quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Sobre sonhos e lobos

Eu tive o sonho mais estranho esta noite.

Nele, era mais um dia normal na minha vida, e tudo começou quando eu resolvi sair de casa para cuidar de um assunto; e se não me ilude a memória, foi para comprar alguma coisa. E nesse início, como não depois, a minha casa ainda era de fato a minha casa. Lembro de pegar o carro e de estar atrás de um balcão, esperando receber o produto. Lembro também que, ao sair da loja, ocorreu-me realizar uma outra tarefa. Entrei no carro, dei partida no carro e saí na rua.

A partir daí, o sonho se torna um monte de imagens que se sobrepõe em alta velocidade, e mais transmitem sensações que propriamente elucidam qualquer coisa. Sinto que a realização da outra tarefa logo se tornou uma aventura que me fez percorrer os cantos mais recônditos de uma cidade sem fim. Viajei de ponta a ponta, conheci pessoas novas, fui de objetivo em objetivo; sem nunca voltar para casa. Incansavelmente me punha a procurar e a resolver todos os problemas que pudessem se pôr entre mim e meus objetivos, estendendo sempre mais uma viagem que se esticou de tal forma no meu peito que pareceu levar anos. Não mais tinha eu de comprar coisas, mas encontrar objetos, realizar trabalhos, atender favores, fornecer ajuda, pesquisar soluções, todo tipo de deveres que surgem regularmente no cotidiano de uma pessoa que busca desenvolvimento e crescimento pessoal.

No meu caminho, conheci várias pessoas diferentes. Não me é possível lembrar-me a fundo das características de nenhuma em específico, mas sei que algumas foram reaproveitadas pela minha mente da minha própria vida. Alguns rostos, embora embaralhados de forma a impossibilitar a minha lembrança clara, eu sinto que conheci de verdade, enquanto outros foram simplesmente inventados. Lembro de sentir, no entanto, ter me apegado a diversos desses rostos embaçados; alguns me ajudaram a resolver meus problemas, outros eu ajudei de alguma forma. Alguns por um tempo levei para rodar em meu próprio carro, uns por obrigação, outros por afeto mesmo. Sinto a alegria de conhecê-los e a tristeza por vê-los partir como se cada uma dessas ocasiões tivessem sido verídicas. Lembro também que cresci pessoalmente com a convivência que tive com cada um deles, nas dezenas que foram. O sonho foi evoluindo, durante essa viagem, em algo que nunca antes meu subconsciente conseguiu sintetizar, de modo que no final dela, e até agora enquanto escrevo este texto, meus sentimentos são afetados pela realidade de tudo aquilo.

Durante a viagem, além das pessoas que fui conhecendo, fui ganhando presentes e adquirindo itens que guardei no porta-malas do carro; como as conquistas que vamos acumulando durante nossas vidas. Quanto mais viajava, quanto mais cumpria meus objetivos, mais coisas tinha para guardar no porta-malas; testemunhas de meus sucessos. Aquilo, assim como a experiência que eu adquiria com as outras pessoas, enchia-me o peito de glórias. Eu enriqueci de todas as formas durante minha viagem...

Até que anoiteceu. No sonho, não lembro se foi a primeira noite que encontrei, ou se muitas outras se passaram ( o que seria mais lógico, já que para mim foram anos que se sucederam). Sei que foi a noite mais nítida de todas, para não dizer a única. Lembro de descer as escadas de uma casa num terreno deserto, com um prato de comida em minhas mãos. O prato estava protegido numa bandeja tampada, e a rua que me esperava ao pé da escada era iluminada apenas por um poste, e de todo modo solitária. Entrei no carro e segui para casa.
Minha casa não era mais a minha casa, mas uma espécie de escola, onde várias pessoas da minha idade moravam. Estacionei o carro, e única coisa que levei dele comigo foi a comida; parecia ser ela a culminação de todo o meu esforço, o objetivo maior e mais recompensador. Entrei pela porta da frente com uma alegria que não cabia no peito, levando a bandeja com minhas duas mãos, muito orgulhoso. No corredor de minha casa, que mais parecia com os largos e cheios corredores de uma escola, entretanto, fui encontrando colegas que me olhavam... feio. Todos passavam e me lançavam olhares enojados, irritados. Fui começando a sentir um aperto no estômago, ao invés de felicidade no peito. Logo senti minha expressão facial transformar-se numa clara indagativa. Queria saber por quê todos me tratavam com desdém e reprovação. Até porque grande parte dos que passavam eu havia conhecido na minha viagem, e por eles nutria muita consideração. Os corredores lotados de discórdia pareciam exageradamente longos, e ao final meu coração já batia acelerado e uma paranoia havia se apossado de mim.

Finalmente, após longo caminhar, cheguei no refeitório (sim, era um refeitório, com muitas daquelas mesas longas de praça-de-alimentação, cheia de cadeiras para acomodar centenas de pessoas). Logo na entrada, no entanto, fui abordado por uma figura de rosto fora de foco que finalmente me explicou o motivo de tanto ódio:
“No decorrer de sua viagem, Haroldo, você se utilizou de todas as pessoas com que teve contato; sempre de maneira egoística, impessoal, tratou de se aproveitar, de sugar o que elas tinham a oferecer de melhor, e não hesitou em chutá-las para fora de seu carro assim que se sentia completo e satisfeito. Você fez mal para absolutamente todas as pessoas com que teve contato, e elas não carregam senão sentimentos ruins sobre você.”

Aquela declaração doeu-me. Doeu-me ainda mais porque aquele rosto fora de foco tinha alguma espécie de carga emocional de grande efeito em mim. Aquelas palavras fizeram-me sentar e assistir uma segunda vez minha viagem, onde pude então reparar que de fato, muito embora no momento não tivesse sido capaz de perceber, eu tratava as pessoas como se objetos fossem, elaborados com o único propósito de satisfazer-me as necessidades. Reparei então a tristeza que lhes infligia com a minha partida, e a frieza com que nunca mais fazia questão delas ou coisa que o valha. E de repente, o refeitório estava vazio. Vazio como se nunca uma alma houvesse posto o pé lá. Afora eu, claro.

Lembro que o refeitório, suas mesas, cadeiras, paredes e tudo o mais, eram de cor predominantemente branca. A claridade era simplesmente elucidativa. Lembro-me então de, em silêncio, abrir minha bandeja com comida. A bandeja não me trazia mais nenhum contentamento; era um sabor amargo de decepção e angústia o daquela comida. Comi em silêncio, completamente sozinho e de cabeça baixa, como se nunca minha vida houvesse me trazido qualquer tipo de felicidade. Até que levantei a cabeça para encontrar à minha frente um grande lobo negro, como que saído do vazio, que se sentava à mesa como se gente fosse. Podia muito bem ser alguém fantasiado, sentado com as mãos à mesa, imóveis; só que era um lobo, com focinho, pelo farto e muito magro. Gostaria de poder recordar a cor de seus olhos mas sou completamente incapaz, portanto em minha memória seus olhos eram brancos como a sala ao redor. Ele me observava calmamente, e não demorou a falar. E o mais assustador de tudo era que, apesar do aspecto agourento, sinistro, sua voz era tranquila, racional e insanamente sensata:

    • Então, qual é afinal o gosto da comida de que agora desfrutas?

Acordei, mas o sonho me matou um pouquinho.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Tipo sexta, ou tipo segunda.

Acordo.

Olhos ainda fechados, estendo a mão e procuro o celular. Duas em três vezes, ele não está onde minhas mãos pensavam que estaria. Pequena primeira frustração, mas moedas de 1 centavo também enchem cofres. Abro os olhos e localizo-o, embaixo de uma pilha de outras coisas inúteis que eu não sei como foram parar em cima dele. Com cuidado, puxo-o para mim; com estrondo, coisas caem no chão.

19 horas de um dia que eu não sei qual é. Pode ser segunda ou quinta-feira ou qualquer coisa entre eles. Eu sei disso porque fui trabalhar hoje, e não me lembro de ter sorrido ao sair cartório, o que eu só faço às sextas.

Tive uma prova hoje, fiz com facilidade. O que me assusta, visto que só entendem de dificuldades aqueles que podem lidar com elas. Eu me sento, coço o olho. Na minha estante, meus livros me avaliam. Eles são reflexos da minha vida: metade deles é de ficção, metade é de Direito. E ainda assim, nenhum deles tem coisa alguma a ver com a minha alma. Tenho alguns de autoajuda também, mas são poucos. Me pergunto se não deveria adicionar alguns mais à pequena biblioteca. De qualquer forma, após tantas leituras, de que adiantam minhas opiniões formadas, que mesmo se forem continentes imensos e sólidos, flutuam à deriva num oceano mil vezes maior? Não há nada que eu possua de que não possa me desfazer.

De volta a mim, me levanto. Meus olhos encontram meu mural de fotografias. Eu sempre me esforcei para mantê-lo sincronizado com a minha vida, com fotos recentes e rostos familiares. Não surpreende então percebê-lo vazio. Um dia ele já foi cheio, mas prometi a mim mesmo atualizá-lo. Removi todas as fotos, então, mas ainda não pude selecionar novas para revelar. Ele está num entre-tempo, assim como a minha vida. Suponho que não falhei em mantê-lo sincronizado, portanto. Talvez eu precise de ajuda para voltar a povoá-lo, não sei.

Já é de noite, o dia me escapou por entre os dedos. O que fazer agora? Ainda não malhei, ainda não estudei, não tenho encontrado tempo para essas coisas ultimamente. Onde tenho gastado meu tempo? Não ligo TV, meu videogame já está empoeirado. O que ando fazendo? É essa a época dourada da minha vida?

Um amigo me disse que haveria uma competição de poesia, chefiada pela Academia Amazonense de Letras. Por dentro, morri de vontade de participar. Não posso, entretanto, evitar lembrar que mentes instáveis como a minha não produzem versos coerentes. Já fui subjugado antes mesmo de pousar a caneta no papel. Desisto sem tentar. Eu sei que a pior classificação é nenhuma em absoluto, mas existe um placebo em não competir. Que, pensando bem, é como tenho me medicado nos últimos 20 anos ou tanto.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A tatuagem que eu fiz

As pessoas vêm me pedir para mostrar a minha tatuagem freqüentemente. Algumas, ao contemplá-la, arregalam os olhos e elogiam sinceramente. Outras, ficam desconsertadas e mudam de assunto. Uma até já disse que não gostou, assim, na lata. Acho que elas esperavam algum desenho super elaborado, colorido, rico em detalhes... Mas, ao contrário, encontram um esboço negro, uma sombra no formato de um lobo, com irregularidades descoloridas em seu centro. Decepcionante para alguns, interessante para outros, é isso que eu percebo.
Bem, se tivesse sido meu objetivo retratar algo mais propenso à bel satisfação dos telespectadores, com certeza ela não estaria num lugar de difícil contemplação, e sim nos antebraços ou panturrilhas ou coisa que o valha. Como um dia irei fazer; aguardem que um dia virá algo bem maior e mais colorido e detalhado. Mas por enquanto, primeira tatuagem, eu escolhi algo mais simples.
Aí vem aquela famosa pergunta, que já virou bula de tatuagem: "E tem algum significado?".
“É de um livro que eu gosto muito”, respondo às vezes. “É uma imagem que eu gosto de olhar”, eu respondo outras; já cheguei a dizer até "É que eu gosto de lobos", como se existisse também a possibilidade de eu tatuar uma garrafa de coca cola. A questão é que essa imagem em particular exerce certa fascinação sobre mim, e eu nunca soube explicar por quê. De fato, eu gosto de olhá-la. Quando eu a vejo, uma palavra salta à minha mente: virtudes.
Virtudes.
Quando eu olho para o desenho, eu literalmente tenho vontade de ser uma pessoa diferente, uma pessoa melhor. Pode parecer estranho, mas essa deve ser uma daquelas conexões que a mente faz sozinha, sem pedir o nosso parecer.
A adolescência pode ser um período difícil, e eu admito que a minha só foi difícil até o ponto em que eu me fazia dificultá-la; afinal, nunca nada me faltou. E ainda assim, crescer tem se mostrado uma tarefa complexa, e a maturidade tem sido um cálculo renal duro de expelir. Me assombra o quanto as pessoas notam que eu mudei, mas nem passa perto do tanto que me assusta o modo como eu percebo ter mudado. Os textos desse blog, vocês talvez tenham percebido, possuem um tema implícito recorrente: o amadurecimento. É um tema que eu tenho notado, mesmo sem tê-lo em mente quando escrevo. Talvez porque o meu subconsciente tenha sido incisivo na mensagem: crescer é doloroso. Eu me arrasto por corredores escuros de nostalgia, me afogo em pessimismo e não raro me isolo por pura melancolia.
Crescer é difícil.
As responsabilidades que cauterizam o saudável amadurecimento são uma fera, uma fera cuja face não se pode racionalmente distinguir, então eu a vejo como uma sombra; uma sombra que persegue onde quer que se vá. Um vulto negro que não conseguimos divisar, mas cujos efeitos podemos facilmente sentir. Eu sei que essa fera possui grandes presas, porque são essas presas que causam as feridas que vão me ensinar a caminhar com minhas próprias pernas por onde a vida me levar. Eu sei também que ela possui olhos atentos que estudam, esperam e julgam; é com esses olhos que essa fera me avalia, e é através deles que um dia eu vou aprender a enxergar. Neste dia então, neste longínquo dia em que eu finalmente aprender a extensão de minhas consequências, é que a fera vai me dar espaço para respirar. Não estou dizendo que ela vai me deixar em paz, porque isso jamais acontecerá; os homens tem suas feras, suas bestas e seus demônios acorrentados a si da mesma forma como possuem jeito de falar e maneira de pensar. E, se caso contrário, eu não aprender com suas dentadas corretivas, eu sei que só vai me restar sofrer. Sofrer em solidão com os erros que cometi, quase como um lobo que se afasta para lamber suas feridas.
Essa é a fera à qual devo ficar atento: a sombra de um lobo com a boca arreganhada e olhos bem abertos. Que agora eu carrego no lado esquerdo do peito, um lembrete de tudo o que preciso lembrar. Ele me espreita, me assusta, me aconselha, tudo com um simples olhar. Agora retornamos àquela emblemática palavra que eu mencionei anteriormente: Virtudes. Agora, ela faz sentido: esse lobo que persegue e ameaça só deseja uma coisa; me fazer crescer virtuosamente. Essa figura era o peso na consciência que eu sempre tive, o medo de não estar fazendo as coisas certas.
E algumas pessoas me perguntam por que eu deixei uns espaços em branco no interior do lobo, e acham idiota quando eu digo que não vou preenchê-los de maneira alguma.
Ora, para que serviriam esses pequenos espaços em branco se não para me lembrar de que é possível afastar a presença asfixiante do medo da mudança? De que há luz do outro lado? De que toda mudança pode ser bem vinda? As falhas no lobo são as vitórias que eu já consegui. O lobo, afinal, está em mim porque sou eu.
Ou assim eu gosto de pensar.
E aí, é significado o bastante para você?
P.S.: Só uma coisa me causa estranhamento em relação ao meu lobo. Só uma coisa eu admito que não consigo conceber em relação à ele...
Mesmo após a minha morte, depois dos meus momentos finais, ele vai permanecer lá. Mesmo quando eu me retirar desse mundo, quando daqui saírem todas as pretensões que são minhas, todas as virtudes que eu tive em mim, todo o conhecimento que amalgamei, ele ainda vai estar lá, lançando a sua encarada à quem quiser ver. E talvez seja ele que meus filhos, meus netos, minha família e amigos vão ver ao se despedir de mim. E isso é real, real demais.
Presas expostas e olhos atentos, negro como o desespero, no meu peito, o meu lobo-de-guarda vai lhes lançar um último longo, longo olhar de cautela.
Por algum motivo, esse pensamento trás uma sensação que eu não sei definir. O que é apenas mais um dos mistérios dessa enigmática tatuagem que eu fiz, e cuja beleza eu não exito em confessar que talvez só eu seja capaz de ver.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Advogado

John Grisham parece ter sempre o mesmo a dizer quando o assunto é advocacia: é um trabalho insalubre.

John Grisham é um autor norte-americano, mas antes disso era advogado. Ficou famoso escrevendo thrillers com temática jurídica, de modo que quase toda a sua obra orbita ao redor de tribunais. Mas chegou à minha mão uma obra sua que, ao menos até agora, não é thriller nem tem ação. O nome do livro é O Advogado, e é também o enredo.

Michael Brock é advogado em uma dessas super-firmas de advocacia que só existem nos EUA. Está para se tornar sócio, passando assim a ganhar salários com 6 dígitos. Trabalhar 18 horas por dia não é mais problema para o homem, de apenas 30 anos; em dado momento, ele pondera que já deve ter trabalhado mais nos últimos 10 anos do que muita gente trabalha a vida toda. Ele é casado com Claire, uma cirurgiã competente e que passa tanto tempo fora de casa quanto ele. O divórcio é o poltergeist sentado à mesa da cozinha, esperando os dois lhe darem atenção. Em termos jurídicos, o amor sofreu os efeitos da decadência. Mike e Claire são mais um casal de sucesso profissional e fracasso emocional.

Um evento acontece durante um típico dia de trabalho de Mike: um sem-teto entra na firma com bananas de dinamite presas ao corpo e um revólver, e faz 10 reféns; Mike e outros figurões da firma. A situação é diligenciada nas primeiras páginas, e Mike sai ileso, com o sangue do sem-teto no rosto após uma ação arriscadíssima de um atirador de elite. O sangue pode ser visto de maneira metafórica, porque após o fato o advogado começa a se interessar pela situação dos sem-teto da cidade e sentir culpa por ver uma parcela de sua responsabilidade naquele mosaico. É quando Mike começa a repensar a sua vida, e John Grisham começa a centrifugar a bagunça que pode se tornar a vida dos gananciosos para separar o que, ao final das contas, é importante na vida de um ser humano e o que é ilusão. O resultado é um livro que parece contar desgostos da própria vida do escritor.

10 anos antes, Mike era um estudante de direito promissor numa faculdade de renome, com aspirações pela carreira pública, na defesa dos mais pobres, e apaixonado pela jovem Claire. Enquanto ele sente o frio que sua esposa evoca em relação ao trágico evento que poderia muito bem ter-lhe custado a vida, ele se pergunta onde tudo isso se perdeu. Em que momento a papelada do escritório fez sucumbir as cartas de amor. Com tristeza ele lembra que o motivo pelo qual Claire começou a fazer medicina foi ele: o sentimento de rejeição que o trabalho dele lhe incutia fez com que ela procurasse uma faculdade semelhante onde se enterrar. Agora eles tinham uma casa muito bem mobiliada, só que vazia. Em vários momentos Mike agradece por nunca ter tido filhos, porque ele não gostaria de dar-lhes o desprazer de ver a família se destruir da maneira como promete fazer.

Mike senta sozinho à noite na cozinha imaginando quando a conversa sobre o divórcio vai acontecer. Mike se vê preso na crista da onda que ele deu início. Mike almejava o salário de um sócio, e no caminho sacrificou todo o resto.

“Vamos para a California”, ele diz certo dia, de manhã., à esposa.

“Como assim?”, ela pergunta, levemente interessada.

“Vamos para a California. Só eu e você. Eu peço uns dias de folga do trabalho, você também, e nós partimos. Simples assim. Vamos? Hoje?”, ele explica, como se eles fossem jovens de novo.

“Não posso. Não dá”. Eles não são jovens de novo. Não há retorno.

Cuidado quando você estabelecer suas prioridades; cuidado para que a decepção que você vai sentir no futuro não seja muito grande. Existem mil escolhas que podemos fazer no decorrer dos dias, mas só uma é a correta. Vai ver você não escolheu a faculdade certa, vai ver você não escolheu a pessoa certa, vai ver você não mora no lugar mais apropriado, vai ver a sua família não é a mais adequada, sei lá. John Grisham fala das decepções na carreira jurídica, então imagine que no mundo nem os que amam sua carreira e se tornam milionários são capazes de serem felizes. Tudo é muito mais complexo do que você achava que seria.

Ainda estou para descobrir o que vai acontecer com Mike e Claire, talvez eu lhes conte quando souber.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cenas de uma Vara Criminal.

Pessoas.
Numa multidão recortada de uma cena cotidiana, o que você acha que sabe dos indivíduos que a formam? Você acha que seus anos de experiência, sua vivência, podem lhe dizer algo de alguém por um simples olhar? Uma parada de ônibus, uma praça de alimentação. Uma mãe com seu filho ainda de colo, um homem com sua pasta de documentos, um obreiro e suas ferramentas. Qual é o histórico das pessoas que integram o mosaico do cotidiano?
No meu cartório, diligenciei a assinatura de um homem magricela, cavanhaque e cabelos compridos. No início, ele entrou cabisbaixo e respeitoso na sala da Vara, afetado, e ao final do procedimento ele foi simpático, até estendeu a mão para um cumprimento de despedida; o que é raríssimo, evento quase semanal. Após lhe desejar bom dia, eu me voltei ao seu processo e fui ler o que o lhe levara a mau termo com a Justiça, ainda com a boa educação do rapaz em mente.
Onde trabalho, lido primordialmente com infrações criminais tolas, como dirigir sob a influência de álcool, uso de entorpecentes, injúrias e coisas do tipo. Alguns poucos processos são mais sérios, como o próprio tráfico de drogas, roubo e alguns homicídios em liberdade condicional; mas de mil processos, estes são apenas 60. E o processo desse rapaz era um desses.
Pela idade e aparência em geral, eu deduzi que se tratasse muito provavelmente de roubo a mão armada, ou, na pior hipótese, de tráfico.
Os artigos 213, 224, “a” e 121 do código penal são artigos que marcam o estudo de um acadêmico de Direito. São também os artigos que eu vi no processo. Quem sabe entende porquê, ao vê-los, não pude evitar se não erguer a cabeça em sobressalto, como se tivesse levado uma estocada, e procurei ao redor sinal de alguém que pudesse dividir a surpresa comigo. Ao ver que ninguém notara minha reação, fiquei a pensar que mão era aquela que eu apertera. Meu olhar ficou, instintivamente, na maçaneta da porta, como se o rapaz pudesse voltar a qualquer momento.
O artigo 213, em conjunção com o artigo 224, “a”, trata de estupro de menor; Pedofilia. Que foi o primeiro crime do rapaz, algum tempo atrás. Não se computa a invasão de domicílio que ele teve de realizar para estuprar a filha de uma mãe solteira. Mas calma lá, porque o artigo 213, sozinho, trata de estupro, que é outro crime que ele cometeu, um ano depois, ao invadir a casa de um casal no meio da noite. E a faca que ele afundou no peito do marido da moça quando ela resolveu gritar é o famoso 121; Homicídio.
Não é necessário dizer que nunca, nunca passou pela minha mente que um dia uma figura com uma ficha desse tipo ia apertar minha mão. Ia me desejar bom dia. Expressar um ato tão singelo de humanidade.
É quando eu lembro que todas as figuras vilanescas da história de que ouvimos falar eram também humanos. É quando eu lembro que tudo o que ouvimos chamar de “desumano” foi na verdade ato humano. Humano até demais.
Inocência é um frasco de que irrompemos ao crescer. Confiança é a ilusão que construímos para não ficarmos simplesmente assustados demais para sair de casa.
Já vi mortes por motivos tolos, como dinheiro para cachaça ou desentendimento acerca de um jogo de sinuca. Já vi mortes por motivo nenhum; é difícil dizer qual choca mais.
Tenho 19 anos e já sei que mãos que destroem famílias podem ser as mãos de qualquer um que se aproxima num dia como qualquer outro.
Se Deus existe, ele está sempre de preto, em luto constante, porque os piores monstros são também filhos dele, mais do que são irmãos para mim.

sábado, 26 de março de 2011

A Civilização está morta

É uma criança de 14 anos. Alto e magricela, o rapaz parece uma boneco de madeira à lá Pinóquio; com braços e pernas compridos e finos, que ficam evidentes fora da regata que ele traja. Quem é ele? Sei que tem 14 anos. Será que ele é um bandido? Ele já roubou? Talvez ele já tenha machucado alguém. Talvez não. Sei que ele caminha por ruas estreitas com casebres de salário mínimo durante a noite. E é de noite que as bestas dentro dos homens saem para caçar. Mas o jovem não sabe disso. Ele nunca acreditaria que o seu destino tomaria a via que tomou, nem mesmo se alguém que pudesse prever o futuro numa bola de cristal lhe dissesse. Essa noite vai ser tragicamente diferente para o desavisado. Um olho mecânico assiste a tudo, impotente é verdade, mas é testemunha implacável.

As bestas começam a vasculhar a rua; vão descendo casa por casa, quintal por quintal, rabo empinado, olhos atentos e focinhos em guarda. Farda decorosa para criaturas repugnantes, eles são a polícia que nunca na vida policiou. Eles se espalham enquanto farejam a rua sem saneamento, as criaturas desasseadas de mente insanável, decrépitas e antiéticas que vistoriam cada sombra e cada buraco. Espectros movidos pela raiva e pelo instinto, eles finalmente acham a trilha da presa, e em questão de minutos ela está cativa. São vários brutamontes portanto coletes a prova de bala, com revólveres nas cinturas, teflon e plástico, pólvora e projéteis; e apenas um jovem com 14 anos na cabeça e pouca carne no corpo, crimes ou não, inocente ou depravado, ao fim e ao cabo, apenas acuado. Eles envolvem o rapaz no perímetro de violência, com um muro às costas. De repente, todas as armas são retiradas de seus coldres e os olhos do rapaz, enquanto se enchem de lágrimas, ricocheteiam de pistola para pistola. 1, 2 , 3... E agora?

Empurram pra cá, empurram pra lá, você já assistiu à bullying na escola? Pois é, a situação é similar. Quem se importa com o garoto, ele está chorando só um pouco mais forte agora. Um dos diabos enfia o revólver no rosto do rapaz, como se ele precisasse de mais um lembrete da existência do aparato; como se ele pudesse se esquecer dela por um momento sequer. Subitamente, o diabo enfia a arma no coldre novamente. Esperança? Não depois que o flash iluminou a noite e o trovão alertou a vizinhança, que finge que dorme. Primeiro tiro, e a bala atravessou o rapaz e foi parar no muro. O rapaz se contorce de dor e tenta sair dali rápido. Os fardados assistem enquanto ele manca pra longe, deixando ele se afastar. Esperança? Não quando o ouvido do rapaz capta o som do trotar dos pés dos diabos, quem vêm correndo logo atrás. Rapidamente, a presa é alcançada de novo. Dessa vez, sem terror psicológico; outro fardado levanta seu canhão e põe ferro no pulmão do jovem. Oxigênio e sangue. O rapaz se contorce. Grita de dor e cai no chão. Viria então o tiro de misericórdia. Seco, sucinto e na cabeça. Mas outro fardado intervém com um tiro pra cima, ao que os outros olham assustados; eles não se entendem nem entre eles mesmos. Então, os malditos parecem concordar em levar o menino vivo. Eles o segurando pelo cotovelo, o levantam e o empurram pela rua, em direção à viatura. Em algum momento, quando o foco da filmagem se perde atrás de uma árvore, ouvimos um novo bang e mais um flash pode ser percebido; a presa tomou outro tiro de graça. Talvez porque ela não estivesse andando depressa o suficiente.

Então, os fardados empurram o rapaz pela calçada. As bestas movendo a carcaça. De vez em quando ele pára para vomitar sangue, mas quem se importa? Às vezes, ele simplesmente cai de joelhos no chão, as suas forças drenadas em poças no chão, ao longo do trajeto. Mas as bestas empurram e mandam andar. Andar. Andar. Andar. Em direção à uma existência mais sofrida, menos merecida.

Eu faço Direito para entender as coisas. Para poder discernir o certo do errado. Para poder pesar fatos e apresentar um parecer positivo. O vídeo que eu assisti mostra policiais militares torturando um jovem indefeso. O jovem, muito provavelmente um ladrãozinho, nunca revida. Os seus protestos são suas lágrimas e seus gritos de dor. Eu aprendi que quando um crime é cometido, ele é punido com uma sanção previamente aprovada. Mas a sociedade tenta nos ensinar, em momentos assim embrulhados pela noite, que na verdade os crimes são punidos com crimes piores, e que os seres humanos se jogam numa espiral de mútua degradação. Estardalhando no chiqueiro.
Outro dia um amigo meu disse que acha que a sociedade já alcançou um nível de desenvolvimento tão alto, tão diplomático, que ele questionou até a própria existência do Exército e das Forças Armadas para fim de situações de guerra e pacificação social. Eu revidei dizendo que, oras, aposto que em 1915 os homens também tinham essa sensação de modernidade, de segurança, e que isso não os impediu de atravessar 2 guerras mundiais. Aí ele redarguiu com um pouco de impaciência que, porra, os tempos são outros agora. Somos avançados.

Bem, um abraço forte para todos os que compartilham as ideias desse meu amigo, ok? Sensação de segurança é como aquele momento de torpor inexplicável que sentimos antes da lâmina cortar a nossa garganta: não serve para nada, é puro escapismo existencial.

Sabe aquele cantor do Restart babaca lá e o comentário famoso dele acerca da nossa região? Pois é, eu quero ir contra a corrente e concordar com ele. Não cara, nós realmente não temos civilização por aqui. Sério mesmo. A civilização morreu ainda no parto.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Um discurso não muito interessante

Ok, então hoje eu venho a vós um pouco irritado. Ultrajado, para não falar de menos.

Vou ser conciso, porque a questão meio que arde em meu peito. Aliás, para não parecer demasiado superficial, vou lembra-lhes que sou cinéfilo – pronto, agora a crítica e a urgência devem fazer sentido.

Então, temos a seguinte questão: O Discurso do Rei é um filme inglês sobre a realeza britânica durante um momento crucial da história do – bem, do mundo: a Segunda Guerra Mundial. Mais à fundo, é sobre a superação do ainda-por-ser Rei, George VI. O filme adota a luta pela superação da gagueira do protagonista (que era simplesmente incapaz de falar em público) como metáfora para a sua preparação e então devida ascensão ao trono – trono este que ele toma de seu irmão irresponsável por meios completamente legais. O filme tem uma porcentagem de 95% de apreciação no site (meu favorito) Rotten Tomatoes, e foi indicado à 12 oscars. Tem performances excelentes de Colin Firth (ator principal) e Geofrey Rush (ator coadjuvante).

12 oscars. Uau. Isso é épico. Entrou para a história como um dos poucos filmes a ser tão bem indicados (perto de Ben Hur, Titanic e Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei). Sério mesmo? Digo, o filme termina com a tão esperada superação do personagem principal, que parece vencer a gagueira num discurso histórico que é refeito na íntegra para o telespectador. O discurso à mesa é o que expõe a posição da Inglaterra em relação à Alemanha; que se opõe ao nazismo ou coisa que o valha. O filme tenta transformar uma simples situação enunciativa no seu próprio ponto culminante, mas que infelizmente carece de valor ao telespectador desinteressado. A impressão que ficou, pra mim, foi bem adversa: que a vida daquele Rei era tão vazia que esses simples discursos eram a coisa mais importante que havia na Monarquia.

Enquanto eu enfrentava as 2 hrs de filme, eu sabia que a simples gagueira do protagonista não era grande empecilho. Oras, um rei que sabe falar é bom, mas um rei bom de verdade tem muitas outras qualidades. Eu sei disso. Eu espero que todos saibam disso. Não que o papel quase que meramente estético da monarquia seja assim tãão importante, mas tudo bem, eu vou pegar leve com os ingleses. O filme chega ao extremo de associar a Monarquia à “Voz do povo”, e que portanto um “Rei Gago” seria um absurdo, e que era absolutamente imperioso que o George conseguisse ler algumas linhas na rádio de vez em quando. O filme aproveita também e omite o fato de que o seu irmão, que perde o trono, era NAZISTA. Tudo o que mostram as câmeras é um cara gente boa, mas que está perdidamente apaixonado pela esposa, que por alguns motivos não pode virar rainha, e que é por causa disso que ele renuncia ao título de rei. Bem, pois é, ele era NAZISTA; permanecer no poder teria sido UM ABSURDO de qualquer forma, então o George IRIA subir ao poder, sendo ele gago, perneta, cego ou que quer que fosse! E outra; depois que George sobe ao poder, ele permanece com medo de que o povo não o queira lá; o que eu sei também ser um ABSURDO, porque hey, quem diabos ia apoiar o rei nazista? Opa, eu desmontei o “melhor filme do ano”? Me desculpa, eu nem prestei atenção. É que o filme é uma ilusão de câmera bem arquitetada, mas é na verdade tão frágil que alguma pesquisa histórica desmonta completamente o seu valor; como um truque barato de mágica, o filme passa a ser só uma mentira supervalorizada.

Aí nós temos filmes como Cisne Negro, A Rede Social, O Vencedor e, por que não, A Origem. Excelentes filmes, todos. Foram todos indicados à vários oscars. O meu favorito é O Vencedor; o filme trata sobre problemas pessoais numa família que enfrenta franca decadência, e como as várias faces do amor verdadeiro podem levar as pessoas em direções tão diferentes. O filme é ótimo, o filme é inteligente, o filme é profundo, o Christian Bale está simplesmente legendário na atuação que é facilmente a melhor do ano (tanto como ator coadjuvante como ator protagonista), e pô, o filme pegou 90% no RT e 7 indicações ao oscar. O que não é pouco, eu sei, mas 5 à menos que O Discurso do Rei. Gente, por favor. Por quê? O Vencedor, e todos os filmes que eu citei são melhores, muito melhores que O Discurso do Rei. Cisne Negro é mais filosófico, O Vencedor é mais humano e mais psicológico, A Rede Social é mais bem escrito e bem elaborado, e A Origem é, bem, mais original.

Nessas horas eu questiono se não existe certa confraria entre os críticos de cinema mais conceituados, ou se o trabalho deles é mesmo tão massificante que eles têm o mesmo gosto e os mesmos valores pessoais. A comparação entre O Discurso do Rei e O Vencedor foi proposital: ambos os filmes são baseados em histórias reais, ambos envolvem superação,ambos omitem certos fatos em prol de uma melhor dramaturgia e ambos tem um final óbvio de doer. A vantagem de O Vencedor é que ele consegue ser bom sem ser, UAU, monótono. Os caras de terno de O Discurso do Rei podem argumentar o que quiserem, mas qualquer história, quando bem contada, consegue ser mais interessante do que a simples monotonia que o filme é. A diferença avassaladora, meus leitores, é simples: um dos filmes lida com a pomposa Monarquia inglesa, enquanto o outro lida com uns boxeadores desconhecidos e de vida suburbana. Então, só por isso, o primeiro filme já sai em disparada na frente. É como se os caras do Oscar estivessem sentados tomando uma heineken e falassem “Hey, esse filme aqui sobre a monarquia britânica é bacana! Uau!”, aí outro falasse “Mas pô, esse daqui sobre a vida dos boxeadores também é muito bom!”, ao que a maioria dos presentes responderia “E daí, cara? AQUELE fala sobre a MONARQUIA BRITÂNICA! Isso é tipo, tão mais merecedor que qualquer outra coisa!”.

Digo, desculpa se eu não sou hipócrita a esse ponto, mas eu vou ao cinema para ver boas histórias serem contadas de uma maneira profissional, sem favorecer este ou aquele enredo só porque ele aborda este ou aquele tema. Tudo é filme, gente, nenhum deles faz diferença real, não é como se a Inglaterra estivesse dependendo do sucesso de O Discurso do Rei. O que faz diferença é que no final das contas, um filme é mais bem feito que o outro.

Se a função do cinema fosse fazer com que ficássemos ligado na história inglesa, sério, eu comprava um livro. Agora, um desabafo final: eu já sabia que na sociedade humana, as pessoas “nobres” e com maior valor de mercado levavam todo tipo de vantagem em cima das pessoas anônimas, mas agora ficou óbvio que até os filmes sobre essas pessoas nobres levam vantagem sobre os filmes sobre pessoas anônimas! Uau, até que para um filme cujo cerne é a defesa da democracia, O Discurso do Rei se revela completamente antidemocrático!