de areia no deserto. Mudam-se perspectivas, mudam-se atitudes. Então, amigos seguem sua irrefreável natureza de transformação em fotos na parede, como outras coisas mais.
De repente, o quê que tem um lugar certo nesse mundão de meu Deus?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Um tipo diferente de Inferno

Bebidas, muitos homens barbudos e corpulentos, vestidos de preto e fazendo cara feia; algumas poucas moças escondidas atrás de maquiagem gótica pesada, e muito, muito rock'n'roll. Toda a propriedade, que mais parece o jardim de alguém, é rodeado por um muro branco adornado com labaredas rubras exuberantes, e o símbolo do clube, que é uma caveira trajando todos os adereços de um motoqueiro durão, está espalhado por todo o local em posteres tamanho real, nas mais variadas posições e situações. “Hells Angels MC- AM”, dizem os letreiros. Os menus tem apenas 7 opções: começam com “Água- 2 reais” e termina com “Vodka Red Label- 15 reais”. Só. E, claro, Óxido Nitroso é vendido em balões para que os interessados possam tragar e ter 10 segundos de sedação. E no meio disso tudo, eu. Blusa England verde, calças jeans azuis escuras e, para coroar, Nike Shox brancos nos pés. Oras, às vezes eu me perguntava, como diabos eu vim aparatar aqui?!
Simples, na verdade: meus brothers, Marcello e Giorgio, me obrigaram tacitamente. Eu cedi, e próxima coisa que sei, estou olhando para um segurança quase saído de um filme trash americano: careca, barriga e braços enormes, utilizando jaquetão de couro, calças de couro e botas. E eu estou lhe passando 5 reais, para poder adentrar no recinto. Hells Angels é um clube de motociclistas originário nos EUA, e com este subsidiário aqui em Manaus. Um reduto para os quarentões com vontade de se livrar das mais variadas amarras sociais, por meio da “terapia libertadora do vento no rosto de uma motocicleta em alta velocidade”.
Eu entro, e com o passar do tempo meus olhos vão se acostumando com o ambiente. Fora o clip de alguma banda de metal que envolvia strip tease sendo exibido no telão do local (que em pouco tempo é trocado à pedido de algumas das senhoritas,e substituído por um deveras simpático show do ZZ Top), eu percebo que o lugar nem é tão hardcore: alguns jovens estão de camisa pólo, e quase todos se distraem com sinuca, alguns jogam poker, dominó, xadrez e coisas afim. Outros sentam-se ao redor de rústicas mesas de pedra, bebendo coca-cola (sim, coca-cola) ou Red Label, jogando conversa fora. Felizmente, nenhum dos presentes tem caráter expansivo ou violento, então são todos muito simpáticos de maneira geral. Um, inclusive, teve a delicadeza de oferecer um saquinho de cocaína para o meu amigo Marcello, e nunca antes viu a Lua tamanha generosidade.
Sabem o pior? Eu gostei do lugar.
Alguns de nós precisam figurar atrás de caveiras mal-encaradas e da sempre intrigante cor preta para se sentirem seguros. Precisam utilizar adereços de metal, como correntes e pontas (piercings,alargadores de orelha, brincos, ARGOLAS DENTRO DE ALARGADORES DE ORELHA) e podem ser completamente contrários à política das caras-sorridentes. Mas isso não diz absolutamente nada sobre a pessoa, se você inquirir o montante. Roupas intimidadoras e diferentes são a melhor maneira de chamar o tipo de amigo pelo qual você se interessa até você. O mais interessante é que, após o momento inicial lá dentro, você percebe que ninguém está te encarando. Pelo contrário, às vezes alguém esbarra no seu ombro, mas foi só um acidente: logo a pessoa se vira e pede desculpas (sou testemunha!). Sabem o que eu quero dizer? Lá, eu me senti tranquilo, confortável. A noite estava mansa, e o lugar todo é espaçoso. Muito melhor que adentrar num covil de jovens moderninhos desses que fazem tanto sucesso nas noitadas de Manaus; lá é que é a terra da gente bonita e bem vestida, mas realmente não exatamente o meu. Não. Estou planejando voltar no Hells Angels semana que vêm, que é onde as probabilidades de eu ser esfaqueado nas costas ou virar alvo de intriguinhas adolescentes é menor.
E quem sabe eu não compro uma Harley-Davidson e me junto ao clube? Pelo menos, não vou mais começar a suar sempre que tiver de fazer uma baliza!