terça-feira, 28 de agosto de 2012
O matrimônio de Dona Alice
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Leve Desconfiança
A confiança, eu vim a imaginar, é a cessação momentânea da razão baseada na mera expectativa de comportamento pressuposto. É quando se deixa de levar em consideração fatores de um processo concreto, e se crê que ele tomará determinado desfecho ou direção baseando-se apenas na vivência. É estado fugaz de insanidade, poder-se-ia dizer. De puro desprendimento.
sexta-feira, 15 de junho de 2012
Injustiça Infantil
3 ou 4 anos tem a menininha sentada à minha frente. Ela sorri timidamente enquanto minha colega de trabalho lhe apresenta os bonequinhos de pelúcia.
“...Scooby”, ela repete. A sua voz é daquele tom meio esganiçado das crianças pequenas, ainda apenas conhecendo o vocabulário e o léxico. Ela sorri, enquanto toca o boneco de maneira contida.
Cabelos desgrenhados, amarrados num faz-de-conta que quisera sua mãe fazer crer ser um coque. Vestidinho vermelho quadriculado, eu só posso sorrir enquanto me indago se alguma festa junina aguarda essa menina. Minha colega se apressa em fazer aparecer um pedaço de bolo para a criança, que ainda tem um aspecto assustado no rosto.
Ela me observa por um momento, antes de abraçar o Salsinha e o Scooby, e responde: “Caí”
“... Da rede...” ela responde, baixinho.
“ Tem mais brinquedo?”, ela pergunta, menos inibida.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Sobre sonhos e lobos
Eu tive o sonho mais estranho esta noite.
Nele, era mais um dia normal na minha vida, e tudo começou quando eu resolvi sair de casa para cuidar de um assunto; e se não me ilude a memória, foi para comprar alguma coisa. E nesse início, como não depois, a minha casa ainda era de fato a minha casa. Lembro de pegar o carro e de estar atrás de um balcão, esperando receber o produto. Lembro também que, ao sair da loja, ocorreu-me realizar uma outra tarefa. Entrei no carro, dei partida no carro e saí na rua.
A partir daí, o sonho se torna um monte de imagens que se sobrepõe em alta velocidade, e mais transmitem sensações que propriamente elucidam qualquer coisa. Sinto que a realização da outra tarefa logo se tornou uma aventura que me fez percorrer os cantos mais recônditos de uma cidade sem fim. Viajei de ponta a ponta, conheci pessoas novas, fui de objetivo em objetivo; sem nunca voltar para casa. Incansavelmente me punha a procurar e a resolver todos os problemas que pudessem se pôr entre mim e meus objetivos, estendendo sempre mais uma viagem que se esticou de tal forma no meu peito que pareceu levar anos. Não mais tinha eu de comprar coisas, mas encontrar objetos, realizar trabalhos, atender favores, fornecer ajuda, pesquisar soluções, todo tipo de deveres que surgem regularmente no cotidiano de uma pessoa que busca desenvolvimento e crescimento pessoal.
No meu caminho, conheci várias pessoas diferentes. Não me é possível lembrar-me a fundo das características de nenhuma em específico, mas sei que algumas foram reaproveitadas pela minha mente da minha própria vida. Alguns rostos, embora embaralhados de forma a impossibilitar a minha lembrança clara, eu sinto que conheci de verdade, enquanto outros foram simplesmente inventados. Lembro de sentir, no entanto, ter me apegado a diversos desses rostos embaçados; alguns me ajudaram a resolver meus problemas, outros eu ajudei de alguma forma. Alguns por um tempo levei para rodar em meu próprio carro, uns por obrigação, outros por afeto mesmo. Sinto a alegria de conhecê-los e a tristeza por vê-los partir como se cada uma dessas ocasiões tivessem sido verídicas. Lembro também que cresci pessoalmente com a convivência que tive com cada um deles, nas dezenas que foram. O sonho foi evoluindo, durante essa viagem, em algo que nunca antes meu subconsciente conseguiu sintetizar, de modo que no final dela, e até agora enquanto escrevo este texto, meus sentimentos são afetados pela realidade de tudo aquilo.
Durante a viagem, além das pessoas que fui conhecendo, fui ganhando presentes e adquirindo itens que guardei no porta-malas do carro; como as conquistas que vamos acumulando durante nossas vidas. Quanto mais viajava, quanto mais cumpria meus objetivos, mais coisas tinha para guardar no porta-malas; testemunhas de meus sucessos. Aquilo, assim como a experiência que eu adquiria com as outras pessoas, enchia-me o peito de glórias. Eu enriqueci de todas as formas durante minha viagem...
Até que anoiteceu. No sonho, não lembro se foi a primeira noite que encontrei, ou se muitas outras se passaram ( o que seria mais lógico, já que para mim foram anos que se sucederam). Sei que foi a noite mais nítida de todas, para não dizer a única. Lembro de descer as escadas de uma casa num terreno deserto, com um prato de comida em minhas mãos. O prato estava protegido numa bandeja tampada, e a rua que me esperava ao pé da escada era iluminada apenas por um poste, e de todo modo solitária. Entrei no carro e segui para casa.
Minha casa não era mais a minha casa, mas uma espécie de escola, onde várias pessoas da minha idade moravam. Estacionei o carro, e única coisa que levei dele comigo foi a comida; parecia ser ela a culminação de todo o meu esforço, o objetivo maior e mais recompensador. Entrei pela porta da frente com uma alegria que não cabia no peito, levando a bandeja com minhas duas mãos, muito orgulhoso. No corredor de minha casa, que mais parecia com os largos e cheios corredores de uma escola, entretanto, fui encontrando colegas que me olhavam... feio. Todos passavam e me lançavam olhares enojados, irritados. Fui começando a sentir um aperto no estômago, ao invés de felicidade no peito. Logo senti minha expressão facial transformar-se numa clara indagativa. Queria saber por quê todos me tratavam com desdém e reprovação. Até porque grande parte dos que passavam eu havia conhecido na minha viagem, e por eles nutria muita consideração. Os corredores lotados de discórdia pareciam exageradamente longos, e ao final meu coração já batia acelerado e uma paranoia havia se apossado de mim.
Finalmente, após longo caminhar, cheguei no refeitório (sim, era um refeitório, com muitas daquelas mesas longas de praça-de-alimentação, cheia de cadeiras para acomodar centenas de pessoas). Logo na entrada, no entanto, fui abordado por uma figura de rosto fora de foco que finalmente me explicou o motivo de tanto ódio:
“No decorrer de sua viagem, Haroldo, você se utilizou de todas as pessoas com que teve contato; sempre de maneira egoística, impessoal, tratou de se aproveitar, de sugar o que elas tinham a oferecer de melhor, e não hesitou em chutá-las para fora de seu carro assim que se sentia completo e satisfeito. Você fez mal para absolutamente todas as pessoas com que teve contato, e elas não carregam senão sentimentos ruins sobre você.”
Aquela declaração doeu-me. Doeu-me ainda mais porque aquele rosto fora de foco tinha alguma espécie de carga emocional de grande efeito em mim. Aquelas palavras fizeram-me sentar e assistir uma segunda vez minha viagem, onde pude então reparar que de fato, muito embora no momento não tivesse sido capaz de perceber, eu tratava as pessoas como se objetos fossem, elaborados com o único propósito de satisfazer-me as necessidades. Reparei então a tristeza que lhes infligia com a minha partida, e a frieza com que nunca mais fazia questão delas ou coisa que o valha. E de repente, o refeitório estava vazio. Vazio como se nunca uma alma houvesse posto o pé lá. Afora eu, claro.
Lembro que o refeitório, suas mesas, cadeiras, paredes e tudo o mais, eram de cor predominantemente branca. A claridade era simplesmente elucidativa. Lembro-me então de, em silêncio, abrir minha bandeja com comida. A bandeja não me trazia mais nenhum contentamento; era um sabor amargo de decepção e angústia o daquela comida. Comi em silêncio, completamente sozinho e de cabeça baixa, como se nunca minha vida houvesse me trazido qualquer tipo de felicidade. Até que levantei a cabeça para encontrar à minha frente um grande lobo negro, como que saído do vazio, que se sentava à mesa como se gente fosse. Podia muito bem ser alguém fantasiado, sentado com as mãos à mesa, imóveis; só que era um lobo, com focinho, pelo farto e muito magro. Gostaria de poder recordar a cor de seus olhos mas sou completamente incapaz, portanto em minha memória seus olhos eram brancos como a sala ao redor. Ele me observava calmamente, e não demorou a falar. E o mais assustador de tudo era que, apesar do aspecto agourento, sinistro, sua voz era tranquila, racional e insanamente sensata:
Então, qual é afinal o gosto da comida de que agora desfrutas?
Acordei, mas o sonho me matou um pouquinho.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Tipo sexta, ou tipo segunda.
Acordo.
Olhos ainda fechados, estendo a mão e procuro o celular. Duas em três vezes, ele não está onde minhas mãos pensavam que estaria. Pequena primeira frustração, mas moedas de 1 centavo também enchem cofres. Abro os olhos e localizo-o, embaixo de uma pilha de outras coisas inúteis que eu não sei como foram parar em cima dele. Com cuidado, puxo-o para mim; com estrondo, coisas caem no chão.
19 horas de um dia que eu não sei qual é. Pode ser segunda ou quinta-feira ou qualquer coisa entre eles. Eu sei disso porque fui trabalhar hoje, e não me lembro de ter sorrido ao sair cartório, o que eu só faço às sextas.
Tive uma prova hoje, fiz com facilidade. O que me assusta, visto que só entendem de dificuldades aqueles que podem lidar com elas. Eu me sento, coço o olho. Na minha estante, meus livros me avaliam. Eles são reflexos da minha vida: metade deles é de ficção, metade é de Direito. E ainda assim, nenhum deles tem coisa alguma a ver com a minha alma. Tenho alguns de autoajuda também, mas são poucos. Me pergunto se não deveria adicionar alguns mais à pequena biblioteca. De qualquer forma, após tantas leituras, de que adiantam minhas opiniões formadas, que mesmo se forem continentes imensos e sólidos, flutuam à deriva num oceano mil vezes maior? Não há nada que eu possua de que não possa me desfazer.
De volta a mim, me levanto. Meus olhos encontram meu mural de fotografias. Eu sempre me esforcei para mantê-lo sincronizado com a minha vida, com fotos recentes e rostos familiares. Não surpreende então percebê-lo vazio. Um dia ele já foi cheio, mas prometi a mim mesmo atualizá-lo. Removi todas as fotos, então, mas ainda não pude selecionar novas para revelar. Ele está num entre-tempo, assim como a minha vida. Suponho que não falhei em mantê-lo sincronizado, portanto. Talvez eu precise de ajuda para voltar a povoá-lo, não sei.
Já é de noite, o dia me escapou por entre os dedos. O que fazer agora? Ainda não malhei, ainda não estudei, não tenho encontrado tempo para essas coisas ultimamente. Onde tenho gastado meu tempo? Não ligo TV, meu videogame já está empoeirado. O que ando fazendo? É essa a época dourada da minha vida?
Um amigo me disse que haveria uma competição de poesia, chefiada pela Academia Amazonense de Letras. Por dentro, morri de vontade de participar. Não posso, entretanto, evitar lembrar que mentes instáveis como a minha não produzem versos coerentes. Já fui subjugado antes mesmo de pousar a caneta no papel. Desisto sem tentar. Eu sei que a pior classificação é nenhuma em absoluto, mas existe um placebo em não competir. Que, pensando bem, é como tenho me medicado nos últimos 20 anos ou tanto.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
A tatuagem que eu fiz
As pessoas vêm me pedir para mostrar a minha tatuagem freqüentemente. Algumas, ao contemplá-la, arregalam os olhos e elogiam sinceramente. Outras, ficam desconsertadas e mudam de assunto. Uma até já disse que não gostou, assim, na lata. Acho que elas esperavam algum desenho super elaborado, colorido, rico em detalhes... Mas, ao contrário, encontram um esboço negro, uma sombra no formato de um lobo, com irregularidades descoloridas em seu centro. Decepcionante para alguns, interessante para outros, é isso que eu percebo.Bem, se tivesse sido meu objetivo retratar algo mais propenso à bel satisfação dos telespectadores, com certeza ela não estaria num lugar de difícil contemplação, e sim nos antebraços ou panturrilhas ou coisa que o valha. Como um dia irei fazer; aguardem que um dia virá algo bem maior e mais colorido e detalhado. Mas por enquanto, primeira tatuagem, eu escolhi algo mais simples.Aí vem aquela famosa pergunta, que já virou bula de tatuagem: "E tem algum significado?".“É de um livro que eu gosto muito”, respondo às vezes. “É uma imagem que eu gosto de olhar”, eu respondo outras; já cheguei a dizer até "É que eu gosto de lobos", como se existisse também a possibilidade de eu tatuar uma garrafa de coca cola. A questão é que essa imagem em particular exerce certa fascinação sobre mim, e eu nunca soube explicar por quê. De fato, eu gosto de olhá-la. Quando eu a vejo, uma palavra salta à minha mente: virtudes.Virtudes.Quando eu olho para o desenho, eu literalmente tenho vontade de ser uma pessoa diferente, uma pessoa melhor. Pode parecer estranho, mas essa deve ser uma daquelas conexões que a mente faz sozinha, sem pedir o nosso parecer.A adolescência pode ser um período difícil, e eu admito que a minha só foi difícil até o ponto em que eu me fazia dificultá-la; afinal, nunca nada me faltou. E ainda assim, crescer tem se mostrado uma tarefa complexa, e a maturidade tem sido um cálculo renal duro de expelir. Me assombra o quanto as pessoas notam que eu mudei, mas nem passa perto do tanto que me assusta o modo como eu percebo ter mudado. Os textos desse blog, vocês talvez tenham percebido, possuem um tema implícito recorrente: o amadurecimento. É um tema que eu tenho notado, mesmo sem tê-lo em mente quando escrevo. Talvez porque o meu subconsciente tenha sido incisivo na mensagem: crescer é doloroso. Eu me arrasto por corredores escuros de nostalgia, me afogo em pessimismo e não raro me isolo por pura melancolia.Crescer é difícil.As responsabilidades que cauterizam o saudável amadurecimento são uma fera, uma fera cuja face não se pode racionalmente distinguir, então eu a vejo como uma sombra; uma sombra que persegue onde quer que se vá. Um vulto negro que não conseguimos divisar, mas cujos efeitos podemos facilmente sentir. Eu sei que essa fera possui grandes presas, porque são essas presas que causam as feridas que vão me ensinar a caminhar com minhas próprias pernas por onde a vida me levar. Eu sei também que ela possui olhos atentos que estudam, esperam e julgam; é com esses olhos que essa fera me avalia, e é através deles que um dia eu vou aprender a enxergar. Neste dia então, neste longínquo dia em que eu finalmente aprender a extensão de minhas consequências, é que a fera vai me dar espaço para respirar. Não estou dizendo que ela vai me deixar em paz, porque isso jamais acontecerá; os homens tem suas feras, suas bestas e seus demônios acorrentados a si da mesma forma como possuem jeito de falar e maneira de pensar. E, se caso contrário, eu não aprender com suas dentadas corretivas, eu sei que só vai me restar sofrer. Sofrer em solidão com os erros que cometi, quase como um lobo que se afasta para lamber suas feridas.Essa é a fera à qual devo ficar atento: a sombra de um lobo com a boca arreganhada e olhos bem abertos. Que agora eu carrego no lado esquerdo do peito, um lembrete de tudo o que preciso lembrar. Ele me espreita, me assusta, me aconselha, tudo com um simples olhar. Agora retornamos àquela emblemática palavra que eu mencionei anteriormente: Virtudes. Agora, ela faz sentido: esse lobo que persegue e ameaça só deseja uma coisa; me fazer crescer virtuosamente. Essa figura era o peso na consciência que eu sempre tive, o medo de não estar fazendo as coisas certas.E algumas pessoas me perguntam por que eu deixei uns espaços em branco no interior do lobo, e acham idiota quando eu digo que não vou preenchê-los de maneira alguma.Ora, para que serviriam esses pequenos espaços em branco se não para me lembrar de que é possível afastar a presença asfixiante do medo da mudança? De que há luz do outro lado? De que toda mudança pode ser bem vinda? As falhas no lobo são as vitórias que eu já consegui. O lobo, afinal, está em mim porque sou eu.Ou assim eu gosto de pensar.E aí, é significado o bastante para você?P.S.: Só uma coisa me causa estranhamento em relação ao meu lobo. Só uma coisa eu admito que não consigo conceber em relação à ele...Mesmo após a minha morte, depois dos meus momentos finais, ele vai permanecer lá. Mesmo quando eu me retirar desse mundo, quando daqui saírem todas as pretensões que são minhas, todas as virtudes que eu tive em mim, todo o conhecimento que amalgamei, ele ainda vai estar lá, lançando a sua encarada à quem quiser ver. E talvez seja ele que meus filhos, meus netos, minha família e amigos vão ver ao se despedir de mim. E isso é real, real demais.Presas expostas e olhos atentos, negro como o desespero, no meu peito, o meu lobo-de-guarda vai lhes lançar um último longo, longo olhar de cautela.Por algum motivo, esse pensamento trás uma sensação que eu não sei definir. O que é apenas mais um dos mistérios dessa enigmática tatuagem que eu fiz, e cuja beleza eu não exito em confessar que talvez só eu seja capaz de ver.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O Advogado
John Grisham parece ter sempre o mesmo a dizer quando o assunto é advocacia: é um trabalho insalubre.
John Grisham é um autor norte-americano, mas antes disso era advogado. Ficou famoso escrevendo thrillers com temática jurídica, de modo que quase toda a sua obra orbita ao redor de tribunais. Mas chegou à minha mão uma obra sua que, ao menos até agora, não é thriller nem tem ação. O nome do livro é O Advogado, e é também o enredo.
Michael Brock é advogado em uma dessas super-firmas de advocacia que só existem nos EUA. Está para se tornar sócio, passando assim a ganhar salários com 6 dígitos. Trabalhar 18 horas por dia não é mais problema para o homem, de apenas 30 anos; em dado momento, ele pondera que já deve ter trabalhado mais nos últimos 10 anos do que muita gente trabalha a vida toda. Ele é casado com Claire, uma cirurgiã competente e que passa tanto tempo fora de casa quanto ele. O divórcio é o poltergeist sentado à mesa da cozinha, esperando os dois lhe darem atenção. Em termos jurídicos, o amor sofreu os efeitos da decadência. Mike e Claire são mais um casal de sucesso profissional e fracasso emocional.
Um evento acontece durante um típico dia de trabalho de Mike: um sem-teto entra na firma com bananas de dinamite presas ao corpo e um revólver, e faz 10 reféns; Mike e outros figurões da firma. A situação é diligenciada nas primeiras páginas, e Mike sai ileso, com o sangue do sem-teto no rosto após uma ação arriscadíssima de um atirador de elite. O sangue pode ser visto de maneira metafórica, porque após o fato o advogado começa a se interessar pela situação dos sem-teto da cidade e sentir culpa por ver uma parcela de sua responsabilidade naquele mosaico. É quando Mike começa a repensar a sua vida, e John Grisham começa a centrifugar a bagunça que pode se tornar a vida dos gananciosos para separar o que, ao final das contas, é importante na vida de um ser humano e o que é ilusão. O resultado é um livro que parece contar desgostos da própria vida do escritor.
10 anos antes, Mike era um estudante de direito promissor numa faculdade de renome, com aspirações pela carreira pública, na defesa dos mais pobres, e apaixonado pela jovem Claire. Enquanto ele sente o frio que sua esposa evoca em relação ao trágico evento que poderia muito bem ter-lhe custado a vida, ele se pergunta onde tudo isso se perdeu. Em que momento a papelada do escritório fez sucumbir as cartas de amor. Com tristeza ele lembra que o motivo pelo qual Claire começou a fazer medicina foi ele: o sentimento de rejeição que o trabalho dele lhe incutia fez com que ela procurasse uma faculdade semelhante onde se enterrar. Agora eles tinham uma casa muito bem mobiliada, só que vazia. Em vários momentos Mike agradece por nunca ter tido filhos, porque ele não gostaria de dar-lhes o desprazer de ver a família se destruir da maneira como promete fazer.
Mike senta sozinho à noite na cozinha imaginando quando a conversa sobre o divórcio vai acontecer. Mike se vê preso na crista da onda que ele deu início. Mike almejava o salário de um sócio, e no caminho sacrificou todo o resto.
“Vamos para a California”, ele diz certo dia, de manhã., à esposa.
“Como assim?”, ela pergunta, levemente interessada.
“Vamos para a California. Só eu e você. Eu peço uns dias de folga do trabalho, você também, e nós partimos. Simples assim. Vamos? Hoje?”, ele explica, como se eles fossem jovens de novo.
“Não posso. Não dá”. Eles não são jovens de novo. Não há retorno.
Cuidado quando você estabelecer suas prioridades; cuidado para que a decepção que você vai sentir no futuro não seja muito grande. Existem mil escolhas que podemos fazer no decorrer dos dias, mas só uma é a correta. Vai ver você não escolheu a faculdade certa, vai ver você não escolheu a pessoa certa, vai ver você não mora no lugar mais apropriado, vai ver a sua família não é a mais adequada, sei lá. John Grisham fala das decepções na carreira jurídica, então imagine que no mundo nem os que amam sua carreira e se tornam milionários são capazes de serem felizes. Tudo é muito mais complexo do que você achava que seria.
Ainda estou para descobrir o que vai acontecer com Mike e Claire, talvez eu lhes conte quando souber.